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O Abominável [Janeiro 2012]

São do Porto. Intenso e determinado, O Abominável agita a invicta com o seu Rock e união que não deixam os amantes da música indiferentes. Preparam-se para lançar o primeiro EP este ano. O David Félix (baixista) e o Vitor Pinto (vocalista) deram-nos a conhecer a força e os propósitos deste animal.

O vosso projecto é relativamente recente. Para quem ainda não conhece, quem são O Abominável?
O Abominável é um animal intenso, agressivo e ao mesmo tempo um simulacro doce. O Abominável ama o nevoeiro e os dias de chuva. Quando o sol, e os dias quentes chegam, a história é outra…o seu desejo sexual vem ao decima.

Vocês são amigos há muito tempo. É importante existir essa amizade numa banda?
David – O Abominável surgiu quando há uns anos eu e o Vítor, tivemos o desejo de criar uma banda pós-punk. Foi aí que encontrei o João, e que a nossa amizade foi crescendo (e muito!). O Rui já era nosso amigo, e já íamos fazendo algumas coisas juntos. Foi só juntar 2 + 1 + 1. Quanto ao tempo, fosse ele senhor de si mesmo…pouco nos importa! O que importa realmente, é aquilo que nós os quatro somos enquanto união. O resto é foda.

Vítor – Se a importância se manifesta na qualidade da musica que uma banda faz, ou até na honestidade com que é criada, é bastante relativo, existem varias bandas cujos membros não são propriamente muito amigos e a coisa funciona. Mas eu acho importante, acho-o porque a mim ajudou-me imenso a criar algo melhor, não só por mim, mas por outras três pessoas que me ajudam a expressar a minha angustia, e a deles.

Como é que olham para a nossa Invicta, a nível artístico?
David – Havia um programa/documentário, que eu gostava muito, chamado “Portugal meu amor”, que dava na Sic Radical. Por cá, o Porto é o meu amor, e quanto à música, um dos documentários necessários à sua compreensão, é o centro comercial stop. Não, não entraremos de novo em guerrinhas com Lisboa, não! Estou farto de ouvir as pessoas dizerem que cá é melhor, ou pior. Fazemos todos parte do mesmo sentido, e cada um nasce onde devia ter nascido. Afinal somos todos irmãos! Tendo então nascido no Porto, é reconfortante olhar para o historial artístico desta cidade. Respira-se arte, música e camaradagem (mas só entre as pessoas que têm vontade em se mexer, bem!)

Vítor – O Porto é o meu sitio de eleição em todo o Portugal Continental, parte por ter nascido aqui, e outra parte por realmente ter-me apercebido que o Porto tem características que passam despercebidas a muitas pessoas com quem partilho este solo. A nível artístico somos óptimos, porque no Porto se respira arte, há o novo e o velho, há a ribeira, para não falar do facto que o fora de casa, nos faz sentir em casa.

Num dos concertos no Basement, falavam na necessidade de união na música. Acham que é a melhor forma de unir as pessoas?
David – A música é das poucas coisas que hoje em dia nos fazem caminhar no mesmo sentido. Junta as pessoas no mesmo sentido. “keep on rockin’ in the free world!”.

Vítor – A musica é um dos melhores métodos para unir pessoas de vários estilos e formas de ser, porque a musica é tão vasta que tem um efeito esponja direccionado que se torna bem sucedido. A musica como arte, é moldável, podemos mudar os contextos e os fundos, e mediante esse processo agradar a todo o tipo de pessoas. Tenho pena é que esta dualidade psicológica que dura há muitos anos ainda perdure numa maioria, a do gostar por gostar, a do criticar por criticar e não questionar, parece-me frio demais para entender. Mas temos de aceitar todos aqueles que não concordam com os nossos meios de agir. Na minha opinião, sentir é unir, especialmente no nosso meio. Ou simplesmente no meu. Aproveitando a deixa do Basement, e embora este tenha encerrado, foi sem dúvida uma iniciativa muito bem conseguida e que possibilitou bons momentos de música ao vivo.

