free website stats program

Músicos à borla – Uma questão de amor à camisola

À luz das notícias recentes acerca da saída de CJ McMahon dos australianos Thy Art Is Murder, por alegar que não recebia compensação monetária suficiente, o tópico do amor à camisola (música) voltou à baila. Estes eventos ocorreram cerca de um ano após a saída de Daniel Liljekvist dos Katatonia, onde foi baterista durante 15 anos, pelas mesmas razões. Sabendo que ambas as bandas estão sob a tutela de editoras consideradas “grandes” neste meio (Katatonia estão com a Peaceville Records e os Thy Art Is Murder estão na Nuclear Blast US), esta questão assume outros contornos.

Então, quanto vale ao certo o amor à música? Será que um músico necessita de sacrificar tudo, inclusive o seu bem-estar e estabilidade no dia-a-dia para ser respeitado? Qual é o limite? Todas estas questões prendem-se como cruciais no que toca à análise de um tópico tão subjetivo como o amor à causa (música), assim, nós aqui na Rock n’Heavy decidimos aprofundar este assunto e fomos pedir a alguns dos músicos mais proeminentes do underground nacional uma opinião, independentemente se gostam ou não da banda em questão. Estes foram os seus testemunhos:

Ricardo “Congas” Dias (For The Glory): É bittersweet falar sobre esses casos, porque conheço alguns de bandas em que o pessoal pensa que são ricos, porque tocam para milhares de pessoas ou fazem muitas tours. Fazer tours non stop é uma maneira de não gastares em casa (isto se não tiveres casa para pagar) assim andas na estrada sempre e não tens grandes encargos, mesmo que ganhes pouco, vais ganhando o suficiente para viver, ou melhor sobreviver. Tentar fazer vida da música e pensar que se vai viver bem para sempre enquanto músico é meio utópico os mesmos que são grandes hoje, são os mesmos que o eram há 20 anos atrás. Não há grande espaço para novas bandas grandes. Vais fazendo umas coisas engraçadas mas depois a tua run acaba. De qualquer das maneiras, fazeres uma banda extrema para seres rico… é partir do princípio errado. Compreendo a cena de estarem desiludidos por não fazer dinheiro que chegue para as contas, mas por outro lado se a ideia era viverem da música, façam música de massas a sério. Não critico ninguém por fazer música para vender discos, desde que não belisque a sua criatividade com dicas impostas por editoras ou managers. É duro ter bandas e fazer disto vida.

Victor Matos (WEB): Isso são juízos de valor muito complicados, é preciso conhecer e estar bem por dentro da situação de cada caso. Se vivem da música ou não, se recebem pouco ou não, podem não ter o dito amor à camisola, mas também podem tê-lo e estarem a “passar fome em casa”, podem precisar de outro tipo de projetos… enfim são muitos fatores influenciadores e desconhecidos para poder opinar sobre tal facto…

Daniel Cardoso (Anathema, Heavenwood, ex-Oblique Rain, ex-Sirius): A saída de um músico profissional de uma banda por questões financeiras é completamente legítima. Estamos essencialmente a falar de pessoas, das suas vidas, e de um mercado de trabalho. Nesse âmbito há quem precise de um income maior, há quem precise de um income menor, há quem tenha famílias ou filhos sob a sua alçada para sustentar. Às vezes por muita paixão ou amor que se tenham à camisola há situações neste meio que se tornam financeiramente incomportáveis e o homem adulto, consciente de que terá que trabalhar e sustentar a sua família (ou a si próprio), pode optar por seguir outros caminhos mais seguros. O grande problema de uma banda atual de dimensão intermédia é que apesar de tudo exige um grau considerável de dedicação e disponibilidade mas oferece um grau muito baixo de remuneração. Aceitar esses termos é fácil quando se tem 16 anos e as despesas asseguradas pelos pais, ou quando se tem outras vias de income, ou quando se consegue conciliar uma espécie de day job paralelo. Nem todos os músicos conseguem reunir essas condições e os que não conseguem podem e devem procurar a sua segurança noutro lado.

