Entrevista com os Heart Invaders

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Nascidos na cidade Invicta e atualmente em Londres, os Heart Invaders têm o rock no sangue e preparam-se para lançar o seu segundo álbum. Chama-se “The Invention of Truth”, sucessor de “the heart attacks” (2013), e vai ser lançado “música a música”, até que as onze faixas que o compõem estejam disponíveis para uma audição na íntegra. “Evidence” e “Trip to Space” são as duas primeiras faixas do álbum que marcam o início desta “viagem especial” e já podem ser ouvidas no Youtube ou no Bandcamp . Directamente de Londres para o Porto, a Rock n’ Heavy esteve à conversa com o Pedro Adriano Carlos, vocalista, guitarrista e compositor da banda, sobre este novo trabalho. A verdade não foi inventada, – afinal, “a verdade existe, é a coisa mais absoluta…”- mas sim esmiuçada naturalmente, de palavra em palavra, num dos característicos bares do Porto, passando pela música, pelo álbum e outras questões. Abram o vosso coração e descubram o que ainda está por (invad)vir.

 

© Sofia Medina

 

Como é que tem sido a experiência no UK?

Pedro: No Uk acontecem tantas coisas ao mesmo tempo… Musicalmente, queres avançar mas não podes porque não tens tempo, portanto vais tentando, por exemplo, gravando algumas coisas, pensando no álbum… mas, eventualmente, as coisas acabam por estagnar, por várias razões, e a partir daí, ficando mais parado, não te focas tanto e o tempo vai passando… Passaram dois anos desde que estou no UK, o álbum dos Heart Invaders ainda não saiu mas está a sair, uma música de cada vez. Já que passou tanto tempo, decidi fazer isso porque existe aquela ideia de, “não, um álbum não funciona, portanto vamos lançar um single, um hit!” portanto, eu estou a gozar (risos). É um álbum, tem onze músicas, eu não penso num hit, penso no álbum, mas já que existe esse pensamento, então eu vou lançar onze singles, por mais que as músicas não sejam potenciais singles.

 

O que se pode esperar?

Rock e cenas esquisitas (risos). As pessoas perguntam-me, “que música é que fazes?”… eu tenho conhecido muita gente, de todo o mundo, e cada pessoa tem a sua perceção. Mesmo que eu diga “eu faço rock”, as pessoas têm uma disponibilidade e sentido diferentes. Para mim, foi sempre difícil dizer se é rock, se é hard rock… Para mim, é tudo dentro do rock, todas as músicas que eu faço são diferentes; o que eu tenho sempre em mente é o conceito porque eu quero dizer alguma coisa que valha a pena. Quero aproveitar essa plataforma musical para deixar a minha mensagem. E no seguimento disto, posso também dizer-te que eu tenho esta “experiência própria”: se eu começar, pessoalmente, nas redes sociais a publicar coisas, a dizer aquilo que eu acho, as pessoas têm-me como um radicalista, como alguém que está a exagerar… portanto, eu deixei-me disso nos últimos anos. Eu não tenho dito muita coisa… prefiro que o álbum saia porque tudo o que eu tenho a dizer está lá… tudo. Para algumas pessoas pode ser ou parecer abstracto, e muita gente diz, “olha, não percebi a letra” mas há outras pessoas que te dizem, “exactamente, eu percebi isso!”, e o propósito é esse… conseguir chegar realmente às pessoas que entendem o que estou a dizer.

As pessoas confundem muito a verdade com arrogância. É verdade (risos). É difícil ouvir certas verdades. E agora estou a soar arrogante, de certeza absoluta (risos).

 

© Sofia Medina

 

O que é que falta a esta geração, a isto tudo…?

Como é que podemos mudar alguma coisa… é complicado (risos).Mas a questão está relacionada com as tecnologias, não é só isso, mas vem daí. A televisão, tecnologia do século XX, das primeiras a nível popular e comercial, chegou a casa das pessoas e deixou-as “dormentes”, adormecidas para tudo o que está à sua volta, sempre a vender alguma coisa. Eu ainda me lembro daquela publicidade do tabaco, do género “fumar… porque fumar é fixe!”, faz-te bem… agora não fazem publicidade do tabaco. Aliás, fazem… os pensos para ajudar a deixar de fumar… lá está, isto é tão rebuscado… rebuscado no sentido em que a televisão está a trabalhar com a indústria farmacêutica, ou outras, e estas trabalham com os hospitais ou o governo, por exemplo… ou seja, está tudo ligado. Por isso… como é que hás-de salvar uma geração? Tu não salvas uma geração, a próxima é que tem de salvar ou tentar fazer alguma coisa em relação a tudo o que foi feito antes de nós.

