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Onde andam os outros 79 mil?

Porque é que as bandas grandes enchem estádios e as bandas pequenas (quase) não têm público?

Esta será, com toda a certeza, uma pergunta que qualquer pessoa que frequenta o underground já fez pelo menos uma vez na vida. Eu coloco esta questão muitas vezes e confesso que ainda não encontrei uma resposta satisfatória. Ou, pelo menos, uma hipótese única que me explique a disparidade entre os 80 mil espectadores no dia de Metallica no Rock in Rio e os 20, 30, 50, 100 (!!) num qualquer concerto com bandas da nossa praça.

Será desatenção? Será que nem sonham que há tanta banda Portuguesa a tocar em bares e pequenas salas por esse país fora? Será que conhecem os digníssimos festivais que há de Norte a Sul? Ou será que sabem mas não os entusiasma o suficiente para sair do aconchego do lar para o calor humano do metal e rock? Será que eram fãs de Iron Maiden nos anos 90 e continuam a ir para matar saudades mas o amor pelo metal fica-se pelas memórias do que ouviam antes de lhes passar “a fase”? Ou ainda ouvem mas nunca se deitaram a descobrir muito mais além das bandas que já ouviam na época?

A verdade é que quem teve a sorte de ser adolescente ou adulto nos anos 80 e 90 e era fã de música pesada, pode testemunhar em primeira mão concertos que hoje são míticos, tours históricas e alinhamentos de bandas que não mais se repetiram. Tudo o que girava à volta de um concerto dos “grandes” fazia dele um verdadeiro acontecimento. Os meses de espera sem concertos, o juntar dinheiro para o bilhete, a confusão na entrada, estar lá 10 horas antes para ficar à frente ou só pelo convívio bem regado. Eram também vistos como perigosos e antros de droga e loucura pela Polícia, pelos pais, pelos media. Talvez não fossem assim tão maus como pintavam, mas todos os que têm idade para ter ido a concertos de metal nos 90s, sabe de histórias de pessoal que vinha só para andar à porrada com os rivais bairristas ou de como uma viagem de comboio Cascais – Cais do Sodré depois de concertos no Dramático era digna de ser documentada. Sabe também que a resposta certa para a pergunta “Puto! Tens já bilhete?” era sempre “Não, não… uns amigos meus mais velhos é que têm o meu e estão já lá à frente!” ou o mais certo era ficar sem ele e ainda levar uma bem assente.

A 2 de Julho de 1992, a minha avó foi dar comigo muito triste a fazer os TPCs porque era dia de concerto e eu não podia ir (já tinha 9 anos, uma injustiça!); um amigo meu, na altura com 15 anos, ficou a chorar à porta com bilhete na mão porque o evento era para maiores de 16…  Mas uns quantos milhares de sortudos viram o que foi a única passagem de Guns’n’Roses por Portugal com a sua formação original e no pico da sua carreira.

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Em Junho de 1993, Metallica pisavam pela primeira vez solo Português e logo na tour do Black Album, que os catapultou para o sucesso, acompanhados por Cult e Suicidal Tendencies. As ruas à volta do velho estádio de Alvalade eram um mar de cabeludos cheios de sede – era Verão, ok? O pai de um amigo meu trabalhava numa das torres de escritórios ali ao lado e disse-lhe no dia seguinte “Se eu soubesse que aquilo ia ser assim, nem pensar que tinhas ido”. Os meus primos mais velhos foram, para grande inveja minha, e lembro-me bem dos seus relatos impressionantes e impressionados de quem tinha vivido uma experiência para não esquecer e que incluíam, além da música, ser levado pelo mosh de pés no ar e quase comer cabelos alheios no meio do headbanging infernal. Those where the days!pantera

Já em Outubro de 1994 lá fiquei eu mais um dia em luto mental porque Pantera vinha ao Dramático e, mais uma vez, uma casa cheia lá esteve para testemunhar uma formação de que nunca mais voltaria a passar por solo lusitano e com uma setlist que foi um mimo (se estás a ler isto e foste, odeio-te um bocado, ok? Nada pessoal!). Conta a lenda que houve quem entrasse pela janela da casa-de-banho e que a rua que ia dar ao Dramático era um mar de jovens cheios de sangue na guelra, material fumável de natureza ilícita e muita vontade de ouvir metal.

Apenas três exemplos contados por alguém que viveu tudo isto de longe, com idade para saltar à corda e ao mesmo tempo comprar revistas cujo nome não sabia pronunciar só para ter os posters das bandas mas sem idade para participar neste eventos que se tornaram míticos. Será que toda esta mística era o que levava milhares a estádios, a encher salas até já não haver espaço para respirar e que hoje se perdeu porque é simplesmente “normal” ir a um concerto? Não havendo tanto risco de ficar sem dentes ou ser roubado no caminho a coisa perde a intensidade? Será que esta fúria de viver que levava milhares aos estádios é a mesma que ainda nos une e por isso temos de peregrinar a cada concerto de Iron Maiden e Metallica mas que se perde nas centenas de bandas – muitas de alta qualidade – que são hoje o genes do nosso underground?