Qual a vossa opinião acerca da “rede” de espaços/auditórios, etc para espectáculos/concertos?
David – Temos sorte. Há vários espaços, existem centenas e centenas de pessoas diferentes, a partilharem e a conviverem, uns com os outros. Iniciativas estão sempre a aparecer, e a corrente deixa-se levar nesse espírito. O Porto tem alma, e os espaços que o rodeiam também. E sinceramente, só tenho pena que não existam mais pessoas como a Rute e como o Zé Pedro (os donos do Basement). Quem lá esteve, sabe bem porquê. Há três sítios onde me sinto em casa…em minha casa, pois claro, no JOTA, e no Basement, que infelizmente teve de fechar… Mas acredito que coisa boa irá surgir…isto não vai ficar parado, não.

Vítor – Eu acho que no Porto temos bons espaços, ou pelo menos temos boas pontes que na sua maioria conseguem ser acessíveis para muitos projectos, tanto para os de cá, como para os de fora. Já encontramos espaços mais justos do que outros, ou uns melhores do que outros, como seria de esperar, mas em comparação com outras cidades, acho que não nos podemos queixar muito.

O vosso Rock para além de ter atitude e ser determinado é também cantado em português. Foi uma decisão automaticamente tomada quando o projecto nasceu?
David – Ao ser em português, sinto (talvez) mais aquilo que o gajo (o Vítor) está a querer dizer, isto porque é a língua em que eu penso…mas sinceramente, não é algo a que dê muita importância, por mim desde que seja sentido, já se torna especial. Se assim o foi, é porque assim o teve de ser. O Vítor…o tipo está aqui ao meu lado, e nunca lhe disse que o que mais me arrepia na música que fazemos, são as letras dele. Tocam-me. Nem o Henry Miller, nem o Bocage, nem as canções do Morrissey, conseguem despertar-me tal sentimento, como este gajo. Para além de ser dos melhores amigos que uma pessoa pode ter, fala-nos de uma forma que nos faz pensar mais além. No próximo ensaio pago-lhe uma litrosa…(espero que a entrevista seja publicada numa altura em que eu tenha mais pasta…isto e rezar para que quando ele estiver a responder às mesmas perguntas, não repare nisto…é que deixei a carteira no carro).

Vítor – A decisão foi orgânica e mutua entre os elementos. Mas visto que normalmente sou eu o letrita, para mim faz todo o sentido que assim o seja, é a minha língua materna, e é com essa que digo “Dói-me aqui” ou “Estou feliz”, e quando o digo, é porque normalmente é mesmo assim, não o digo em checoslovaco.

O Rock é melhor quando é imprevisível e espontâneo?
David – O Rock é melhor quando os copos suam, e as almas gritam. O Rock é um orgasmo. Estar num palco a dar tudo por tudo, como se não houvesse amanhã, é perto de capturar a cabeça da Medusa, se é que me faço entender.

Vítor – Eu acho que a essência de todo o Rock é a sua impressibilidade e espontaneidade. Ou pelo menos é isso que faz dele algo cru, como todo o Rock deveria ser numa boa percentagem. Melhor ou não, é relativo.

O vocalista do famoso animal do Porto, O Bisonte, elegeu-vos como Banda Revelação 2011. Como é ouvir isso?
David – O Davide Lobão é das pessoas que eu mais respeito num todo que engloba a música, e muitas outras coisas. O Zé Pedro dos Xutos, foi o senhor rock durante muito tempo (merecido!), mas chegou a hora de passar o testemunho, e o Davide é quem mais o merece. Ele sabe que, O Abominável tem-no no seu coração, como mais ninguém.

Vítor – São Elogios do César, um que respeitamos imenso, tanto como pessoa, como musico, e especialmente como o visionário que o Davide é. Temos de lhe agradecer imenso por tudo o que ele tem feito por nós, tem-nos passado lições super valiosas. Um grande abraço para ele.

Recentemente li um artigo que falava da era digital actual, nas enormes facilidades e como estas, ao facilitar a forma de se fazer música, deram origem a “falsos artistas”. O que pensam sobre isso? Concordam?
David – O facilitismo não torna as coisas menos verdadeiras, ou menos sentidas. Estamos numa fase onde tudo parece estar a acontecer ao mesmo tempo. Por acaso, o João Miguel Fernandes escreveu um artigo muito interessante sobre isso, na Arte-Factos. Recomendo.