Rui Alexandre (Terror Empire, fundador da Mosher): Independentemente do género de música, há um ser humano por trás da decisão do vocalista. Somos todos diferentes e todos queremos coisas distintas uns dos outros – até de nós mesmos, nas várias fases das nossas vidas. O CJ viu que nem no pico da popularidade da sua banda conseguia ter um rendimento minimamente decente e tomou uma decisão ponderada em relação a isso. É bem menos romântico que viver para a música – é um pouco disso que se faz o material das lendas, mas muito mais saudável a todos os outros níveis.

Ismael Couñago (Agonica): Há muita gente à volta da banda a trabalhar e a ficar com dinheiro. Creio que a banda está mal gerida.

Filipe Gomes (Destroyers Of All): É difícil de dizer, mas o amor à camisola não é tudo nem paga contas. Por exemplo, se o baterista dos Ne Obliviscaris abandonou o emprego dele para se dedicar a ir em tournée, ou ele ganha bem na banda, o que eu não acredito, ou então tem facilidade em arranjar emprego.. há também a hipótese extra – tem papás que o sustentem. O amor a camisola é giro mas quando não dá, não dá.

João Duarte “Deris” (Corpus Christii, Trinta & Um, Goatfükk, Lvcyfire, Infra, Alchemist): Há músicos que acham que o seu empenho e dedicação deveria ser mais valorizado e talvez por não receberem o que julgam ser justo, acaba por lhes faltar motivação, o que consequentemente faz com que abandonem a sua própria banda.

Miguel “Inglês” (Equaleft): Respeito esse tipo de decisões, pois muitas das vezes os sacrifícios são enormes para que se possa continuar a fazer aquilo que se gosta. Especialmente no Metal! Não é fácil tomar uma decisão como essa mas são opções que são feitas no limite. Quando envolve as bases de sobrevivência de um músico como a família e o seu bem-estar, implica tomar decisões dessas!

Pedro Pedra (Grog, Di.Soul.Ved): Eu não conheço os contornos da história que me facultaste, mas há aqui algumas questões que me parecem importantes abordar. O amor à camisola existe sempre quando sentimos as boas emoções à flor da pele em qualquer área, mas o mais engraçado é que não existe um medidor desse parâmetro cada um de nós terá o seu conceito e a sua forma de o viver como tal, a meu ver, é muito subjetivo questionarmos o amor à camisola. Por isso o amor à camisola é responsável de manter e desmembrar formações/bandas, haja ou não dinheiro envolvido. Falando do underground em geral, e neste caso e corrige-me se estiver enganado, estamos a falar de uma banda bem posicionada no mercado, com editora à medida e todo o tipo de estruturas adjacentes e inerentes a manutenção da banda já existem vários casos documentados, lembro-me por exemplo do caso do Dave Lombardo de Slayer, um caso mais que claro que o amor à camisola é inquestionável e atenção o amor à camisola é sempre para o estilo musical e não à banda, o Dave Lombardo continua a tocar música muito embora não esteja na banda de eleição dele, por isso quanto ao amor pela camisola encerro o assunto por aqui. Segundo tópico deste assunto todos nós sonhamos em ter uma banda porque essa é a catalização mais perfeita do amor pela camisola, não conheça ninguém que diga o contrário mas entrar no mundo das majors, do agenciamento, das tours, dos calendários subverte o dito amor acontece que, e isto é mais que sabido, a indústria passa tempos difíceis e as bandas são aquelas que menos lucram com a sua atividade, o lucro é maioritário para editoras e promotores e dentro da banda poderá haver inclusivamente percentagens diferentes de lucro face à relevância dos membros, funções desempenhadas, histórico, etc. Basicamente quando um músico dessa liga afirma que está de saída tudo isto está em jogo. Moral da história, a indústria asfixia o amor à camisola levando os músicos que querem viver da música que amam a tomar este tipo de decisões mas, para qualquer, o amor à camisola é imortal!

Raça (Revolution Within): Por experiência própria, a saída dum elemento duma banda nunca é fácil de gerir. Haverá sempre inúmeros motivos para justificar situações deste tipo, mas julgo que na maior parte das vezes só mesmo os músicos é que saberão as verdadeiras razões. A única coisa que podemos esperar é que a saída de um ou mais elementos não seja o fim da banda mas sim o início de uma nova etapa, se possível para melhor.


Texto: Rita Limede

Marco António Pires

Sou amante da música em geral com gostos mais virados para o metal, mas estou sempre disposto a ouvir coisas novas!