Por outro lado, poderemos argumentar que pecamos por excesso. Dividimos em que vez de unir, nas dezenas (ou centenas?) de concertos que temos por ano. Desde os Rock in Rios e AC/DCs desta vida, que são “caríssimos” mas que esgotam rapidamente e nos proporcionam anúncios de OLX anedóticos e de especulação disfarçada (“Troco bilhete de AC/DC por iPhone 5 ou smartphone de menor valor com acerto em dinheiro”) até ao mais pequeno concerto no Side B em Benavente ou na Cave 45 no Porto com 20 ou 30 pessoas, a escolha é, de facto, muita. Como melómana assumida, eu não diria que é demais mas para outros talvez o seja. Estaremos cá os mesmos mas mais diluídos e divididos? A verdade é que quem frequenta concertos sabe que as caras são sempre as mesmas. Com adições de camadas mais jovens de quando a quando e umas quantas aposentações, somos mais ou menos sempre os mesmos e vamos variando entre nós conforme o estilo do concerto, a distância e o dinheiro que há no bolso e lá nos unimos todos no SWR ou quando bandas já com alguma história nos visitam. Onde andam os outros 79 mil?

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Há também a teoria de ser uma questão de informação.
Uns dizem que há demais e, às tantas, já nem se consegue seguir e filtrar e por isso deixa de haver interesse. Outros dizem que há de menos e nunca sabem quando há concertos e nem sonham as dezenas de bandas Portuguesas que por aí andam. O que diria um heavy dos anos 80 que vivia de conhecer bandas à custa de tape trading e zines feitas à mão ou máquina de escrever e fotocopiadas até quase não se ver o que lá vem escrito sobre a nossa “falta de informação”? Ria-se, no mínimo. Temos uma revista portuguesa mensal sobre música pesada em todas as bancas minimamente variadas por esse país afora, temos mais duas ou três publicações estrangeiras fáceis de encontrar, já para não falar da revista que já foi jornal e que ainda vai falando de metal aqui e ali. Temos depois várias webzines portuguesas, temos centenas estrangeiras, temos Metal-Archives, Metalunderground, Facebook, MySpace… Será demais e tão banal que já não ligamos? Ou será que não queremos mesmo é procurar?

Como todas as paixões, dá muito trabalho segui-la mas o mesmo é compensado quando descobres uma nova banda que te diz algo no meio de um festival, ou quando finalmente ouves ao vivo pela primeira vez os imortais acordes iniciais de “South of Heaven” e parece que, por momentos, ganhaste asas (e verdadeira pele de galinha!). Também tem o seu lado irracional e desenterra em nós a capacidade de juntar dinheiro onde não há, viajar quilómetros e quilómetros para ver aquela banda, apoiar as bandas dos amigos e mesmo até pisar um palco pelo prazer de tocar! Desperta também o lado de claque e clubismo e ai de quem ofenda a nossa tribo. “Metal em Portugal é no RiR e de dois em dois anos” comentou alguém há pouco tempo na página do mesmo festival, desencadeando ódios, ridicularização e comentários que não seriam próprios de reproduzir aqui.

Não encontrei ainda bem a resposta à pergunta, como podem ler. Sei que para uns quantos, deixar de ir a concertos é algo de impensável e que tão pouco faz sequer sentido. Para uns largos milhares, ir a concertos é um ritual que se faz de ano a ano ou mesmo só de muitos em muitos anos, guardado para as bandas especiais, seja porque razão for. (Sei também que tocar para salas quase vazias não ajuda a alimenta a indústria musical, nem o ego e muito menos as carteiras de quem toca. Isto fica para outro dia…). Há certo ou errado nesta dicotomia? Talvez não, talvez deva mesmo ser assim. Não é isto de ser do rock, afinal, underground e não das massas? Quereriam mesmo partilhar com o resto do mundo tudo o que tem de especial os concertos a que “só nós” vamos?
Queriam mesmo 50 mil pessoas em Barroselas? Cá para mim, está bom e não mexe!

  • Angela César Dionísio

    Odeias-me um bocadinho assim, ou muito mesmo é que mamei os 3 concertos!!! Beijos Jo!

  • José Reis

    talvez seja uma questão de gostos…talvez o portuguese boralácaralhometal não desperte a atenção de fãs de iron maiden ou metallica…talvez lol os 79000 prefiram vozes limpas e não vocalistas que berram…

  • Pedro Domingos Bela Ferreira

    Restam poucos dos fãs dos 80’s 90’s, rodam os verdadeiros. A chavalada actual vai ver o que é publicamente falado, não sabe curtir musica, sabe ver a casa dos segredos, mas não contam a ninguém ( claro existem excepções) … Por muito boa que seja a banda, o ambiente, barato ou de borla; não é conhecido não serve para contar aos amigos, para orgulho pessoal. Eu era chavalo, consideravam a geração perdida, esta é a dos burros convencidos que eles é que são alguma coisa que ainda não entendem… Portanto Rock verdadeiro, Metal, Blues, Jazz e afins, sobrevivem. Talvez em 2026 as salas pequenas criem bandas grandes e legiões de fãs e músicos novos.

  • Ricardo

    acho que esta é uma não-questão…
    para já, haver pouca gente nalguns concertos e dezenas de milhares noutros é uma realidade mundial, não é só no nosso país… tem que ver com o mercado dominado pela pop e com uma cultura musical pobre a nível geral

    o metal mais extremo sempre foi, e julgo que sempre terá de ser, de nicho, de pequena escala… haver “pouca” gente em concertos não é por estar bem ou mal, é quase uma condição dum fenómeno que tem alguma dose de radicalismo e de culto