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letlive – If I’m The Devil

Os letlive têm-se tornado uma referência no panorama do Post-Hardcore desde que se estrearam com Speak Like You Talk, que passou despercebido já no longíquo ano de 2005.

A seu favor têm não só os seus espectáculos incendiários ao vivo, que os colocam ao lado de gigantes como Dillinger Escape Plan ou At The Drive-In em reputação, mas também uma rota ascendente no estúdio que se notou com o fantástico Fake History, de 2010, seguindo-se a auto-superação que parecia impossível no clássico moderno que é The Blackest Beautiful, de 2013.

Desta forma, havia muita curiosidade em saber o que a banda de Los Angeles ia fazer a seguir, sobretudo depois da primeira amostra com o single “Good Mourning, America” mostrar uma faixa viciante e política, mas bastante convencional para um conjunto que nos habituou à fusão de Punk vivaço com Jazz, Soul ou Hip-Hop.

No entanto (e apesar de acreditarmos que os letlive seriam capazes de nos entregar um disco de Punk cru que nos deixasse a salivar por mais), ‘contenção’ e ‘simplicidade’ não são as palavras de ordem de If I’m the Devil, que explora ainda mais os limites entre a música pesada e o Universo alternativo que estes músicos criaram para si.

Sem dúvida que o CD aposta (ainda) mais em enfatizar a voz de Jason Butler, cuja presença e registo abrangente o tornam num trunfo como poucos no Rock actual, mas isso não significa que os restantes membros estejam desatentos ou se acomodem na sombra daquele que é o líder indiscutível da banda.

Se o caldeirão de influências do grupo já era vasto e e isso transparecia nos registos anteriores, no novo álbum atingimos novos limites em que a ambição dos letlive é palpável, seja pelo riff de Surf Rock que abre “A Weak Ago” até explodir numa faixa de fúria Punk, ou pela emoção mal contida na épica “I’ve Learned To Love Myself” que abre o CD de uma forma maior que a vida, com Butler em grande destaque na sua entrega e paixão.

Encontramos momentos para sorrir até nas faixas mais convencionais, como na power ballad “Foreign Cab Rides” que, mesmo de refrão gasto, nos conquista com a sua sinceridade e o assombro com que a voz nos assalta em “Well I know that I’m pathetic/I knew before you said it“, ou no ataque de Hardcore Punk que é a veloz “Another Offensive Song”.

Liricamente, o humor e a ironia continuam a pautar as faixas de If I’m The Devil, como se nota na tremenda “Elephant” e na sua metáfora interna, embora se note uma maturidade algo pessimista em letras ora políticas, ora nihilistas, ocupando ainda todos os espaços entre elas, como na assombrosa faixa-título, melhor momento do disco e repleta de momentos memoráveis que culminam no entoamento uníssono de “I am singing for you” acompanhado de um dos mais belos riffs de guitarra que ouviremos este ano.

Fechando o registo em grande com a dramática “Copper Colored Quiet”, os letlive conseguiram no seu novo álbum não só suplantar o seu disco anterior e criar o melhor trabalho da sua carreira, como também assinar um novo clássico que os empurra para um género só seu, em que as fronteiras entre música pesada, popular e orquestralmente dramática se dissolvem de forma irreconhecível, emergindo como um conjunto complexo e desafiante, mas recompensador como poucos.