 

Sobre o vosso álbum… como é que foi o processo de gravação, fala-me um pouco sobre ele…

Gravamos as baterias no Porto, com o material vintage, microfones, tudo, em outubro de 2014, com o Andres Malta, um grande produtor. Na altura em que estávamos a gravar, ele ia para Londres trabalhar com o Brian Eno, produtor musical, e na oportunidade em que o Brian Eno veio a Portugal e partilhou o estúdio com o Andres Malta e o Mário Barreiros, baterista dos The Gift, essa experiência resultou no Bryan Eno sair de lá e dizer “Eu quero levar o Andres comigo”, porque ele é mesmo incrível, é um génio em estúdio, e assim foi. O Andres começou a ir para Londres para trabalhar com o Brian e quando nós também fomos embora para o Reino Unido as coisas acabaram por ficar a meio. O que é que acabou por acontecer? Eu fui gravando ao longo do tempo, durante a altura em que vivi em Reading, e fui para Londres durante três dias todas as semanas para ir gravando as vozes. Mais tarde, o Miguel Martins juntou-se a mim e ficamos a co-produzir o álbum. Durante muitos anos trabalhei e gravei sozinho, e a verdade é que tem que haver sempre alguém ao teu lado, é importante, senão só existe uma perceção, uma perspectiva…

 

© Sofia Medina

 

Como é que é Londres artisticamente? Como é que comparas as duas cidades (Porto)?

É uma fácil comparação. Em Londres, em todo o lado, existe pelo menos um bar onde as bandas podem tocar. Eles lá dão mesmo atenção a isso, a qualquer banda. Se têm um mini-palco, eles fazem concertos lá ao vivo. Aqui, do que eu sei, já não é bem assim… se o bar não tiver certas condições, já é mais difícil ser propício a ter um palco, por exemplo. Para além de lá existirem muitos sítios, como por exemplo The Unicorn, The Underworld, existe, sobretudo, aquela mentalidade de realmente apoiar a música, as bandas e ir ver os concertos. Nesse aspeto, como o álbum ainda está a sair, só depois é que eu vou perceber quando é que posso marcar uma tour, etc. futuramente. Até lá, tem de se continuar a alimentar o interesse, ver quais são as reacções e depois marcar concertos, nomeadamente em Portugal também, claro. Primeiro tenho de estabelecer certas bases e começar a tocar em Londres, só depois posso considerar uma tour em Portugal. Nesse sentido, há uma futura possibilidade, podendo também “ir à volta”, mas ainda não há nada em concreto.

Quando saiu esta primeira música, a “Evidence”, toda a gente que não era inglesa reagiu apenas às frases “rape me, I’m a little pussy”, “treat me like a whore”… não quiseram sequer entender o sarcasmo na letra… e os ingleses todos simplesmente viram-se para mim e dizem “dude, your song is fucking awesome…”. O público são os ingleses, porque para eles isto não é o punk ou o metal que eles estão habituados a ouvir. Eles precisam de ouvir algo diferente dentro do rock. Mas claro, só depois de começar a tocar ao vivo é que se vai perceber mesmo qual é o feedback.

 

O que é que te invade a ti o coração?

Tudo o que está à minha volta e que me influencia, embora muitas vezes possa ser pela negativa. Por isso é que eu falo de “invadir o coração”, ou seja, eu quero é poder abstrair e tirar essa má energia toda que não é necessária e passar a minha mensagem para quem me rodeia, no geral. Não é necessário este degredo todo, esta má energia que se sente no próprio dia-a-dia. Eu digo isto no geral, o que quero transmitir é que já chega de fingir que estamos aqui para um propósito que não é o nosso. Pensamos que estamos aqui para trabalhar… Nós estamos brainwashed, até certo ponto, que ficamos dormentes para o que nos envolve realmente, não pensamos o que é que estamos mesmo aqui a fazer enquanto humanos. Vendo isso à minha volta, o sarcasmo e toda a ideia de invadir o coração vai no sentido de ser preciso o coração saltar de ti e invadir-te para que tu te apercebas e acordes para o que importa verdadeiramente. É preciso pensar… as grandes questões podem parecer cliché porque toda a gente fala delas em vão. Se calhar, ainda ninguém pensou nisso a sério, profundamente. A questão é essa.

 

© Sofia Medina

 

Os planos para o futuro…

Ainda não há nada em concreto, está tudo em aberto. A certa altura, eu pensei “qual será a melhor ideia para lançar o álbum? Será que estou a ser “louco” de estar a lançar uma música de cada vez? É um álbum… eu estou a lançar uma música e depois outra…” então, pesquisei e há um senhor, que faz vida da música há muito tempo, que diz: pensa bem, tu lanças uma música e tens mais onze, ou o número que for, para lançar… o que significa que tens algo para manter o interesse do público, manter o que estás a fazer interessante para ti mesmo e dar-te razões para tu estares sempre a trabalhar nisso. Se lanças um álbum, “já está”, enquanto desta maneira vais continuamente lançando e vais percebendo reacções, das quais também aborves várias coisas que te ajudam a perceber posteriormente como é que hás-de continuar enquanto banda. E sem teres as pessoas certas contigo, aquela banda incrível, não vale a pena.

É bom manteres o interesse de um público que ainda não tens ou que estás a conquistar; eu estou a angariar essas pessoas, de Londres, as pessoas que já conhecem, daí ser fixe estar sempre presente na internet. Quem quiser perceber, vai perceber e vai pesquisar. Eu posso manter o interesse do público, fazendo isto, mas o resto tem de acontecer naturalmente… Só assim faz sentido.

 

Uma última mensagem…

A última mensagem que posso deixar neste momento é que continuem a ouvir o álbum. As músicas vão saindo e a cada música que eu lanço, as pessoas vão-se surpreender porque cada uma delas é mesmo diferente. Mas mesmo nessa diferença, todas as músicas têm uma ligação, nem que seja numa frase ou na maneira como eu canto. O álbum está interligado musicalmente, de uma forma ou de outra, por muita diversidade que exista entre as músicas.