free website stats program

Nightwish – Imaginaerum

Depois de “Imaginaerum” ter confirmado, um pouco por toda a Europa, as expectativas de sucesso de vendas anunciadas, o novo álbum de NIGHTWISH acaba de fazer a sua estreia nos Estados Unidos. Aproveitamos o momento para dedicarmos estas palavras àquele que foi aclamado por alguma crítica como um dos melhores álbuns de 2011.

Sétimo álbum de uma carreira de sucesso, “Imaginaerum” é uma opus conceptual fruto de um longo processo de delapidação e maturação, sendo que apresenta ainda a curiosidade de ter sido produzido a par do filme homónimo de Stobe Harju, existindo vincados e profundos nexos semânticos e narrativos entre os dois formatos.

Atualmente os NIGHTWISH não são apenas uma banda de metal sinfónico, este novo trabalho apresenta motivos e cambiantes de tal forma ecléticos que qualquer tentativa de classificação estaria votada ao fracasso. Como classificar uma música como “Slow, Love, Slow”? Inspirada nos clubes noturnos dos anos 30, é uma canção inquietante e sedutora, conjugando teclados de reminiscências vitorianas com o feitiço nefelibata e mágico do blues e do jazz e criando atmosferas dignas um cabaret vaporoso e lúbrico onde uma diva seduz voluptuosamente uma multidão de boémios diletantes com o seu mefistofélico canto de sereia.

No entanto, se pensarmos que o álbum apresenta, depois do introito “Taikatalvi”, a investida de vocação mais mainstream “Storytime”, constatamos que a diversidade será motivo recorrente ao longo do álbum. O registo de Anette neste tema é demasiado convencional para nos deslumbrar e, na linha do que vem sucedendo com o som da banda, este é um momento em que se distingue a prestação de Tuomas Halopainen nos teclados, sendo que impera a simplicidade ao nível da estrutura melódica e lírica. Na verdade, Tuomas chegou mesmo a afirmar que este tema representa o conjunto do álbum e a sonoridade atual da banda.

“Ghost River” envereda por uma abordagem mais heavy desde os riffs iniciais. A introdução do registo cavernoso de Marco Hietala e as dicotomias que se estabelecem com a voz delicodoce de Anette e, a dado momento, com o coro infantil, contribuem para que o tema evolua com generosa vivacidade e intensidade rítmica.
“I Want My Tears Back” surpreende-nos com a sua abertura folk que ao longo do tema partilha o protagonismo com uma toada mais épica e dramática. Há que celebrar o facto de a banda apostar numa vocação mais experimental, mas, neste caso, talvez o resultado tenha ficado aquém das expectativas.

Os ambientes e sonoridades mais carnavalescas também comparecem neste universo, veja-se a introdução a “Scaretale”, no entanto, estamos num cenário de feira popular assombrada e somos convidados a assistir a um circo de horrores. A percussão assume algum relevo, compondo com os teclados e as cordas um ambiente particularmente tétrico. Annette assume um registo deslocado daquele a que nos habituou, enveredando pelas tonalidades mais maquiavélicas e sinistras. De notar que existe neste tema uma investida coerente na dramaticidade e teatralização musical que é característica da banda.

“Arabesque” funciona como interlúdio orquestral e coloca o foco no virtuosismo dos instrumentistas da London Philharmonic Orchestra (aqui designada como The Looking Glass Orchestra) dirigida por Thomas Bowes e conduzida por James Shearman, sendo que a direção musical e os arranjos são da responsabilidade de Pip Williams.

“Turn Loose The Mermaids” traz os ecos do passado nos seus eflúvios com sabor a maresia. A beleza singela da canção evoca composições de outras eras e transporta-nos para ambientes dignos de festividades pagãs.

“Rest Calm” pelo título sugere ambientes plenos de ataraxia, no entanto esta é uma das faixas mais heavy do álbum, exibindo alguns dos riffs mais densos e pesados deste trabalho. O ritmo galopante em diversos momentos do tema é um dos aspetos positivos, sendo também de salientar o dinamismo dos diálogos ao nível das vocalizações contrastantes, no entanto, a longa duração do tema acaba por torná-lo demasiado repetitivo.

Alternando o registo acústico com a dinâmica do elétrico, “The Crow, The Owl And The Dove” privilegia a prestação dos intérpretes ao nível das vocalizações.
“Last Ride of The Day” é uma incursão pelos terrenos mais familiares da banda com abundância de filigranas instrumentais e até alguns rendilhados ao nível dos solos.

Quando o álbum caminha para o final, surge a grandíloqua ”Song of Myself”, onde, após uma viagem segura pelo registo mais familiar, os NIGHTWISH cerram os dentes para enveredarem pelo momento de maior fôlego do álbum. No entanto, apesar do belo trabalho de composição e da exaltação lírica, a banda não parece talhada para este tipo de canção.
O álbum encerra com o tema homónimo “Imaginaerum” que pela sua dimensão orquestral se assemelha às músicas que acompanham o desfilar dos créditos finais durante os genéricos dos filmes, facto que não deixará de lançar nexos com o trabalho de Stobe Harju.

As expectativas quando nos preparamos para saborear um novo álbum de NIGHTWISH são semelhantes àquelas que antecedem a degustação de um bom vinho do porto vintage. Já todos conhecemos o seu sabor e tonalidade genéricos, no entanto, há sempre novos matizes para descobrir. “Imaginaerum” é fruto de uma boa colheita e oferece momentos de prazer intenso ao nosso palato musical, mas, na verdade, não esperávamos outra coisa de uma banda desta magnitude, daí que no final cresça em nós a sensação de que este vintage podia ser ainda melhor…

Texto por Rui Carneiro