A (in)estética do Rock (Parte 2)

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O pai Rock n’ Roll

Após a Segunda Guerra Mundial, verificaram-se grandes mudanças nos Estados Unidos. O êxodo rural (na busca de melhores condições de vida e emprego), principalmente de áreas mais afectadas do Sul para cidades no Norte, contribuiu para aumentar as populações citadinas. As pessoas do campo, tanto brancos como negros, trouxeram consigo a sua cultura, criando neste melting pot um maior público para a música Country e música negra (Blues, Jazz, Soul, Gospel, etc.). Inicialmente houve pouco contacto entre estes tipos de música e a “música popular” (expressão usada para indicar a música que mais passava na rádio, que mais se ouvia e que mais discos vendia) dos americanos brancos da cidade. As rádios passavam predominantemente as baladas de Tin Pan Alley (situada em Nova Iorque, era uma rua que detinha as grandes editoras de música, gravada e escrita, e lojas de discos. Acabou por ser o nome dado ao conjunto de artistas que trabalhavam nestas editoras).

Aos poucos foram surgindo novas músicas que indicavam novas direcções a serem tomadas. Primeiro com novos cantores, e depois até adaptadas e compostas para cantores mainstream como Tony Bennett, estas músicas eram cantadas com a voz mais enrouquecida, muito emocional (até com soluços) e de forma ritmicamente flexível. Embora ainda muito ligado à música de Tin Pan Alley, com orquestras de cordas, formas convencionais e harmonizações derivadas da tradição musical do século XIX, o sucesso deste novo estilo sugeria a existência de um público para um tipo de “música popular” separada dos padrões do que se ouvia até aí.

Em 1955, o Rock and Roll começou a criar uma base de fãs. Diz-se que o marco mais significativo do início deste género foi a estreia do filme “Blackboard Jungle”, onde se ouve o tema “Rock Around the Clock”, pelos Bill Haley and the Comets, que se tornou muito popular na América e também na Europa. Algo que já vinha sendo desenvolvido pela comunidade negra, foi, neste ano, descoberto pelas grandes editoras discográficas, que viram o potencial de venda que tinha. Finalmente reconheceram que estavam perante uma nova geração com gostos musicais muito diferentes dos dos seus pais.

O grande símbolo desta era do Rock n’ Roll foi, sem dúvida, Elvis Presley. Com a sua forma de cantar, personalidade e presença em palco, marcou e enfatizou as implicações sexuais desta música, mais do que qualquer artista tinha tido coragem até aí.

Embora comercialmente um sucesso, por ir de encontro ao que os adolescentes gostavam de ouvir, esta música era condenada pelas gerações mais maduras. Estas achavam o Rock n’Roll agressivo, incómodo e até incompreensível. Tornou-se, por isto, uma ferramenta de rebelião dos filhos contra os pais. As implicações sexuais eram claras, e esse assunto era inapropriado e até tabu, em meados do século XX. Por ser algo originado da comunidade negra e que poderia levar à mistura de raças, também era mal visto pelos grupos racistas. Tudo foi feito para impedir que esta “doença” se espalhasse, desde processos para banir actuações ao vivo até sermões dos pastores nas Igrejas, mas sem qualquer resultado. O gosto pelo Rock n’ Roll espalhou-se rapidamente pelos dois continentes.

Em 1962 os Beatles gravaram o seu primeiro disco “Love Me Do”. O seu sucesso em solo internacional foi sinal que a qualidade desta música na Grã- Bretanha, tinha chegado ao nível da americana. As suas vendas foram mais altas do que alguma vez visto até aí. Usavam o tempo 4/4 moderadamente rápido e com enfase no segundo e quarto tempos do compasso, característico do Rock n’ Roll. O agrupamento era constituído por guitarra-solo, guitarra-ritmo, baixo e bateria e, por vezes, teclado, com amplificação média. As canções eram em AABA ou ABAB, em vez da forma Blues de 12 compassos. Os textos falavam de amor, muito doces e raramente sugestivos, e criavam um ensemble das quatro vozes, em uníssono ou em harmonias, com um tom normalmente muito agudo e em falsete. Pela sua aparente inocência e simplicidade, este era um grupo de Rock n’ Roll que até os pais podiam apreciar.


Por Sandra Oliveira, vocalista e letrista de Blame Zeus