Vítor – É tão valido como estas “Falsas Pessoas” que têm aparecido na sociedade, pessoas essas que também abdicaram de valores antigos e conformaram-se com as novas tendências que lhes foram oferecidas. É relativo, alias abstracto, porque só porque algo é fácil, não é sinónimo de má qualidade, e só porque toda a gente o pode fazer, não quer dizer que tenha de ser tudo bom. Os que realmente são bons, ou tornam-se eventualmente bons em algo, podem ter a sua oportunidade nesta sociedade, como tantas outras pessoas. Mas ainda é mais relativo porque cada um vai puxar sempre a sardinha para o seu prato, e outros só vêm bifes a frente, e ninguém aceita nada, enquanto outros aceitam tudo.

Eu estive presente no concerto no Breyner 85, em Dezembro, e pertencendo vocês à nova geração de músicos e perceber que o que fazem é verdadeiro, genuíno e vem mesmo “do coração” foi incrível de se ver. O que destacam da música nacional nos últimos tempos?
David – O nosso país é uma montra de grandes, grandes projectos. Há sempre qualquer coisa nova e boa a surgir… basta estar com os olhos bem abertos. Eu destacaria os Blind Charge; O Bisonte; Ermo; Botswana; Larkin; Halo; Throes + The Shine; Crisis e os Moe’s Implosion. Estou curioso em relação aos Amazonas…aquilo promete!

Vítor – Felizmente muitas, algumas com as quais já tivemos a oportunidade de partilhar o palco, O Bisonte, Halo, Balão Dirigível, Moe’s Implosion, Imploding Stars, Uaninauei, Matilha, MulherHomem, Botswana, etc… A musica vive em Portugal, é uma questão de vontade e querer procurar.

Se vos pedir para referir o disco que, até hoje, mais vos marcou, qual seria?
David – Os discos que mais me marcaram, foram o “Substance” dos Joy Division, o “This Station Is Non-Operational Anthology By Mouse” dos At the drive-in, o “Only Revolutions” dos Biffy Clyro, e o “Worst Case Scenario” dos dEUS. Nunca fui rapaz de ter heróis, mas o Peter Hook (Joy Division; New Order; Revenge; Freebass; Monaco), é o baixista da minha vida. Falando d’O Abominável, sei que quanto ao João, os músicos da sua vida são o Lou Reed e o Iggy Pop…e nem imaginam o prazer e a satisfação que me dá construir música com este senhor, o João Losa (guitarrista d’O Abominável). O João é das melhores pessoas que eu conheço.

Vítor – Um disco? É difícil…

Ouvi dizer que a realização de um videoclip está para breve. O que nos podem adiantar sobre isso?
David – Vai ser giro. Um ponto de viragem para algo que não sei bem o que é. Resta esperar, porque ainda falta.

Vítor – Esperemos que tudo corresponda a nossa visão, mas ainda é muito cedo para podermos adiantar qualquer tipo de informação acerca do mesmo.

Para além disso, também ouvi dizer que o forno está a aquecer coisas boas. Isso relaciona-se com o EP?
David – No que toca ao forno, as receitas são muitas. O EP está a ser trabalhado, como um ingrediente para tal.

Vítor – Certíssimo, vamos começar a gravar o nosso EP em breve com o Davide Lobão, e estamos ansiosos por dar esse passo, que para nós, é um passo chave para podermos evoluir e expandir as nossas competências.

Para terminar… Quem é a Isabel?
David Félix- A Isabel pode ser uma puta, como pode ser a tua primeira paixão, para aí no quinto ano. A Isabel pode ser a rapariga que uma vez me disse que se ia “gregar” para cima de mim (estava eu a beber a minha doce superbock, perto das galerias de paris), ou então a Isabel, é a minha ex-namorada. A Isabel também podia ser a tua prima, se eu quisesse. Isto para dizer que a Isabel, para mim, é a imagem que cada um tem de uma ou outra experiência…Pode ter sido no Paredes de Coura, como pode ter sido naquela rua de meninas perto do STOP. A Isabel tem vida própria.

Vítor – Isabel era uma pessoa real, de há muitos anos aparentemente, até porque alem das versões que tocamos, a Isabel é a única musica pela qual a autoria da letra não é minha e sim do primo do nosso guitarrista. Por isso assumiu este sentido metafórico por parte dos membros da banda. Isabel no fundo é a clarividência e a verdade de muitos jovens no seu tempo pedagógico, em que o queriam era explorar o seu corpo com a gaja mais boa da turma. A Isabel podia ser uma santa, ou até uma croia fatal, ou simplesmente uma bomba para corações fracos. Isabel é o que vocês quiserem, a gente compreende e não julga.