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Ava Inferi – Onyx

 AVA INFERI, a banda de Rune Eriksen aka: Blasphemer (Ex-MAYHEM; Ex-AURA NOIR) e Carmen Simões (Ex-AENIMA), estabelece uma simbiose entre as raízes musicais desses dois génios criativos. A força visceral, crua e quase telúrica de MAYHEM conjugada com o lirismo etéreo, feérico e onírico de AENIMA leva, em 2005, ao despertar de uma sonoridade tão híbrida como original.

Em 2006, Burdens, o álbum de estreia, revela como o poder criativo de Eryksen e a voz inconfundível de Carmen podem conduzir-nos às profundezas ocultas da alma humana. The Silhouette, um ano depois, confirmou que estávamos perante uma banda sui generis, ainda que habitualmente catalogada nas esferas do doom/gothic metal, não padecendo, no entanto, dos clichés habituais. Em Maio de 2009, emerge das trevas, Blood of Bacchus, álbum que introduz maior complexidade no universo musical da banda. Nesse instante, a maturidade do projecto torna-se evidente ao longo de faixas que crescem quer em duração quer em termos de mestria criativa.

Lançado, a 14 de Fevereiro de 2011 (note-se o simbolismo da data), pela editorafrancesa/norte-americana Season Of Mist e produzido por Dan Swanö, Onyx reforça as tendências já presentes em Blood of Bacchus, revelando, no entanto, uma maior riqueza quer ao nível da dramatização quer no que diz respeito à componente musical em si (note-se o papel de Swanö), algo que poderá ser determinante na evolução do processo criativo dos AVA INFERI e que os pode aproximar cada vez mais de territórios por desbravar na senda do metal.

Se Blood of Bachus nos recordava o vínculo pagão do pensamento e da estética dos AVA INFERI ao convocar um certo ambiente de “Bacchanalia” dionisíaca; se The Silhouette tinha um cariz aparentemente Wiccan, este Onyx projecta-nos para a esfera dramática do horror e do macabro.

As amplificações simbólicas que Onyx nos oferece são paradigmáticas daquilo que é a matriz dos AVA INFERI. De notar que o mineral ónix é simbolicamente interpretado como a pedra da discórdia, capaz de provocar transmutações psicossomáticas que originam, por exemplo, pesadelos durante o sono. Símbolo de fatalidade e de poder, o ónix é a metáfora perfeita para um universo musical que acaba por ser tão sombrio, hermético e saturniano como o coração dessa pedra negra. No entanto, o ónix é, por excelência, a pedra da catarse pela forma como interfere nos equilíbrios energéticos, ajudando a expulsar toda a negatividade, exorcizando medos, angústias e terrores. À semelhança do ónix, a música dos AVA INFERI instaura uma verdadeira catarse emocional, demonstrando que apenas quando tocamos nas profundezas mais obscuras do nosso ser conseguimos verdadeiramente exorcizar os nossos fantasmas ocultos.

Onyx, a faixa que dá nome ao álbum, é a intro perfeita para esta fantasia funérea e mística. Os gemidos lancinantes da guitarra de Eryksen presidem a uma urdidura melódica composta por camadas concomitantes. A voz de Carmen projecta-se ao longo da música, criando uma atmosfera de locus horrendus potenciada por samplers de gargalhadas terríficas e trovões ribombantes, elementos que nos transportam de imediato para alguns dos ambientes mais sombrios, tétricos e lúgubres que a banda alguma vez apresentou. De realçar que as cambiantes fonéticas da vocalista ao longo da faixa chegam a fazer lembrar Diamanda Galás.

The Living End, um dos melhores momentos de Onyx, abre com a beleza cristalina da guitarra que se prolonga em crescendo até encontrar a voz delicodoce de Carmen. Logo a seguir, é a voz masculina que se junta ao diálogo da vocalista com a guitarra, criando um jogo de dissonâncias entre as vocalizações dos intérpretes que nos transporta para uma atmosfera gótica vintage, plena de nostalgia e alicerçada em linhas rítmicas muito melódicas.

Portal vive do protagonismo omnipresente da guitarra, com breves apontamentos dos teclados. Com os riffs a ganharem peso e preponderância e a percussão tornando-se mais visceral, a voz circula pelas linhas instrumentais, traçando curvas entre registos ora doces, ora agudos.

((Ghostlights)) é composta por motivos atmosféricos que lembram a sonoridade do álbum de estreia Burdens e aí vislumbram-se breves, mas electrizantes solos da guitarra de Eriksen.
Majesty, o primeiro single, é a síntese perfeita do trabalho da banda. Não há aqui espaço para os convencionalismos do gótico contemporâneo. A voz de Carmen mantém-se fiel ao registo atmosférico/ feérico e as breves circunvagações operáticas permanecem contidas num âmbito intimista que não se deixa seduzir pela grandiloquência mainstream. Note-se ainda como os instrumentos criam a melopeia perfeita para que a componente vocal possa fluir e seduzir-nos ao longo dos vários momentos da música. Um apontamento para o vídeo de Costin Chioreanu/ Twilight13 Media, filmado em Bucareste, que capturou verdadeiramente a essência feérica de Majesty. De referir que a paleta de cores empregue no vídeo é a mesma utilizada na capa do álbum, também ela fruto do trabalho artístico de Chioreanu.

Belíssimo momento, onde é notória a musicalidade avant-garde das composições dos AVA INFERI, é The Heathen Island, um tema que conjuga as vibrações dilacerantes da guitarra com uma linha de baixo verdadeiramente possante que auscultamos ao longo da faixa como se nela pulsasse um batimento cardíaco. Se por vezes o trabalho rítmico do baixo cede ao domínio da guitarra, logo renasce ainda mais distorcido, orgânico e sincopado, criando uma sonoridade pouco comum mesmo noutros temas da banda.

By Candlelight & Mirrors é uma elegia nostálgica com destaque para os momentos em que a voz explora as notas mais graves e o timbre se torna mais profundo e melancólico.
Venice in Fog, o epílogo, constrói um dos momentos mais intimistas e fascinantes do álbum, com um trabalho vocal muito doce e atmosférico da vocalista, acompanhado pela batida “cardíaca” da percussão e pelas melodias da guitarra. De realçar a presença de outros motivos melódicos como as ondas que ouvimos marulhar em pano de fundo, pontualmente entrecortadas por estrídulos de gaivotas, a perpetuar o apelo das águas que encontramos em álbuns anteriores.

Onyx marca assim a passagem dos AVA INFERI a um patamar superior no âmbito desse projecto musical, sendo de realçar que o potencial intrínseco da banda é explorado sem cedências à esfera mainstream e sem qualquer diluição dessa identidade matricial que faz deles um objecto artístico singular, seja qual for a direcção percorrida para lá da ocidental praia lusitana.

Análise de Rui Carneiro