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Filho da Mãe [Janeiro 2012]

Filho da Mãe, de Asneira não tem nada. Rui Carvalho surpreendeu em 2011, com o disco de estreia “Palácio”, bem diferente do que nos habituou em If Lucy Fell ou I Had Plans. O guitarrista português não tem formação musical, mas quando toca, as emoções vêm ao rubro. Este sábado deu música à zona da Sé de Braga. A Rock n’Heavy aproveitou a oportunidade e esteve à conversa com um dos mais aplaudidos guitarristas nacionais.

Porquê o nome Filho da Mãe?
Filho da Mãe é um nome interessante porque é irónico. Por um lado tem piada, por outro também tem a ver com o acaso. Houve uma altura, em que juntamente com alguns amigos andava a procura de um nome para uma banda, que acabou por se chamar Asneira. Cada um de nós ia soltando cartas à sorte, até que surgiu em cima da mesa Filho da Mãe. Imediatamente peguei naquilo e ficou. Filho da Mãe não é muito mais que isso, apenas faz sentido.

O que o levou a produzir este trabalho a solo?
Sinceramente não sei. Toco guitarra há muito tempo e nunca me passou pela cabeça ter algo só meu. A verdade é que gosto muito mais de tocar em bandas, a intensidade é maior. De alguma forma, os meus amigos deram-me um empurrão para iniciar um projeto a solo, o que acabaria por se concretizar. Mas por um lado até era natural que o fizesse, pois If Lucy Fell tinha parado de tocar e I Had Plans encontrava-se num momento morto. Portanto surgiu a oportunidade de fazer isto, embora não seja para mim habitual tocar sozinho num palco.

Uma das caraterísticas do álbum é emitir ao ouvinte uma certa portugalidade. Terá sido esta, uma das razões pelas quais optou pela guitarra acústica, em detrimento da habitual elétrica?
Nunca pus de parte a guitarra elétrica, da mesma maneira que nunca pus de lado a guitarra clássica, são coisas que se vão fazendo simultaneamente. Mas a história da portugalidade está sempre presente, diria que é algo que faz parte. Quando tocas um instrumento e ela sai naturalmente, não precisas de pensar. E eu não costumo pensar muito quando produzo alguma música. Isso surgiu, quase de certeza, por causa de Carlos Paredes. Antes eu tocava guitarra portuguesa e isso influenciou a minha forma de tocar na elétrica, que por sua vez contribuiu para o modo como toco guitarra clássica. Mas não foi intencional e devo salientar que continuo a ter muitas saudades de tocar guitarra elétrica.

O seu álbum de estreia tem sido bem recebido pela critica. Já previa esta recetividade?Ou está surpreendido?
Eu tenho um truque: esperar sempre o pior em tudo, assim as expetativas são sempre superadas. “Palácio” tem tido boas críticas, mas não esperava isso. E para mim o mais importante é tocar ao vivo. Porque só começas a perceber as músicas que fazes e gravas, quando as tocas em público.

Ambiciona por voos mais altos?
Não ambiciono propriamente isso. Se tiver a oportunidade de tocar todas as semanas, já é algo maravilhoso. Pretendo tocar lá fora enquanto Filho da Mãe sim, mas não vou à procura do sucesso. Reconhecimento existe sempre, nem que seja somente numa minoria. Se aquilo que faço aqui toca as pessoas, também será assim noutro lado. Já toquei diversas vezes no estrangeiro com outros projetos, mas com Filho da Mãe ia ser muito diferente.

É mais difícil estar em palco sozinho do que em grupo?
Não tenho palavras para descrever, às vezes sinto-me desajustado. É muito desconfortável. Até agora sempre toquei em grupo, cheguei mesmo a pisar palcos importantes num formato rock, que é algo muito mais físico e enérgico. Aí acabas por absorver um bocado o que as pessoas sentem, enquanto tocas. Quando estás sozinho é mais complicado, porque tens que ir buscar isso a outro lado. Mas ao mesmo tempo, acaba por ser mais interessante, uma vez que é um desafio que queres superar.

Foi aprendendo e evoluindo como guitarrista, mesmo sem ter recebido formação musical. Pensa que isso contribuiu para particularizar a sua maneira de tocar?
Quando não se tem propriamente uma formação, às vezes coisas ingénuas, ou mesmo erradas musicalmente podem fazer parte do teu estilo. Para mim as coisas erradas são boas, talvez a certa altura se transformem numa caraterística. Isto, com muita escola é mais difícil de suportar. Mas visto por outro ponto de vista, não ter formação musical é uma limitação que acaba por se sentir, sobretudo quando se toca ao vivo. Ainda assim, estou contente por não ter tido, afinal tem resultado bem.

O que tenciona transmitir quando toca?
Quando estou a tocar pretendo transmitir emoção, qualquer músico como é evidente quer isso. Chegar às pessoas sem lhes tocar. Isso é o que eu gostava de fazer, porque a música é um estado de espírito. Logo, o que eu quero nada tem a ver com a técnica, mas com aquilo que se vive no momento e no dia a seguir não dá para descrever.