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Entrevista com os a Jigsaw

Os a Jigsaw são um duo português que nos vem encantando com o seu Folk de introspecção que raramente encontramos no nosso país. Fortemente enraizado no Blues, lançaram o ano passado o álbum No True Magic, que passou com distinção aqui na redacção e tivemos agora uns momentos à conversa com eles, ficam aqui os resultados:

Antes de mais, obrigado em nome da Rock N’ Heavy pelo tempo para esta entrevista! No True Magic contou com apenas duas pessoas a tocarem cerca de 20 instrumentos e ainda a produzirem o álbum, no que parece ser um verdadeiro esforço gigantesco! O que é que retiraram desta experiência?

Ora, e retribuímos também o agradecimento do tempo que deram às nossas canções.  Sabemos que não é um disco propriamente fácil de ouvir devido ao tempo que exige. Portanto obrigado por abrirem o coração às canções.

Sim, de facto envolve um esforço que será porventura menor quando se trata de uma banda com mais elementos. Ou talvez não. O esforço investido em qualquer um dos álbuns até à data foi sempre o mesmo. A experiência adquirida no processo dos álbuns anteriores é que vai ajudando a que o seguinte se torne um pouco mais fácil. Vamos conhecendo cada vez melhor os truques que são necessários operar para levar a preparação e gravação de um álbum a bom porto. Claro que neste caso, o facto de sermos apenas dois elementos acarreta mais responsabilidades para cada um, mas se algo retiramos desta experiência é a certeza do que já sabíamos, que era conseguir “fechar” um álbum entre nós os dois.

 

O som dos a Jigsaw é assumidamente Folk, um género que não tem uma grande expressão no nosso país; pensam que isso é uma vantagem ou desvantagem na altura de promoverem a vossa música?

Talvez seja uma vantagem na mesma medida que é uma desvantagem. Diz o ditado que zarolho em terra de cegos é rei. Se por um lado pode ser encarado como uma novidade devido à menor expressão deste género e por isso recolher mais atenções, por outro lado torna-se mais fácil a quem ouve de imediatamente tentar comparar e encaixar a nossa música na música de outros artistas internacionais com maior destaque e colocar em causa dessa forma a nossa originalidade devido ao parco conhecimento do género. Mas não é algo que nos preocupe em demasia.

 

Numa altura em que No True Magic já garantiu várias críticas positivas (incluindo na nossa redacção), como estão os planos para o seu sucessor, já começaram a pensar nele?

Os planos do sucessor de No True Magic já foram colocados em marcha assim que terminámos de o escrever. Começámos a discutir o conceito e a começar a trabalhar em músicas precisamente antes de entrar em estúdio para gravar o No True Magic. É o nosso método. Para nós, assim que um álbum está preparado para gravar, já nos podemos desvincular da parte criativa do mesmo e começar a pensar no próximo. Isto porque o tempo urge e sabemos que o tempo que costuma distar entre dois álbuns é cerca de dois anos. Então queremos aproveitar ao máximo esse curto tempo para ter tempo de compor canções e ter ainda o tempo para deixar o tempo passar sobre elas e equilibrar a balança da emoção e da razão em relação ao que queremos que surja no próximo álbum. Provavelmente repetimos em demasia a palavra “tempo”, mas esse julgamos o melhor juiz da nossa arte, não mereceria menor destaque

 

Aproxima-se ainda uma tour pela Galiza, que parecem acarinhar; sentem apoio fora do nosso país em relação à vossa música?

Sim, e Espanha, como tão bem referem é um dos países em que temos encontrado maior apoio tanto da imprensa como das pessoas que nos têm vindo ver aos concertos e que vão cantando as nossas músicas em concerto. O regresso a Espanha é sempre motivo de alegria porque sentimos como se regressássemos a casa.

 

Em relação ao mesmo assunto, imaginamos que para duas pessoas apenas montarem toda uma digressão fora de portas seja uma tarefa exaustiva; há algum episódio mais invulgar de uma tour estrangeira que tenham para nos contar?

Qualquer trabalho na parte do booking envolve sempre um determinado grau de exaustão, porque não gostamos de ter dias livres quando estamos em tour e então temos que tentar conciliar as disponibilidades das datas dos locais dos concertos com as localidades. Mas há tantos anos que andamos em tour no estrangeiro que é natural o avolumar de episódios caricatos. Um dos eternos repetentes nestas lides é o momento em que temos de passar no aeroporto com o harmonium. Por regra já eu passei com a guitarra e vou bem adiantando e tenho sempre que ficar à espera que o Jorri toque um pouco de harmónium para os srs. Agentes que ficaram intrigados com a quantidade de arames que viram no raio-x. Como o harmonium é portátil e fechado parece uma mala de madeira, eles imaginam sempre que o jorri será um terrorista por confundir o mecanismo do harmonium, com o que imagino que eles pensem que seja algum engenho danoso.

 

Embora a vossa música seja ideal num cenário mais intimista, hoje em dia a afirmação de uma banda parece residir na sua habilidade em grandes festivais, esse é um circuito que vos chama ou não têm interesse nele?

Até há algum tempo não tínhamos a formação necessária em termos de músicos em palco para conseguir transmitir a nossa música da forma que um festival exigiria. Talvez por isso nos tenhamos alijado desse circuito. No entanto, agora com a nossa banda de suporte os The Great Moonshiners Band (Victor Torpedo, Pedro Serra, Tracy Vandal, Guilherme Pimenta, Maria Côrte, Paula Nozzari), as coisas mudaram. Como de repente passamos de dois músicos em palco para oito, a carga sonora e a atmosfera assume outra figura que já se pode enquadrar nesse tipo de palcos.

 

Em termos de influências, os a Jigsaw mantêm-se no espectro daquilo que tocam ou ouvem coisas muito díspares? Qual seria a música mais inesperada que ouviríamos no vosso MP3?

Creio que não iriam encontrar coisas muito díspares. Ou talvez sim. Depende da latitude com que se encarem os géneros musicais. Há pouco falava-se do Folk, mas há tanto dentro deste género que algumas coisas talvez pudessem surpreender. Mas fora disso, não em mp3 mas em cd ou vinyl talvez aparentasse alguma estranheza dizer que iriam encontrar Portishead, Iggy Pop, Blood Safari, Led Zeppelin, Radiohead, Keith Jarret. Ainda que eu não veja isso como díspar. Willie Dixon dizia  que os blues eram a raíz e que tudo o resto eram os frutos. Todos (ou quase todos) os exemplos que aqui menciono têm como raiz (ainda que nalguns casos mais distante que noutros) os blues, portanto talvez não seja assim tão inesperado. Mas também há que ressalvar que tentamos direccionar-nos naquilo que ouvimos. As pessoas recordar-se-ão todas do dito que afirma que somos aquilo que comemos. Mas nós somos também aquilo que ouvimos e aquilo que lemos. Então e atendendo a que o tempo que temos é sempre tão parco para fazer tudo o que queremos e especialmente em relação à gigantesca dimensão da oferta cultural, é bom que seja bem aproveitado e que tentemos que aquilo que consumimos seja sempre com o móbil de ser algo que nos possa transformar; que nos mova; que nos comova.

 

Finalmente, existe alguma mensagem que queiram deixar para os vossos fãs seguidores da Rock N’ Heavy? 

Restar-nos-ia agradecer o tempo que nos deram ao ler estas palavras e esperamos que de uma forma ou outra venham a ouvir as nossas canções de coração aberto.

Obrigado!