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Uaninauei [Novembro 2011]

Diz-se que no Alentejo não se passa nada. Eu digo que se passa e muito. Um rock inovador e rijo, capaz de mover corpos e mentes intensamente. Como é que os Uaninauei veêm a cidade de berço?
Évora é uma cidade com muitos prós e contras, como todos os sítios. Há muita música mas poucos sítios onde a tocar. É dificil sair da zona, e ao mesmo tempo é preciso ganhar o respeito fora do ‘berço’ para que o teu trabalho seja apreciado. Isso cria um buraco que historicamente tem acabado com quase todas as bandas que lá nascem, incluindo as nossas. Demorou até percebermos o trabalho que dá ter uma banda a funcionar numa perspectiva a longo prazo, e ainda mais juntar um grupo coeso disposto a por as mãos ao serviço, se calhar porque há uma certa ideia de que estamos no interior e ninguém nos liga. Tentamos mostrar aos nossos patrícios e a todos os outros que não é bem assim, que talvez seja preciso trabalhar o dobro, mas se assim é, assim o faremos.

“Cantiga de um ladrão” foi filmado numa quinta que, segundo pesquisei, é a vossa sala de ensaios, o que é um facto invulgar e interessante. Porquê essa escolha?
Este é o outro lado da moeda, somos influenciados pelo facto de compormos os nossos temas no meio do campo, na quinta da D. Vitória, avó de uma amiga que nos cede uma tomada e um espaço onde podemos fazer barulho à vontade, e que de certa forma acaba por se reflectir no nosso método saudavelmente caótico de composição. Filmar este video ali foi uma pequena forma de agradecimento por essa ajuda preciosa. Durante muito tempo, essa quinta da avó de uma amiga nossa era mesmo a única forma que tínhamos de ensaiar, agora vemos isso mais como um privilégio.

Este “Lume de Chão”, iluminou, sem dúvida, o público português. Originalidade e Criatividade presentes desde “Neve Carbónica” ao “Rei”. Ficaram contentes com o resultado final?
Há sempre coisas que farias diferente, mas não é por estarem presentes num disco que deixam de ser mutáveis, e continuamos a adicionar pequenos pormenores a músicas que estão no disco. Para além disso, as novas ideias são sempre as melhores, e o que nos une e nos faz estar nesta banda é saber que ainda haveremos de fazer as nossas melhores canções. Esse trabalho foi bom para nós, estamos orgulhosos dele, mas já só pensamos em fazermos um disco ainda melhor e à imagem do que somos e sentimos hoje.

Louis Armstrong dizia que “só há duas formas de resumir a música: ou é boa ou é má”. Que resumo fazem sobre o que se tem feito, musicalmente, em Portugal?
A música em Portugal não funciona de maneira diferente do resto do mundo. Há modas, tendências, preconceitos, estilos, enfim. O mais ridículo é mesmo aquele velho conceito do “é português, é mau”. Ou bom, tanto faz. Aquela ideia de que temos de fazer coisas “ao nível ou melhor do que se faz lá fora”. Há um conceito quase sebastianista de fazer algo “lá fora”, tanto nas bandas como no público. Talvez queiramos tanto ser cidadãos do mundo que negamos as nossas referências culturais com medo de não recebermos o que vem de fora. Na nossa opinião, a música portuguesa nunca esteve doente, e com o passar do tempo vai ficando melhor. Basta um disco bom por ano para compensar os milhares de álbuns miseráveis que vão saindo. A lista aumenta, e com isso a nossa cultura enriquece, mesmo tendo de passar pelo criticismo dos velhos do restelo que já fecharam os olhos e os ouvidos à novidade. Agora o que os media realçam e o que chega às pessoas, isso é outra conversa, mas a música tem de ser primeiro que tudo julgada pelo som e pelas palavras. E nesse aspecto, acho que vivemos um excelente período, e que finalmente as pessoas estão a perceber isso. Ou esperamos que sim.

Todos vocês passaram por diversas bandas. Foram cruciais para o que são, hoje, os Uaninauei?
Sim, muito do que aprendemos até formarmos este grupo se deve a essas bandas. Nem que seja pela análise dos erros que levaram a que elas não funcionassem da melhor maneira. O mais importante no meio disto é mantermo-nos focados no que realmente interessa, e maioria das vezes são os feitios e não a falta de talento que dissolve as bandas. Nós conseguimos ser totalmente francos uns com os outros, e isso poupa muito trabalho e discussões, e qualquer malentendido é resolvido na hora e com respeito e amizade.

