Um Português no Reading [por Bruno Cardoso]

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Sejamos sinceros, quem é que olha para os cartazes dos festivais estrangeiros e não fica boquiaberto com a quantidade (e qualidade) de artistas confirmados (sendo que muitos desses nunca visitaram nem nunca, certamente irão visitar o nosso país)? Foi essa a minha reação quando consultei o cartaz da edição do festival inglês – Leeds/Reading 2014 que decorreu nos passados dias 22, 23 e 24 de Agosto. Com um custo de 125€ por dia, não foi propriamente uma decisão fácil mas após alguma ponderação decidi embarcar nesta aventura, realizando uma viagem a Londres com o intuíto primordial de ir a um dia do festival de Reading (dia 24 de Agosto, Domingo). Venho-vos então contar a minha experiência no festival.

Há muito tempo que desejava ir a este festival e foi este ano que o consegui concretizar. Com  tão boas confirmações ao longo dos anos, tornou-se hábito da minha parte consultar a sua página e contemplar a panóplia de artistas confirmados. Um festival que era originalmente essencialmente composto por bandas de rock, reinventou-se, contemplando neste momento diversos estilos de música (embora o rock continue a ser o mais proeminente).

Na véspera do festival, armei-me em “tuga” e preparei uma marmita para o dia (afinal, são concertos desde as 12h da manhã até às 24h, há que nos precaver). Foi necessário acordar bastante cedo, uma vez que Reading se encontra fora da cidade Londres, a cerca de 30 minutos de comboio (para os interessados, conseguem-se bilhetes de ida e volta por cerca de 18 libras).

Pensei que talvez me perdesse, uma vez que era uma zona totalmente desconhecida para mim, mas não tive qualquer tipo de problema em encontrar o caminho, uma vez que este está tudo muito bem sinalizado com tabuletas. Aliás, algo que me espantou foi a forma como cidade se adaptou para receber o festival (desde barraquinhas na rua, a restaurantes “provisórios”, tudo isto tornou a experiência muito agradável).

Para aqueles que desejem fazer uma caminhada até ao festival, são cerca de 15 minutos a pé. Para os outros, está disponível um autocarro à porta da estação, cujo custo é de 1 libra e deixa os festivaleiros à porta do festival (este autocarro está disponível até às 4 da manhã, o que dá uma flexibilidade incrível às pessoas que frequentam o festival).

Ao entrar no festival, fui logo “apanhado”, uma vez que o segurança que me revistara perguntou de onde era. Quando respondi Portugal, tanto ele como os colegas ficaram espantados por ter vindo de longe para Reading. Um dos seus colegas disse prontamente que sabia pronunciar palavrões em português (e eu vou ser sincero, sabia e bem!) o que tornou a minha entrada no festival uma experiência humorística.

Posto isto, uma longa caminhada me esperava, talvez mais longa do que esperava, uma vez que tive que passar por duas áreas de campismo inteiras só para chegar à entrada do recinto em si. Os ingleses quase não se viam (viam-se sim, as garrafas vazias da noite anterior e algumas pessoas a dormir ao relento), facto compreensível por serem apenas 9 da manhã. As tendas foram o meu maior entretenimento ao caminhar para o festival, uma vez que se encontravam bastante personalizadas (uma delas incluía uma lista de pessoas com quem os donos da tenda já se tinham envolvido naquele festival).

Ao chegar ao recinto, foi altura de descansar um pouco e esperar pela sua abertura (às 10 horas da manhã). O que marcou bastante a diferença entre este festival e um qualquer português, foi o facto de começar cedo e acabar cedo (o festival acaba sempre entre as 23:30h e a meia noite), o que possibilita um maior número de artistas e concertos.

Enquanto esperava, os seguranças da entrada decidiram alinhar no tão falado “ice bucket challenge”, obrigando um colega a sentar-se, de roupa interior, e despejando-lhe um bidão de água com gelo em cima. Ao mesmo tempo, outro segurança começou a recitar Shakespeare, sendo bastante aplaudido por muitas das pessoas que esperavam tão ansiosamente como eu.

Aquando da abertura das portas, o caos instalou-se, as pessoas corriam (como seria de esperar) para o palco, mas eu obriguei-me a parar na tenda da merchandise ofícial para dar uma espreitadela. Posto isto, também eu me apressei para conseguir um lugar próximo do palco.

