Metallica – Hardwired… To Self-Destruct

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E eis que, volvidos 8 anos desde Death Magnetic, com um filme, uma das colaborações mais infames da História da Música (Lulu, com Lou Reed, dificilmente irá receber elogios dos fãs num futuro próximo) e muitos outros projectos que tornam a família Metallica em muito mais do que uma banda e mais próximos de uma marca, chegou o novo disco.

Com a devida pompa e circunstância, Hardwired… To Self-Destruct foi promovido como um regresso às origens (o baterista Lars Ulrich admitiu que muita da inspiração veio da re-edição da estreia Kill’em All e seu sucessor Ride The Lightning, pilares do Thrash dos anos 80) sem esquecer o lado progressivo que a banda desenvolveu desde então, daí o registo ser um CD duplo com mais de uma hora de rodagem. Sendo que uma das principais críticas a Death Magnetic foi precisamente a sua extensão e a forma como os riffs se reciclavam e prolongavam nas músicas num processo que acusou falta de edição pelo grupo e produtor (Rick Rubin foi também bastante criticado pela sua técnica de produção alta e comprimida que não deixou espaço aos instrumentos para ‘respirar’), será que os músicos californianos não aprenderam com os seus erros?

O primeiro disco de Hardwired… é praticamente irrepreensível; a primeira coisa notável é a produção de Greg Fidelman, que já tinha colaborado com os Metallica em Loulou, dando ao CD o volume necessário e o peso que se quer, sem no entanto arrebatar demasiado o som, relembrando o trabalho com Bob Rock na era de Load.

A abertura de hostilidades dá-se com “Hardwired”, música atípica no álbum com os seus 3 minutos e velocidade de Thrash clássico a remeter-nos de imediato para Kill’em All, soando algo familiar, mas ao mesmo tempo saciando a vontade que tínhamos de ouvir os músicos tão zangados e joviais desde …And Justice For All.

Não é, aliás, ao acaso que vem esta referência ao álbum de estreia; os Metallica aproveitaram Hardwired… para revisitarem todas as suas personalidades, passando não só pela sua fase “thrasher” inicial como já mencionando, mas também o início do seu flirt com tonalidades mais experimentais em “Atlas, Rise!” a remeter-nos para Master of Puppets de influência “Maidenesca” irresistível nas harmonias das guitarras e velocidade contagiante nos versos ominosos (Lars Ulrich continua a crescer depois do desastre de St. Anger) e passando pelo negrume ominoso do álbum homónimo na fantástica “Halo On Fire” que relembra “Unforgiven”, mostrando James Hetfield no seu lado mais melódico (e puxando pela voz de uma forma crua que se repete ao longo do álbum e nos mostra um bem-vindo lado mais Punk do vocalista que achávamos enterrado).

Das facetas mais recentes (e nem sempre consensuais da banda), temos o inegável charme “garageiro” sulista de “Now That We’re Dead”, faixa “suja” (no bom sentido) de retoques Sludge que de imediato nos traz Load e os Alice in Chains à memória; e finalmente, o single “Moth Into Flame” recolhe um pouco de tudo e soa a algo que podia estar em Death Magnetic com a sua pelagem de Thrash maduro e renovado, mas sem ser preciso tirar-lhe um segundo.

No entanto, o processo de edição dos Metallica continua a estar em falta ao entrarmos no segundo disco de Hardwired…, que se revela muito mais desequilibrado, com “ManUNkind” a ser uma homenagem ao Black Metal com um encanto especial (e um dos versos mais catchy de memória recente quando Hetfield berra “Seized by the day/Frozen captive by the night”) e “Spit Out The Bone” com direito a todos os músicos a brilharem (Trujillo mostra aqui os seus talentos no baixo inclusive) é o melhor momento do disco e talvez a melhor música de fecho de sempre da banda.

Apesar disto, “Confusion” soa genérico e algo rejeitado do disco homónimo e “Murder One” é um constrangedor tributo a Lemmy que trabalha para um climax que nunca chega, por intermédio de um solo francamente desinspirado de Kirk Hammet (que, de resto, salvo raras excepções, aparece muito discreto no disco e com solos banais e repetitivos que quase dão razão a quem o sobrevaloriza desde há 20 anos). que trazem para baixo um álbum que até aí apontava para o estatuto de clássico.

Desta forma, Hardwired… não chega aos píncaros de qualidade que a espera parecia prometer (mas quase 10 anos depois do último disco, tal era difícil), mas faz um excelente trabalho a manter os Metallica relevantes e recolhe influências de todas as etapas da carreira da banda para criar um disco que nos traz memórias ao mesmo tempo que aguça a curiosidade para o que estes músicos farão a seguir, agora que estão de regresso à boa forma aparentemente a longo prazo.

 

Metallica – Hardwired… To Self-Destruct

7.7
Metallica - Hardwired... To Self-Destruct