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Alcest – Les Voyages De L’Âme

Se há sonoridades com as quais de imediato criamos uma empatia profunda e teleológica, ALCEST é o paradigma dessa relação sensual e inebriante que estabelecemos com a música. Como se pode ler no sítio da banda na internet, ALCEST é “música oriunda de outro mundo, um mundo que é real, mas que existe para lá do nosso e não pode ser alcançado através dos nossos sentidos”, numa alusão que não deixa de criar vasos comunicantes com a alegoria platónica.

Em 2007, Neige cativou a atenção do universo melómano com “Souvenirs D’un Autre Monde”, o primeiro longa duração de ALCEST. A beleza cristalina das composições e as filigranas líricas da banda resultaram numa receção entusiástica do álbum e num extenso rol de louvores, porque, na verdade, não seria comum um projeto com uma matriz black metal ostentar uma aura melódica tão sublime.

Esta vocação experimental e avant-garde acabou por levar a que muitos inscrevessem a banda nos cânones do “blackgaze” (apesar das condicionantes que tal rotulagem acarreta, nomeadamente pela ligação à vertente “shoegaze”). Depois de, “Écailles de Lune” (2010), o dealbar de 2012 oferece-nos este “Les Voyages De L’Âme” e novamente o nosso córtex cerebral ilumina-se numa explosão de sinapses que se projetam libidinosamente no hipotálamo, convocando sensações extáticas de prazer.

Atravessar o pórtico “Les Voyages De L’Âme” é, de facto, algo semelhante ao primeiro passo de uma viagem introspetiva da alma. O single “Autre Temps”, composição etérea, feérica e outonal, abre melancolicamente as portas do álbum, seduzindo-nos com a sua complexidade melódica. A beleza é, na verdade, a nota principal, visto que cada nota desperta densas ondas de volúpia, quer seja oriunda das guitarras lancinantes, quer do baixo convulsionado ou mesmo da voz que comunga do poder demiúrgico de Orfeu. “Autre Temps” é uma elegia de outono que explora o tema da finitude, da efemeridade do “Eu” na sua relação inverosímil com o eterno retorno das estações e consequente renovação da natureza.

Apesar de embalado pela mesma sonoridade sorumbática, o álbum evolui em “crescendo” e “La Ou Naissent Les Coulers Nouvelles” assume-se como uma longa balada em que pela primeira vez escutamos um desvio do registo limpo da voz com alguns growls cavernosos a pairarem sobre um oceano de melodia. “Les Voyages De L’Âme” é também um tema de amplo espectro e longo fôlego, espraiando-se lânguidamente no tempo e arrastando-nos ao longo de uma espiral em paradoxo que nos conduz pelos corredores cavernosos da introspeção.

“Nous sommes l’emeraude” contrasta com os temas anteriores pela menor duração, mas mantém a mesma toada melódica. “Beings Of Light” é um dos temas mais inquietantes e supreendentes, dado que começa etéreo e atmosférico, criando um ambiente de fantasia élfica, para, subitamente desencadear uma reviravolta elétrica, e de insistência quase catatónica, mantendo-se o tema sempre numa intensa tensão dramática que se prolonga no tempo e apenas decresce no final.

“Faiseurs De Mondes” é um dos melhores temas do álbum, uma vez que depois de alguns lampejos black metal em momentos anteriores, ganha agora protagonismo a violência e ferocidade cavernosa do growl, sobrepondo-se à delicadeza diáfana da música. Há ainda tempo para uma sequência melódica que se desenvolve através de uma incursão no registo acústico, até que a virulência elétrica se volta a instalar, sendo de exaltar o excelente trabalho de percussão no final.

Depois de um breve interlúdio atmosférico com “Havens”, chegamos a “Summer’s Glory”, completando-se assim o conceito de eterno retorno, expresso no tema inicial. Depois da morte outonal, e findo o círculo das estações, regressámos à glória estival do verão, facto que nos leva a conceber o álbum como um ouroboros musical. “Les Voyages De L’Âme” baseia-se nas experiências e memórias de Neige que se concretizam através de um processo que parece similar ao das sibilas do oráculo de Delfos e que nos conduz por diversos níveis de consciência numa espécie de transe mediúnico.

Assim sendo, e apesar de estarmos ainda no início do ano, este é um álbum que certamente deixará a sua marca no que diz respeito aos novos caminhos do metal e da música de cunho mais experimental que encontraremos ao longo de 2012.

Análise de Rui Carneiro