Entrevista a Sofia Silva [Neoplasmah, Secret Symmetry]

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Aproveitámos a simpatia de Sofia Silva, vocalista dos Neoplasmah e agora também dos Secret Symmetry, para a mesma nos responder a umas perguntas sobre os Neoplasmah, sobre ela própria e sobre a sua nova aventura nos Secret Symmetry.

Em 2004 apareceste do nada e 11 anos depois ainda pouco se sabe de ti além de que tens um projeto de bossa nova com o Alexandre (Grog, Neoplasmah) chamado Oldies Pop, fala-nos de ti, tens algum passado na música antes de te juntares aos Neoplasmah?

Comecei nisto de ter bandas em 1996, quando um amigo de um amigo precisava de uma voz feminina para fazer backing vocals numa banda de metal. Depois começaram a desafiar-me para experimentar também fazer guturais e eu vi ali uma oportunidade de fazer algo diferente, que era pouco comum na altura, que era fazer os dois tipos de voz. Em 2000 comecei uma banda com um amigo onde eu fazia as duas vozes (gutural e limpa) e foi nessa altura que conheci o Alex, quando ele foi para essa banda tocar baixo. Entretanto, em 2001 o Alex entrou para Neoplasmah e, pouco tempo depois, eles ficaram sem vocalista e foi aí que eu entrei para a banda, a convite do Alex. Durante o interregno de 10 anos em que os Neoplasmah estiveram inativos deixei o metal um pouco de parte e apenas tive projetos de covers de pop/rock entre 2005 e 2012.

O teu registo vocal é impressionante, devo dizer que é melhor que muitos homens, sentes que consegues fazer coisas diferentes para explorar um dia mais à frente?

Muito obrigada pelo elogio! É curioso que faças essa pergunta, pois nestes últimos dois anos integrei de facto novos projetos, uns que continuaram e outros que ficaram pelo caminho… No entanto, essas novas experiências levaram-me a melhorar e expandir o meu registo vocal e abriram-me o apetite para integrar projetos diferentes. Desde 2014 estou nos Cobalt Sea, projeto que comecei com o Emanuel Henriques (Mourning Lenore, Enchantya) e com o Tiago Melo, onde canto com voz limpa e toco baixo. Esperamos começar a gravar já no início do próximo ano. E em Setembro deste ano entrei para os Secret Symmetry, uma banda de rock/metal prog onde faço ambos os registos vocais (limpo e gutural). Posso afirmar que os projetos que tenho atualmente são tão diversos e distintos quanto os meus gostos musicais. E talvez não fique por aqui!

Quais os artistas ou bandas que mais admiras?

Como bandas de referência dentro do metal, aquelas que em algum momento produziram um ou mais albums/EP’s que são verdadeiras referências para mim, tenho uma lista bastante curta e eclética: Dissection, Emperor, Immortal, Enslaved, Cult of Luna, Opeth e pouco mais. Mas claro que aprecio muitas outras bandas.

Depois há uma série de artistas que admiro na música mais ligeira, como a Katie Melua ou o Jamie Cullum, os Daughter, Tori Amos, Fiona Apple, Natasha Atlas, The Gathering, etc…

Mais cedo, ainda no início da adolescência, bandas como Cure, Depeche Mode, Black Sabath, Pantera, Metallica foram grandes referências para mim e ainda gosto de ouvir os álbums dessa época.

Que bandas ou álbums andas a ouvir de momento?

De momento os álbuns que mais tocam por aqui são mesmo de produção nacional: o EP “Flesh to be Broken” de Alchemist (Pt), o álbum “Casket Veneration” de Onirik(Pt), o álbum homónimo de Awaiting the Vultures e a compilação “The Rituals” de A Tree of Signs. A juntar a estes roda também “Salem’s Wounds” de Karyn Crisis Gospel of the Witches, um álbum completamente viciante de tão bom que é…

O “Female Growlers United Front” foi uma chapada de luva branca a muita gente que pensa que o metal é um mundo exclusivo para homens, sentes que hoje em dia ainda há muito preconceito nesse aspeto?

Compreendo porque dizes que foi uma chapada de luva branca…mas o intuito do festival não era esse! A ideia surgiu-me depois de conhecer pessoalmente a Carina (Disthrone) e a Mafalda (Karbonsoul) e me aperceber que ambas tinham vontade de que tocássemos juntas um dia. Posso dizer-te que há 10 ou 15 anos atrás não era assim…eu não sentia apoio das mulheres no meio, acho até que eram bem mais preconceituosas do que os homens nessa altura! Daí que a ideia fundamental por trás do evento era apoiarmo-nos umas às outras, já que nem toda a gente que seguia Neoplasmah conhecia as outras bandas e vice-versa. Eu já tinha também conversado com a Inês (Burn Damage) no facebook e percebi que havia essa vontade. Para nós foi gratificante porque criámos laços de amizade que vão perdurar e nos divertimos muito mesmo! Mas é claro que foi um enorme sucesso em termos de divulgação e afluência e fico muito feliz que uma ideia tão simples possa de facto ajudar a mudar cada vez mais as mentalidades e, segundo dizem, tenha sido um marco histórico no underground português!

