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Ava Inferi [Agosto 2011]

Será legítimo pensar que a especificidade musical dos AVA INFERI resultou, em parte, de uma simbiose entre as origens nórdicas e lusas dos elementos da banda?
Sim, de facto as nossas origens são um dos factores determinantes que influenciam as nossa vidas, e neste caso, a nossa música. Tem sido curioso e interessante fazer parte de uma banda assim, onde duas culturas distintas se fundem tão bem, criando um som único, no meu ponto de vista. Penso que tudo é importante, desde os nossos gostos musicais e também pessoais, o estilo de vida, as experiências vividas…Tudo isto faz com que tenhamos desenvolvido uma expressão musical muito própria, com sentimentos profundos a serem canalizados para a nossa música.

Os AVA INFERI integram músicos que sempre se destacaram pela capacidade criativa, assim sendo, continuam envolvidos noutros projectos musicais? Quais?
Até que nos seja humanamente permitido iremos sempre criar música. Gostamos de experimentar, de explorar estilos diferentes e depois transpor o que sentimos para a realidade, através da musica. O Rune tem trabalhado com Aura Noir e participa também na banda de tributo a Bathory, “ Twillight of the Gods ”, e vai-se juntar novamente a eles para um novo cd. Trabalhou no álbum de Nader Sadek “In the Flesh” e tem sido convidado para várias participações, esporádicas ou trabalhos de longa duração, inclusive com membros de Morbid Angel. O André Sobral tem trabalhado com W. A. K.O. e eu tenho participado em gravações de álbuns e em concertos de Moonspell.

Actualmente os AVA INFERI contam com o André Sobral na guitarra e a Joana Messias no baixo, como se processou o ingresso deles na banda e como tem sido a experiência de tocar com os novos membros ao vivo?
O André e a Joana são músicos talentosos, com muita vontade de trabalhar e participar em tudo o que envolve a banda, e isso fez com que se enquadrassem rapidamente no seio da banda. Sinto que com esta formação existe uma maior harmonia entre as nossas energias, fazendo com que os concertos corram muito bem, e vemos isso na reacção do público, que é muito positiva. É a tal situação do dar e receber: quando nos sentimos bem e confiantes damos tudo o que somos em cima do palco, o público gosta e retribui calorosamente.

É recorrente encontrarmos os AVA INFERI catalogados em diferentes estilos de metal avant-garde, que comentários merecem essas tentativas de classificação que oscilam entre o doom, o gótico e o progressivo?
Sinceramente penso que encontramos um pouco de todos esses estilos, mas sentimo-nos realizados interiormente com o que canalizamos para as músicas. A verdade é que irá sempre existir alguém que se encarregará de catalogar qualquer tipo de banda. Mas o que me incomoda é quando catalogam banalmente Ava Inferi como sendo mais um banda de metal com voz feminina, pois o facto de ser uma mulher a cantar por vezes é criado automaticamente o estereotipo de sermos mais uns, iguais a tantos outros…e não concordo absolutamente nada com isso. A nossa música é criada por sentimentos, e não por melodias que se enquadram unicamente no tom que o vocalista se sente mais seguro.

Como descrevem a experiência de acompanhar MY DYING BRIDE durante a “Albion In Ruin Tour 2011″, tomando parte na celebração do 20º aniversário dos veteranos do doom?
Foi uma honra sermos convidados pelos MDB para a tour. Foi uma experiência extremamente positiva. São pessoas com muita experiência de vida, e saber que apreciaram a nossa presença, tanto em palco como no convívio depois dos concertos tornou tudo ainda melhor. È uma daquelas experiências :eu era tão nova quando ouvi Turn loose the swans pela primeira vez, completamente maravilhada com os sentimentos que aquela banda conseguia trazer à tona…e de repente, ali estávamos nós a fazer a primeira parte de My Dying Bride, e a divertirmo-nos todos juntos depois dos concertos. Foi simplesmente inesquecível.

Parece existir alguma afinidade entre AVA INFERI e os palcos romenos. Como correram as passagens por esse país, nomeadamente, em 2010 no OST Mountain Fest, e mais recentemente no Wings Club, em Bucareste?
Foi no Ost Mountain Fest que começámos a ter mais contacto com Costin Chioreanu, agora considerado por nós um amigo muito chegado. Fez-nos o booklet para o nosso álbum “Onyx”, e desde aí temos trabalhado em conjunto, gravámos o video para “Majesty” também na Roménia e depois voltámos lá para dar o concerto em Bucareste. O Costin è um artista talentoso e dedicado, e faz com que tudo corra muito bem para nós quando vamos lá. E os concertos foram excelentes, com o público a vibrar bastante ao longo das músicas.

Muito tem sido escrito a respeito de “Onyx”, mas os nossos leitores certamente gostariam de conhecer as vossas impressões pessoais sobre o processo de composição e gravação, será que podiam levantar parte do véu sobre a forma como tudo se processou?
Não me levem a mal, mas ”um chef nunca revela o ingrediente secreto da sua comida “, hehe. É um álbum que para nós tem um valor muito intenso a nivel sentimental e espiritual. Em relação ao processo de gravação, as guitarras e o baixo foram gravadas na Noruega no Top Room Studios, onde vamos geralmente, mas as vozes foram gravadas em Portugal no “Ultrasound Studios” de Daniel Cardoso. Escolhi ficar em Portugal, assim gravei durante o dia e depois regressava a casa no fim do dia. E também porque gosto muito de trabalhar com o Daniel, já tinhamos trabalhado com ele no nosso álbum “The Silhouette” e ficámos muito satisfeitos. É um bom profissional, analisa tudo minuciosamente e tira o melhor da minha voz.