O que usamos exteriormente acaba por reflectir, de alguma forma, o nosso interior. Contudo, e falando do rock, não acham que houve uma altura em que a genuinidade e honestidade que devia caracterizar o mesmo deu lugar a uma maquilhagem e imagem exageradas?
Se as pessoas preferem uma imagem bonita de conteúdo oco ao inverso, elas é que ficam a perder. A genuidade e honestidade só existem na interpretação do ouvinte, e eu acredito que quando o João Pedro Pais canta umas das suas canções, ele pode perfeitamente ser genuino e honesto e eu não identificar essas características quando o ouço. Mas não tenho legitimidade para dizer que não o é. Preocupamo-nos em ser genuínos e honestos, e esperamos que isso passe para as pessoas e até para as outras bandas, mas não queremos mudar a mentalidade de ninguém à força, muito menos dizer-lhes o que ouvir ou usar. A música tem espaço para todos, resta-nos trabalhar para que nos conheçam e que gostem do nosso trabalho para termos direito ao nosso cantinho.

Se o mundo quiser sair da crise em que se encontra, “temos que ser brilhantes e criativos em tudo o que fazemos em cada dia”, diz Sir John Sorrell. Concordam? Acham que a geração actual apresenta os requisitos necessários?
Todas as gerações têm os requisitos para mudar as coisas, o problema é quando elas se escondem nessa suposta incapacidade para não terem de passar pelas partes negativas que isso implica. Eu posso rebentar com o parlamento, mas se alguém o fizer antes de mim, escuso de ter problemas. Eu podia manifestar-me, mas vai muita gente e então eu não faço falta. Eu estou bem na vida, eles que se queixem à vontade. Todas as gerações têm estes pequenos defeitos infiltrados, e é preciso que a crise chegue aos nossos frigoríficos para começarmos a agir, perdermos medos e preconceitos e trabalharmos por uma causa maior. Gostávamos de fazer discursos revolucionários, mas na verdade não deverão haver grandes mudanças sociais a curto prazo. Não se vê ainda um espírito de mudar realmente as coisas. Estamos na fase de refilar no conforto do sofá, numa rede social qualquer, de absorver reportagens sem fim, etc. Mas espero que esta geração aprenda com os erros das anteriores, e que não se conforme, que lute por um futuro melhor, nem que para isso tenha de enfrentar o desconhecido.

Como está a vossa agenda?
Dois anos e meio depois do nosso primeiro concerto, já levamos mais de cinquenta, o que é bastante bom para qualquer banda sem agência, editora ou apoios sem ser de amigos e fãs. Conseguimos sair de um meio bastante fechado e sem tradição na exportação de rock para o resto do país, e hoje em dia, em todos os sítios que vamos, há alguém que já conhece alguns temas. Não nos podemos queixar, estamos a fazer o percurso normal de uma banda desconhecida que sobe a pulso, à custa de muitos concertos, muita insistência e crença na música que fazemos. Mas queremos tocar todos os dias, portanto nunca estaremos totalmente satisfeitos.

Está para breve um segundo registo? Se sim, gostavam de trabalhar com alguém em específico?
O segundo disco está em fase de composição. Estreámos já alguns temas ao vivo, outros já fazem parte da nossa lista em todos os concertos, mas só o gravaremos quando estivermos seguros que temos um leque de músicas, e que elas nos satisfazem plenamente. Até lá, não vamos pensar em mais pormenores de gravação, mas planeamos que esse álbum surja ainda em 2012.

O “Rei” manda embora quem não quer estar aqui ou quem canta sempre o mesmo fado. Que gostaria ele de dizer agora?
Rei só o bolo. Apoiem a música que gostam, seja nacional ou de onde for, e assumam isso como quem gosta de couve-flor e não gosta de bifes de peru, sem estigmas nem misturas de coisas que nada têm a ver com música, sejam estilos de roupa ou de comportamento. E que isso se estenda a tudo o resto das nossas vidas, porque a honestidade, ao contrário do que nos tentam fazer acreditar, é mesmo a melhor maneira de resolver todos os problemas, e quem não for honesto que saia do país, porque são um problema sem solução que nos afunda a todos.