Desde o concerto do lançamento do novo álbum juntamente com os Bleeding Display que a tua presença em palco tem vindo a ficar menos “tímida”, algo que se notou bem no concerto “Female Growlers United Front” em que andavas mais solta no palco, sentes-te mais confiante em cima do palco a cada concerto?

Sim, sem dúvida. Por um lado, a maturidade vai-nos ensinando a colocar as expectativas dos outros para trás das costas e depois a rodagem ajuda muito! Quando comecei a dar concertos tinha 23 anos e nenhuma referência, nem me conhecia o suficiente para saber qual era o meu estilo. E em 2012 quando voltei a dar concertos com Neoplasmah custou-me um pouco ainda a habituar às luzes e à exposição do palco. Nunca vou deixar de ser uma pessoa tímida, mas sinto que encontrei o meu estilo próprio, independentemente de agradar a todos ou não e isso permite-me cada vez mais sentir-me à vontade, divertir-me e aproveitar ao máximo os concertos.

Falando agora nos Neoplasmah, o que motivou o regresso da banda o ano passado?

Alguns dos músicos de Neoplasmah continuaram a tocar juntos noutros projectos, mesmo depois da banda parar em 2005. E de vez em quando falávamos em gravar as músicas de Neoplasmah que já estavam compostas desde 2005, só para ficarmos com um registo para nós. Acontece que, em 2012, recebemos convites para tocar em alguns festivais e ficámos entusiasmados com a ideia de voltar como banda, lançar o álbum, tocar ao vivo…e por isso decidimos gravar o álbum com boa qualidade, com mistura e masterização do André Tavares. Depois disso, surgiu o interesse da editora Helldprod e aí não tivemos dúvidas de que valia a pena voltar ao ativo. No fundo, acabou por ser o público, os amigos e fãs que nos deram motivação para voltar.

O público reagiu bem a esse regresso?

Na verdade ainda hoje fico abismada com a excelente reação do público! Por um lado, fico muito feliz por ver que após 10 anos de hiato ainda há muita gente que se lembra de nós e nos quer ver e ouvir e, por outro lado, é gratificante ver a malta mais jovem a aderir ao nosso som, a ir aos concertos…acho que não podíamos pedir mais!

O que mudou desde que começaram a banda há uns anos atrás?

Mudou muita coisa…e para melhor! Eu pessoalmente não consigo ser saudosista do que era a cena underground há 10 anos atrás. Primeiro porque hoje em dia há muito mais concertos, quer de bandas nacionais como estrangeiras, os promotores e organizadores são mais profissionais e os locais de concerto têm condições muito melhores! E depois porque as mentalidades mudaram substancialmente. Haverá sempre exceções, mas apraz-me ver que o espírito de entreajuda entre bandas é cada vez mais a regra e não a exceção e que o público que vai a concertos o faz para apreciar e dar valor aos músicos e não apenas para criticar destrutivamente aquilo que dá tanto trabalho a construir num país como o nosso! Finalmente, o preconceito relativamente às mulheres no metal está a desvanecer-se e gosto de pensar que o Female Growlers United Front fest contribuiu um pouco mais para que isso se perpetue no futuro.

Desde o lançamento do álbum “Auguring The Dusk Of A New Era”, alguma vez ponderaram fazer um concerto “uma noite só” em que tocariam os dois álbums na íntegra?

Por acaso não…mas é uma excelente ideia! Vou já propor isso à malta! 🙂

Já receberam propostas para ir tocar lá fora?

Esteve pensado para o Verão de 2015 fazer uma mini-tour por Espanha em conjunto com Bleeding Display, mas acabou por não ser planeado. Este ano não foi possível conjugar as agendas de todos, já que todos temos trabalho a tempo inteiro e família. Mas esperamos ter convites para o futuro, claro está!

Vamos ter que esperar novamente 10 até o próximo álbum dos Neoplasmah?

Esperemos que não! Ainda estamos a terminar a promoção do álbum “Auguring The Dusk of a New Era”, com alguns concertos no início de 2016. Depois disso o plano é começar a trabalhar em músicas novas, puxar pelo génio criativo do Vitor (Mendes) e, se a energia cósmica fluir como até hoje, quem sabe se não haverá um novo álbum de Neoplasmah já em 2017!

Sobre os Secret Symmetry, estás pronta para esta nova aventura?

Estou mais do que pronta e estou a adorar! Tive a sorte de encontrar, mais uma vez, um grupo de pessoas que me acolheram muito bem e o entrosamento criativo está a ser perfeito! É obviamente um grande desafio ocupar o lugar de vocalista numa banda que antes tinha um vocalista masculino. E o facto de cantar nos dois registos, limpo e gutural, é uma coisa que não fazia há alguns anos e está a ser um exercício de superação pessoal! Mas já estamos a trabalhar nas músicas daquele que será o primeiro álbum de Secret Symmetry e esperamos em 2016 começar a dar concertos!

Muito obrigada ao Marco e à Rock n’ Heavy pela entrevista e continuem o bom trabalho!

Fotografia cedida por: Marta Louro