A crítica tem referido que “Onyx” representa a passagem dos AVA INFERI a um patamar superior em termos de maturidade musical, como descrevem o vosso trajecto evolutivo desde o Burdens?
Burdens foi a primeira exposição de sentimentos e ideias que andavam a fervilhar nas nossas mentes nessa altura. Talvez tenha sido um álbum que não foi compreendido pela maior parte do público, mas oiço Burdens com orgulho e foi por causa desse álbum que chegámos até aqui. Desde então temos vindo a progredir musical e pessoalmente, pois tudo o que nos acontece influencia-nos, e demonstramos isso nos álbuns seguintes. São as experiêncas mais profundas negativas e positivas, que fazem com que Ava Inferi tenha estas características musicais.

A complexidade de “Onyx”, a intensidade emocional e as ambiências criadas, despertam sensações próximas da catarse. A simbologia do ónix também parece remeter para esse conceito, em que medida, este é um álbum mais sombrio e visceral do que os antecessores?
Onyx é um álbum muito pessoal. Fala do lado mais negro das nossas almas, das forças espirituais brancas e negras que nos envolvem, de espíritos errantes, de rituais mágicos, do que nos atormenta o espírito, da nossa fé, dos medos irracionais, da loucura… E juntamos também o lado do imaginário, do fantástico, que nos tem acompanhado ao longo dos álbuns: os filmes de terror. Nos álbuns anteriores também existem referências a estes temas, mas desta vez fomos buscar coisas um pouco mais profundas, mais privadas… Estamos a abrir um cofre de tesouros obscuros.

“Onyx” foi lançado no dealbar de 2011, agora com algum distanciamento temporal sobre essa data, como tem sido a reacção dos fãs, quer ao álbum de estúdio quer às novas músicas tocadas ao vivo?
O público que nos tem acompanhado desde Burdens tem notado o nosso desenvolvimento tanto nos álbuns como na presença em palco. Gostam de falar connosco depois do concerto e exprimir o que sentiram, e eu adoro isso, adoro ouvir as emoções que sentiram durante o concerto, saber que se identificam com o que tocamos. È lógico que não podemos agradar a toda a gente, sabemos isso perfeitamente, e existem pessoas que detestam o que fazemos. Mas “ Onyx” , foi o álbum que recebeu mais opiniões positivas até agora, e estamos satisfeitos, e prontos para fazer mais um.

“Onyx” é integralmente cantado em inglês, essa foi uma opção meramente artística, ou simplesmente não se proporcionou a inclusão de um tema em português?
A ausência de uma música cantada em português não foi intencionada, simplesmente o processo de criação levou-nos a fazer as letras todas em inglês por instinto. Se surgir a inspiração para o fazer, haverá uma no próximo álbum, mas não sabemos o que irá acontecer nesse sentido, nem queremos esse tipo de imposição. Já nos chega as imposições com que nos deparamos na rotina do dia a dia, não queremos esse tipo de “ prisão” em Ava Inferi. Enquanto banda, queremos “ viajar” com a nossa música, sermos livres em mente para criamos o ambiente perfeito para o nascimento de novas músicas….Ava Inferi é como um horizonte vasto, onde podemos ir aonde quisermos, partirmos à aventura de mais conhecimento, mais ideias…

Se tivessem de eleger uma das vossas músicas para definir aquilo que são os AVA INFERI, qual seria a eleita e porquê?
Só posso falar por mim, neste momento. Eu até eu tenho dificuldade, por isso escolho duas. A Dança das Ondas, porque representa o nosso lado “doom”, cheio de melancolia e tristeza e porque tem a variante de ser cantada em português ao estilo mais do fado,com vocalizações mais pesadas, mais graves. Por outro lado, escolho a Majesty por ser uma música mais directa, com riffs de guitarras mais fortes, falando de rituais e forças divinas. Ao mesmo tempo tem uma vocalização mais doce, de tons mais agudos, evidenciando assim os diferentes patamares que Ava consegue alcançar .

Os AVA INFERI contam, actualmente, com uma considerável legião de fãs e cada concerto parece aumentar exponencialmente esses números, além disso, a relação recente com a Mithology-Live parece evidenciar um desejo de chegar a novos públicos. Que planos têm os AVA INFERI para o futuro?
Estamos em época de expansão e queremos aproveitá-la máximo para o nosso trabalho ser reconhecido, e contamos com a ajuda da Mithology-Live. Espero que seja um relação duradoura e que dê bons frutos. Em relação a planos, são muitos. Mas para agora não podemos adiantar nada, pois ainda não é nada concreto, e não queremos iludir os leitores. Mas pelo menos podemos adiantar que estamos a trabalhar no novo álbum, e vamos esperar que o público o receba de braços abertos.

Esta entrevista aproxima-se do fim, mas antes de corrermos a cortina gostariam de deixar alguma mensagem para os nossos leitores?
Aproveitem bem a vida, pois ela é só uma. Tentem estar bem convosco próprios e com os que vos rodeiam. Saibam perdoar. Criem coisas bonitas, todos nós temos um dom. Não vivam com rancor, para quando morrerem não se tornarem em espíritos errantes, presos num limbo de ódio e tristeza. A vida é feita de momentos simples que se revelam mais tarde serem os mais importantes. Sejam felizes.