Motörhead: O fim de um ciclo nos Hawkwind e o nascer de uma lenda

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Com um chapéu à cowboy, botas a condizer e o preto como cor dominante dum look que se mantém inalterável há anos, Lemmy Kilmister tem-se mantido fiel a si próprio, passe o tempo que passar. Viciado em drogas e mulheres, a vida do britânico só conhece um amor maior: a música. Eternizado como frontman de um dos maiores grupos de sempre, o britânico é um dos últimos grandes símbolos vivos do rock n’roll. Sim, leram bem, do rock n’roll. Isto porque, por mais que associem os Motörhead ao metal, para Lemmy a sua banda foi, é e sempre será uma banda de rock. «Nós somos os Motörhead e tocamos rock n’roll», costuma afirmar vezes sem conta. Mas alguém se atreve a contrariá-lo? Se o Lemmy diz que é porque é, afinal o Lemmy é quem sabe.

Irreverente e apreciador de suásticas nazis, o vocalista dos Motörhead sabe bem lidar com as vozes críticas e moralistas que às vezes tentam fazerem-se ouvir. «Qual é o problema? As pessoas parecem confundir o gostar de uniformes com ser um nazi. Acreditem, sou totalmente o oposto de um nazi», assegurou em declarações à Louder Than War (LTH). De facto, muitos são os que tentam mistificar Lemmy, de tal ordem que questionam frequentemente a sua longevidade. O músico está cansado de perguntas sem sentido e segue determinado em continuar a ignorar a morte e a produzir mais trabalhos discográficos. Com uma carreira irrepreensível, pergunto-me se muitos dos que consideram Lemmy um ídolo conhecem os primórdios do seu passado? Talvez sim, talvez não. Seja como for, decidi escrever uns quantos parágrafos sobre o assunto.


O corre-corre de bandas e Jimmy Hendrix

Ian Fraiser Kilmister, ou melhor dizendo Lemmy Kilmister, nasceu no dia 24 de dezembro de 1945. Naquela altura, já a II Guerra Mundial tinha sido dada como terminada e o Reino Unido almejava, então, a paz duradoura. Filho de um antigo capelão da força aérea real britânica, Lemmy nunca teve uma relação próxima nem com o seu pai, nem com nada respeitante à religião, factos que ajudaram a moldar a sua personalidade. Cresceu no País de Gales onde aprendeu uma lição que nunca mais esqueceu: o rock atrai as mulheres. Assim, decidiu abraçar a música, ainda adolescente, para nunca mais a largar.

Motown Sect, The Rockin Vicars ou Sam Gopal foram algumas das bandas por onde Lemmy passou; apetência para covers, sonoridades conservadoras e o espreitar do psicadelismo caraterizaram este período. No entanto, nenhuma outra experiência foi, a meu ver, tão profícua ou assinalável na fase pré-Motörhead como a passagem por Hawkwind. Mas já lá iremos. Ora, entre este autêntico corre-corre de bandas, Kilmister teve a oportunidade de lidar de perto com outro nome assombroso da história da música, refiro-me a Jimmy Hendrix. Quando se mudou para Londres em 1967, Lemmy tornou-se roadie do virtuoso guitarrista norte-americano. Na partilha de momentos musicais juntaram-se os ácidos.


«Silver Machine», hit-single dos Hawkwind na voz de Lemmy

Depois de ter saído dos Sam Gopal, o rocker ingressou nos Oppal Butterfly, contudo deixou-os antes que tivesse tempo para gravar qualquer música. Quem ficou a ganhar foram os Hawkwind: a banda – incontornável no cenário do space rock – estava desesperadamente à procura de um baixista até ao dia em que Lemmy Kilmister fez uma audição. O músico não só ficou com o lugar como, entre 1972 e 1975, ajudou a escrever algumas das mais belas páginas da história do grupo.

Por ocasião da entrada de Kilmister, os Hawkwind tinham já lançado dois álbuns, «Hawkwind» e «X in Search of Space», contudo seria com a ajuda do caloiro que atingiriam o estrelato. Embora tenha ficado encarregue de assegurar o comando do baixo, Lemmy emprestou a sua icónica voz a alguns temas. Não foram muitas as canções em que isso aconteceu, porém foram as suficientes para deixar a sua inegável marca na discografia da banda. O caso mais irredutível é, claramente, «Silver Machine», o único hit-single dos Hawkwind. «Eu tive que cantar ‘Silver Machine’ porque mais nenhum deles conseguia fazê-lo», declarou, em entrevista à LTH (em 2011).

Nesta altura, a banda atravessava uma das suas melhores fases de sempre; a inspiração era muita e culminava nos mais estonteantes e psicadélicos experimentalismos. Em «Hassan I Sahba», por exemplo, a voz de Lemmy não está lá, mas as notas claras e eficazes do seu baixo marcam o compasso. Apesar de ter assumido um papel importante, é preciso ter em conta que Kilmister não era a única força motriz que guiava os Hawkwind. Agora, a verdade é que o grupo de space rock não repetiu, pelo menos da mesma forma, a dose de êxitos de então.

No entanto, nem tudo foram rosas. Em 1975, o frontman dos Motörhead foi detido pelas autoridades transfronteiriças canadianas pela posse de speed. Fruto dessa situação, os restantes membros de Hawkwind decidiram expulsar Lemmy da banda. Porquê? Segundo o site The Run Out, por tomar as «drogas erradas», uma vez que os outros eram mais adeptos de coca. Já imaginaram o que teria acontecido se Kilmister preferisse coca em vez de speed? Onde estariam os Motörhead? «Adorava a banda. Se aquilo [episódio de detenção] não tivesse acontecido provavelmente ainda estaria com eles», disse à LTH. É caso para dizer que os fãs bem podem dar graças pelos vícios de Lemmy.

Kilmister deixou, como já vimos, marcas profundas nos Hawkwind; o contrário também aconteceu. Após a saída do grupo de space rock, Lemmy decidiu criar o seu próprio projeto. Inicialmente chamou-lhe Bastards, mas rapidamente o seu manager explicou-lhe que precisava de um nome mais sonante para alcançar o topo. Foi então que a história das duas experiências do músico britânico se mesclou impreterivelmente: «Motörhead», a última música que escreveu para os Hawkwind, passou a designar a sua banda. Foi o encerrar de um ciclo e o despertar de uma lenda devota ao puro rock n’roll.


Artigo por: Filipa Santos Sousa