Entrevista com os Fitacola

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Nascidos em Coimbra, para quem não os conhece, os Fitacola são uma banda portuguesa de Punk-Rock que já conta com 14 anos de carreira. Na estrada desde 2003, com cinco EP’S e três álbuns de estúdio lançados, uma carreira imaculada, quem sempre os seguiu e apoiou sabe que a qualidade que apresentam é merecedora de muito mais atenção. A Rock N’ Heavy esteve à conversa com o Xico, o baterista para fazer um balanço da carreira musical da banda.

Preferiram sempre lançar maioritariamente EP’S ao invés de CD’s, a que é que isso se deve?

Xico: Na realidade já fizemos das duas maneiras. Começámos a carreira com um EP porque não tínhamos muitas músicas, nem possibilidades financeiras para gravar um álbum. A ideia era promover a banda, espalhar a nossa música e conseguir estabelecer o nosso nome para que pudessem começar a aparecer concertos. O segundo passo foi gravar o nosso primeiro LP (Mundo Ideal), um dos nosso maiores orgulhos, e, de seguida gravámos um segundo LP (Caminhos Secretos) que foi lançado paralelamente com mais um EP (Outros Dias), financiado pela Optimus Discos, a convite do Henrique Amaro. Neste último trabalho (Vontades, Escolhas e Razões) que retrata os 10 anos da banda, quisemos mudar um pouco a estratégia e ir lançando a coisa aos poucos. Ou seja, em vez de celebrarmos os 10 anos de uma vez só, com um álbum de longa duração, optámos por ir libertando material. Daí os três últimos EP’s, que no fim deram origem a um conjunto que celebra os 10 anos de banda e contêm um pouco de todas as fases pelas quais a banda passou.

Optaram também sempre por disponibilizar a vossa música via online gratuitamente, uma prova de que nunca quiseram obter lucro com a banda. Fizeram sempre música para a vossa própria satisfação, bem como para os fãs?

Nem sempre, os dois primeiros álbuns estiveram à venda nas Fnac’s, em lojas, bem como à venda no nosso bandcamp. No entanto, o mercado nestes últimos 10/15 anos têm vindo a mudar radicalmente e à medida que nos fomos apercebendo disso fomo-nos tentando adaptar à nova realidade com novas estratégias. Uma das conclusões que tirámos foi a de que teríamos que optar entre dois modelos de negócio: sustentar a banda com a venda direta de música, ou com mais concertos? Tendo em conta o panorama em que nos inserimos, o tamanho da banda, o tipo de música que tocamos, o estado da nossa economia e muitos outros pequenos e grandes factores, achámos que é preferível distribuir a música gratuitamente (em certas alturas e circunstâncias) para que chegue ao maior número de pessoas. O objectivo é aumentar o número de pessoas que gosta de nos ouvir e fazer com que mais promotores apostem em nós sabendo que terão mais retorno disso nos espetáculos. Ganha o público, ganham os promotores e ganhamos nós.

Após 14 anos de carreira, abriram por duas ocasiões para os Sum 41, para os Rise Against e ainda para os Anti-flag, o que é que ainda não fizeram que ainda sentem que vos falta fazer?

Assim como essas três bandas ainda tocámos com os Less Than Jake, Mad Caddies, Strung Out, Guttermouth, A Wilhelm Scream, Strike Anywhere, bem como muitas outras bandas top portuguesas como os Tara Perdida, os Fonzie ou os Xutos e Pontapés. É óptimo olhar para trás e ver todo esse caminho feito. Crescemos a ouvir todas essas bandas, idolatramo-los, quisemos ser como eles e acabámos a partilhar o mesmo palco. É realmente muito gratificante e dá-nos a sensação de missão cumprida. Já enchemos salas pequenas e recintos de queimas, gravámos videoclips com referências internacionais, percorremos Portugal de cima a abaixo em tour por festas da aldeia e festivais pequenos, médios e grandes. Mas…falta realmente uma coisa…uma tour no estrangeiro. Não está marcada, mas está pensada, em lista de espera 🙂.

O que é que levam destes 14 anos de carreira, mudavam alguma coisa? O que é que correu menos bem?

Houve coisas que correram menos bem, é certo. O crescimento da banda e da nossa notoriedade, acarreta alguns problemas. Temos de ir aprendendo a lidar constantemente com novas situações e nem sempre corre da forma que esperamos. Lembro-me da altura em que entrámos para uma grande agência e não estávamos a contar com o facto de termos que dar explicações, do aumento de responsabilidade, burocracias, reuniões, etc.. Tudo isso é normal, mas na altura apercebemo-nos que nos estávamos a afastar de nós próprios e isso foi um problema. Culpas à parte acabámos por chegar à conclusão que preferíamos prescindir das coisas melhores para continuarmos a ser honestos connosco e unidos como banda. Ao mesmo tempo foi uma boa e uma má experiência, mas fez-nos crescer como banda, como pessoas e como artistas. Aprendemos muito com o mundo das agências e tornou-nos mais fortes. No fundo, o que estou a tentar dizer é que não mudávamos nada. Não há futuro sem presente, nem presente sem passado.

