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Lengendary Tigerman [Outubro 2011]

Porquê “The Legendary Tigerman”?
O nome vem de uma canção de Rufus Thomas Junior, Tigerman (King of the Jungle). O Legendary foi “emprestado” do título de um outro artista, o Legendary Stardust Cowboy. Eu acho que os nomes nos one-man-bands funcionam um pouco como capas de super-heróis, é tão difícil fazer isto… funciona como protecção. Além disso, o facto de um projecto ser lendário mesmo antes de começar parecia-me promissor….

Sempre achei incrível como era possível alguém conseguir tocar tantos instrumentos ao mesmo tempo… e a sensação de os tocar deve ser ainda mais incrível… É preciso de facto muita coordenação… ou há algo mais?
Bem, há muitos ensaios…. Há uma parte muito aborrecida que é mecanizar ritmos nos membros inferiores, e tentar criar vários patterns que depois podem ser ou não utilizados… Mas há muito trabalho para que depois ao vivo as coisas possam acontecer naturalmente, com espaço para improvisação. Costumo dizer que um concerto meu, da minha perspectiva, é como guiar um carro a 200km/hora, à noite, de luzes apagadas. Parece sempre que vai haver um acidente, mas felizmente não têm acontecido muitos….

O “Femina” foi eleito pela revista francesa “Les Inrockuptibles” como um dos 50 melhores do ano. É o teu disco que possui, talvez, um universo mais completo, diferente… não só teu como também da(s) mulher(es). Foi, sem dúvida, algo muito bem conseguido. As mulheres são mais que uma inspiração?
O Femina é um disco especial, sim, e não é só meu… tem muito talento alheio, destas mulheres tão talentosas. Não diria que as mulheres são uma inspiração… As mulheres são as mulheres, são diferentes, incompreensíveis, maravilhosas, complexas. O desejo talvez seja uma inspiração. O Amor também, o medo. E por vezes, uma mulher transforma-se em musa, sim…

Recentemente, fizeste parte da banda sonora da longa-metregm “Estrada de Palha” de Rodrigo Areias. Que avaliação fazes do resultado final?Achas que o espírito criativo do actual cinema português tem potencial para alcançar visibilidade a nível internacional?
Fiz essa longa-metragem em colaboração com a Rita Redshoes, é uma co-autoria. Adoro o resultado final, adoro a fotografia do filme e acho que pode ter uma boa carreira… Acho que o cinema português tem vozes muito distintas, e muito particulares, que podem ter grande expressão internacional. Curiosamente ontem vi “O Barão”, de Edgar Pêra, com banda sonora dos Vozes da Rádio, e foi um dos filmes que mais me impressionou nos últimos tempos. E não digo filme português…. Acho que o mais importante em qualquer arte é ter uma voz, uma linguagem distinta… Temos várias vozes muito válidas no cinema português.

A propósito do filme, Rodrigo Areias falou numa entrevista na “incapacidade de gerirmos, com alguma racionalidade, as coisas que caracterizam o nosso povo português”. Concordas?
Sou obrigado a concordar, aliás, não somos todos? Acho que o estado em que está o país tem um pouco a ver com esta incapacidade…

Voltando ao “Femina”, as curtas-metragens incluídas no mesmo entraram no Festival Internacional de Clemont-Ferrand. Como foi a experiência?
Foi uma experiência incrível. Por um lado, ter os meus filmes em retrospectiva num dos mais importantes festivais de curtas de metragens do mundo deu-me a força necessária para continuar a filmar e com mais ambições… A maior parte das pessoas cá pensavam que os filmes eram videoclips… É um pouco isso que me chateia hoje, acho que há pouca imaginação nas pessoas, pouca disponibilidade para ver um pouco mais além de um género… Mas foi muito gratificante, sim, assistir às sessões e ver as pessoas a aderir e compreender o que estava ser feito, falar elas, ouvir o que tinham sentido. Os festivais de cinema são óptimos nesse sentido, não é normal, contrariamente à musica, poderes discutir o que as pessoas sentiram com os filmes…e foi também uma boa recompensa para um esforço auto-financiado, que parecia não ser fadado à compreensão…

O cinema e a música são duas vertentes que se encontram interligadas. Como vês o panorama nacional das mesmas?
Bem, acho que ambos atravessam um período de grande crise. Para mim nada muda, estou habituado à crise. Estou habituado a que às vezes, a minha arte possa não ser o suficiente para eu viver, e estou bem com isso. Faço outras coisas, se necessário. Nunca recebi um subsídio para filmar ou gravar ou tocar, e nunca deixei de o fazer. O panorama é que temos que continuar a fazer, em qualquer condição…

O cinema é algo que está muito presente nos teus projectos artísticos e com o qual tens uma relação bastante forte, parece-me. O que/quem é que te influencia mais nesse mundo?
Bem, tudo… são imagens… o meu universo anda em volta de música e imagens e palavras, e o cinema é um pouco isso… Muitas vezes começo a filmar e só depois a compor, e outras filmo para as palavras… Mas seja como for, é uma outra linguagem que necessito para me exprimir… e o Super8 tem sido o formato adequado, é rough, podes tirar uma câmara do bolso e começar a filmar em qualquer lado, à queima roupa… o meu cinema é como a minha música, não é muito polido…

Lembro-me de dizeres numa entrevista que até aos teus 19/20 anos achavas que ias ser artista plástico. Sentes saudade disso?
Para ser sincero, não…. Mas talvez um dia volte, quem sabe? Tudo é válido, como modo de expressão…

O que podemos esperar agora no futuro? Irá o Legendary Tigerman vestir a pele de realizador? Ou continuar com excelentes companhias musicais?
Para já o novo de Wraygunn está na forja para sair no próximo ano, e sim, estou a escrever o que espero seja a minha primeira longa metragem…. e irei continuar o trajecto como Tigerman, claro…