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Alcest – Shelter

O universo de Neige e dos seus Alcest é, atualmente, um dos mais fascinantes no seio da música avant-garde. De facto, raramente na história musical uma banda passou por um processo evolutivo e metamórfico tão surpreendente como aquele protagonizado por estes franceses. Do Black Metal (de inspiração Folk) matricial de Tristesse Hivernale ou Le Secret, passando pelo experimentalismo de Écailles de Lune e pelo exponencial Les Voyages de l’Âme, chegamos a este Shelter e às suas sonoridades sonoridades atmosféricas e oníricas. As raízes mais profundas de tal transmutação encontram ecos, por exemplo, no húmus negro de Burzum, o projecto de Varg Vikernes, até porque ambas as sonoridades partilham essa predilecção pelo transcendental e pelo onírico. No entanto, Shelter segue pelos meandros mais avant-garde do post-rock e exibe uma luminosidade apolínea que é alheia ao trabalho de Vikernes. De realçar que essa vocação é potenciada pela produção de Birgir Jón Birgisson, que também trabalhou com os Sigur Rós.

De facto, esse carácter apolíneo iridescente de Shelter é a pedra de toque do álbum, até porque ele marca a ruptura total dos Alcest com as suas origens mais saturnianas e melancólicas. Depois da catarse de Les Voyages de l’Âme, a vocação demiúrgica de Neige inspirou-se num universo de fantasia onde as sombras não têm lugar. Ainda que uma névoa ocasional possa cobrir de mistério alguma composição musical, é sem dúvida o poder ofuscante e inebriante do sol que resplandece neste novo disco dos franceses.

A voz dessa nova aurora musical surge espelhada na abertura com “Wings”, verdadeiro hino bucólico, primaveril. O single “Opale”, que tem encantado audiências oriundas das fronteiras musicais mais diversas, chega em seguida, convertendo a música dos Alcest numa verdadeira liturgia solar, verticalmente estruturada e com inúmeras camadas justapostas.
“La Nuit Marche Avec Moi” continua a colocar o ênfase numa certa aura “dream pop” resultante da natureza delicodoce dos vocais e das melífluas estruturas musicais ao nível das guitarras.

A neblina parece ainda cobrir as planícies solares dos Alcest em momentos mais contidos e sorumbáticos como “Voix Sereines”, mas não há aqui nada de espectral ou tenebroso, ainda que o nível de distorção e intensidade das guitarras ganhe aqui outros contornos.

Depois do devaneio atmosférico em “L’Eveil Des Muses”, surge o mais electrizante tema título “Shelter”.

A admiração de Neige pela música dos Slowdive resulta na participação do vocalista Neil Halstead em “Away”, sendo que há que realçar o facto de a música não resultar num mero pastiche da banda inglesa.

O momento mais complexo em termos estruturais, fica reservado para o longo e belíssimo epílogo “Délivrance”, sendo que a voz feérica de Billie Lindahl, dos Promise and the Monster, realça a dimensão frágil, delicada e feminina de um universo musical que, apesar de até aí contar apenas com elementos masculinos, há muito manifestara alguma predilecção pelo equilíbrio entre ambos os princípios.

No novo Shelter, que será lançado a 17 de janeiro via Prophecy Productions, os Alcest rasgam definitivamente a pele e abandonam a fórmula de sucesso que lhes granjeara ovações com Les Voyages de L’Âme, ou seja, a fusão de metal com ambiências sonoras oníricas e algum “shoegazing” é definitivamente extirpada da vertente metal para dar lugar a algo verdadeiramente novo e singular na discografia da banda. E isso é evidente logo na capa do álbum que exibe uma estética radicalmente diferente daquilo que era convencional aos Alcest. As mãos de Neige rodeiam a luz do disco solar e remetem para uma simbologia estival.

Assim, Shelter é um porto de abrigo para todos aqueles que navegam nos oceanos musicais e, ainda que alguns lamentem a ausência de referências metal, não deixa de ser um prazer inigualável, ocasionalmente, relaxar ao sabor da bonança que sucede à tempestade.

Análise de Rui Carneiro