Como é que vêm a evolução ou retrocesso do movimento punk em Portugal?

O Punk sempre foi um movimento alternativo, à margem do resto. Na realidade, e embora alguns nos categorizem como tal, não nos consideramos punk. Ser punk implica um propósito, uma atitude, uma razão. Nós temos algumas músicas mais interventivas, outras menos, mas na alma somos nós mesmos. Nem punk, nem pop, apenas fazemos aquilo que nos vai cá dentro. De qualquer das maneiras e pelo que vejo, o movimento punk anda mais apagado. Foi diminuindo desde o momento em que apareceu, já não é novidade, não gera tanta polémica e acaba por perder um pouco da sua “função”. Por outro lado o mundo está cada vez mais do avesso e a precisar de mais um grande abanão… Acho que mais cedo ou mais tarde o punk irá voltar a mostrar serviço.

Passou-vos alguma vez pela cabeça cantar em Inglês?

Curiosamente, eu e o Diogo começamos a banda com outro nome (Lost Target) e tínhamos músicas escritas em inglês. Foi preciso apenas meio ano para percebermos que tudo fazia muito mais sentido na nossa língua. Embora o inglês tenha uma fonética e musicalidade mais fácil, acaba por dificultar a mensagem. Para quem escreve é mais fácil deitar cá para fora todas as emoções e para quem ouve é mais direto o entendimento. Tenho a certeza que não será assim com todos os artistas portugueses, mas connosco resultou melhor e foi a partir desse momento que tudo começou a fazer mais sentido.

Sentem que de alguma forma o facto de cantarem em Português e Portugal não dar o devido apoio a este movimento vos prejudica?

Não, muito pelo contrário. Acho que temos uma melhor recepção por parte do público por cantarmos na nossa língua. As pessoas identificam-se mais com as letras e achamos que no conjunto (banda + público) tudo faz mais sentido. Por outro lado, e embora que a língua portuguesa seja uma das mais faladas em todo o mundo, o facto de cantarmos em português é sem dúvida um entrave para sairmos do país.

De certa forma sentem que poderiam ter “ido mais além” caso tivessem apostado numa carreira internacional?

Honestamente, nunca pensámos seriamente nisso. A nossa filosofia sempre foi fazer aquilo que gostamos e sermos fieis a nós mesmos. O resto virá por arrasto. Achamos que já fomos muito mais além do que aquilo que algum dia nos propusemos 🙂.

Como muitas outras bandas portuguesas, vocês não vivem da música para sobreviver, infelizmente. Pensaram alguma vez em abandonar do projeto?

Sim, todos nós temos um trabalho para sobreviver. Talvez por isso nunca tenhamos sentido a frustração suficiente para baixar os braços. Obviamente que a banda já passou por fases melhores e piores, mas no fim ganha sempre a música, a vontade de nos juntarmos e fazermos aquilo que gostamos.

Na vossa opinião, o que é que falta ainda fazer para que bandas como a vossa tenham o devido reconhecimento e possam viver da música como muitas outras bandas o fazem?

Falta muita coisa de parte a parte. Por um lado sentimos falta de apoio por parte de instituições governamentais e culturais para que haja algum suporte ao risco de enveredar por esse ramo, assim como a aposta por parte de promotores, agências, editoras, e agentes da música no talento. Sentimos que a aposta é sempre feita nas coisas que já estão feitas ou estabelecidas e nunca no verdadeiro talento desconhecido, puro e bruto. Por outro lado vemos muita falta de profissionalismo no nosso meio, por parte das bandas que querem singrar mas não querem suar. Normalmente são aquelas que começam e acabam passado pouco tempo. No fundo acho que o sistema acaba por ser uma espécie de pescada de rabo na boca. Se soubesse a solução, já a teríamos implementado. Para já tentamos fazer a nossa parte!

E agora, vamos ao que verdadeiramente interessa… já têm planos para lançar novo material num futuro próximo?

Sim, temos bastantes planos para o futuro, o que acaba por ser um problema (menor) pois temos de nos organizar e fazer com que tudo tenha coerência, com um principio, meio e fim. Grande parte das coisas estão no segredo dos deuses, mas podemos adiantar que andamos a compor muita coisa nova e temos um videoclip a caminho.

Queríamos agradecer à Rock’n Heavy pelo apoio à música nacional e ao panorama musical. É muito importante para as bandas que este tipo de trabalho seja feito! O nosso mais sincero obrigado 🙂

Ora essa, nós é que agradecemos, o prazer é todo nosso!