Ao meio dia, The Story So Far já subiam ao palco para abrir o dia sendo que deram um concerto de 40mnt cheio de energia. Provenientes dos E.U.A. posso dizer que estes rapazes têm futuro. À medida que o tempo passava, os campistas despertavam e era notória a afluência que se verificava (o que não é de espantar, uma vez que o dia estava lotado).

Quando o primeiro concerto terminou, com uma chuva de aplausos, o público apenas teve que esperar 15mnt até ver os Tonight Alive no palco. Provenientes da Austrália, a banda liderada pela vocalista Jenna McDougall teve uma atuação à altura do que era esperado, arrancando o concerto com o tema “The Edge”, que pertence à banda sonora do filme “O Fantástico Homem Aranha 2”. Durante 45 minutos a voz quente de Jenna aqueceu o público e a banda terminou a atuação fazendo a promessa de regressar a Inglaterra brevemente.

Vou ser sincero e dizer já à partida que não sigo os Young Guns, que se seguiram no palco, mas do ponto de vista de alguém que não é fã, até gostei do concerto, parecendo-me uma atuação bastante completa e cheia de presença nos 45mnt de concerto.

Os Papa Roach seguiram-se aos Young Guns, dando um concerto explosivo do princípio ao fim. A interação com o público foi, sem dúvida, das melhores do dia. Os 50mnt deram tempo à banda para cativar o público durante 12 temas, vibrando estes com cada um deles.

Eram 16:05h quando os Sleeping with Sirens subiram ao palco. Mais uma vez admito que não sigo a banda, mas os fãs ingleses queixavam-se constantemente que o vocalista não conseguia atingir as notas mais altas ao vivo, fator que terá condicionado a sua atuação.

Era então tempo de ver a banda norte americana, A Day To Remember que era sem dúvida, a banda que mais ansiava ver ao vivo. Para minha infelicidade, dececionei-me bastante, sendo que estava à espera de melhor. Como já tinha constado por vídeos no Youtube, é difícil para o vocalista (Jeremy) acompanhar os temas mais acelerados, uma vez que fica sempre sem fôlego, o que condiciona a atuação da banda em si. De pontos positivos, tenho a destacar o facto de terem sido 50mnt de concerto completamente loucos, com rolos de papel higiénico a pairar pelo ar, bolas de praia e até uma bola de zorbing… com o vocalista lá dentro (durante o tema Homesick).

Quando Josh Francheschi subiu ao palco para dar início ao concerto dos You Me At Six, o público feminino gritou de entusiasmo. Não sendo apreciador da banda, observei o público em redor, reparando que todos vibravam com as músicas que tanto gostavam e comentavam que a voz do vocalista estava muito boa. Para 56mnt de concerto, considerei esta uma atuação com nível e muito competente.

Infelizmente o que se seguiu não foi de todo do meu agrado, nem da maioria dos nativos que vaiavam só de ouvir o nome Macklemore & Ryan Lewys”. Completamente a destoar em relação aos restantes artistas, o concerto (com duração de 1:10h) foi chato e bastante aborrecido para quem ansiava por um bom dia de rock/hardcore/etc.., sendo que o artista foi “obrigado” a repetir o tema “Can’t hold us”  para tentar cativar o público.

Quando chegaram as 21:30h estava na hora de colocar a cereja no topo do bolo, com os blink-182 a subirem ao palco. A 1:30h de concerto começou com um excerto insólito intitulado “You’re a Cunt” que abriu o apetite ao público, que tanto aguardara. O tema Feeling This foi, como tem sido sempre, o escolhido para abrir o concerto, surge a bandeira do Reino Unido atrás do palco, com o símbolo da banda estampado. A formação tocou todos os seus tem as icónicos, com pirotecnia à mistura, ficando apenas a faltar o tema “Josie”. Houve ainda tempo também para uma cover dos Misfits.

De salientar que o vocalista/guitarrista Tom Delonge já não tem o mesmo poder vocal que tinha anteriormente e tal foi notório na interpretação de alguns temas como “I Miss You”. No entanto, não se pode dizer o mesmo dos restantes elementos da banda, uma vez que tanto Travis Barker (baterista) como Mark Hoppus (baixista), que se encontram em grande forma. No final do concerto, Mark Hoppus subiu à bateria e tocou um pouco para o público.

Em suma, posso dizer que foram 125€ gastos no bilhete para experienciar algo que nunca tinha feito, num ambiente completamente diferente e tive oportunidade de ver bandas que nunca vieram a Portugal, com concertos espetaculares, realmente, essa experiência ninguém me tira.

Fica em baixo um vídeo com a transmissão do concerto dos blink, através da BBC para os mais curiosos!