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Alice [Setembro 2014]

Os Alice divulgaram recentemente o vídeo para “Diabo na Mão”, sendo que tinham anteriormente sido alvo de destaque aqui nestas páginas com o álbum de estreia a receber avaliações muito positivas. Entretanto convidamos o guitarrista Guilherme Baptista para uma conversa acerca da banda e da sua música:

Antes de mais, obrigado em nome da Rock N’ Heavy pela entrevista concedida; o vosso álbum de estreia, Discórdia, tem sido merecedor de todos os elogios (mereceu uma distinção de 9/10 na nossa redacção), já havendo quem vos apelide de “nova esperança do rock alternativo nacional”, o que pensam deste sucesso? Quão inesperado foi?

Foi inesperado até certo ponto. Apesar de a música ter sido feita por nós, conseguimos sempre ter tido uma opinião objectiva acerca daquilo que escrevemos. Dessa forma já tínhamos uma ideia de que a nossa música tinha potencial para agradar a algumas pessoas, especialmente tendo em conta que temos vários amigos que nos têm apoiado desde que começámos a banda no início de 2013. No entanto, não podíamos nunca adivinhar que o álbum tivesse uma recepção tão positiva na imprensa nem que tanta gente se identificasse connosco. Tem sido fantástico.

Lançaram recentemente um vídeo para “Diabo na Mão”, uma das faixas mais aceleradas do álbum, houve alguma razão para escolherem esta faixa como single seguinte?

Desde que começámos a escrever o álbum que temos a ideia de fazer alguma coisa especial com o “Diabo Na Mão”, no entanto nunca soubemos bem o quê até o Bernardo [Neves, vocalista] ter sugerido que usássemos o “Diabo” para um vídeo ao vivo. Assim decidimos utilizar as filmagens do primeiro concerto para promover o “Diabo” como segundo single. Este vídeo vem também anteceder a tour que estamos a preparar para promoção do álbum por vários pontos do país. É quase um misto entre campanha de single e apresentação da Tour que apresentaremos em breve.

Falando de outra música de Discórdia, “Gato Morto” já é a vossa canção mais icónica, sendo uma faixa brincalhonha e dançável, contrastando bastante com a anteriormente referida “Diabo na Mão”, por exemplo; como balançam estas duas facetas da banda?

Sempre acreditámos desde o início que não devíamos nunca restringir-nos apenas a um registo musical. Apesar de nos auto-designar-mos como uma banda de Rock, gostamos de poder abordar ambientes e “feelings” diferentes naquilo que escrevemos. As músicas saem como saem e posteriormente no processo de produção tentamos sempre servir as músicas e nunca o “estilo” da banda. Assim sendo podemos acabar com um tema mais forte como o “Diabo Na Mão” ou com um “jingle” gingão como o “Gato Morto”. Claro que temos os nossos limites e procuramos sempre ser coerentes na música que lançamos enquanto Alice.

Ainda relativo a esta música, ela tem tido um sucesso massivo nas redes sociais; são da opinião que é aí que se mede o verdadeiro sucesso de uma faixa ou de uma banda, numa altura em que a indústria musical parece mais em crise que nunca?

De facto, as redes sociais ajudam-nos a medir com bastante clareza a aceitação de determinado artista ou música. Mas nem tudo é preto no branco. Há músicas que podem resultar muito bem num videoclip e serem um fiasco ao vivo, ou o contrário! As redes sociais dão-nos uma boa ideia do que as pessoas pensam de determinado fenómeno musical, dão-nos uma perspectiva da dimensão social de um artista/banda. No entanto essa perspectiva pode levar em erro. Se avaliarmos por exemplo a página de Facebook de artistas do panorama nacional que já não estão no activo há alguns anos, podemos ficar com a ideia de que estes artistas não existem para as pessoas. No entanto, muitos deles estão marcados nas memórias de gerações inteiras. As redes sociais são plataformas muito recentes que ainda nem todos utilizam nem todos sabem utilizar. São essenciais para promover um projecto mas são também falíveis.

Ao ouvirmos Discórdia, há bastantes nomes que parecem saltar à mente, desde Ornatos Violeta a Rui Veloso, por isso parece apropriado perguntar-vos quais as vossas maiores influências?

É complicado falar de influências no “Discórdia”. Foi um álbum escrito principalmente pelo Diogo [Borges, guitarrista] e pelo Afonso [Alves, vocalista]. Assim sendo, as músicas foram aparecendo mediante as influências que eles carregavam na altura, mas as músicas foram depois todas produzidas por mim [Guilherme, guitarrista] em cooperação com o resto da banda e com o engenheiro de som que gravou o disco (Wilson Silva dos More Than A Thousand). Sendo que eu carrego influências musicais bastantes diferentes do Afonso e do Diogo, as músicas acabaram por convergir naturalmente sem que existisse uma influência principal. Mas sim, em termos categóricos embora abstractos, Ornatos Violeta ou Linda Martini são bandas que nos acompanham no dia-a-dia e que ajudaram a refinar o som deste disco. Em trabalhos futuros provavelmente teremos um leque de influências mais coerente e mais carregado.

A componente lírica parece ter muita importância no vosso trabalho, com letras cuidadosas e bastante narrativas, têm a preocupação em criar um universo de histórias para as vossas músicas, ou é algo que acontece naturalmente?

Sim, temos sempre a preocupação. Tudo o que apresentamos passa sempre por um filtro de qualidade feito por nós mesmos. Pouco do que fazemos é aleatório, embora muitas das coisas sejam naturais. As letras são maioritariamente uma preocupação tida pelo Afonso e pelo Diogo que são os nossos letristas principais, apesar de todos termos um pouco de nós em cada letra. As letras do “Discórdia” foram escritas por eles os dois, mas o universo que criámos para o disco foi algo que criámos em conjunto. É um trabalho que exige refinar as letras, refinar as próprias músicas e procurar uma coerência geral num disco. Penso que com o “Discórdia” conseguimos criar um universo coerente embora pouco explícito. Para o futuro estamos a planear criar universos mais conceptuais, temos o intuito de criar histórias e universos mais claros para o ouvinte que girem em torno de assuntos explícitos. Um trunfo deixado ao abandono após o desvanecimento do Rock Progressivo.

Isto ainda fica mais evidente pelo facto de cantarem em português, uma língua bastante lírica; alguma vez experimentaram em inglês ou nunca puseram isso em questão?

Todos nós viemos de projectos anteriores cantados em Inglês. É algo que podemos assegurar que não acontecerá com os Alice. Os Alice têm o Português como pilar de suporte principal. Alice em inglês não faria o menor sentido. Até porque um dos nossos objectivos enquanto banda é de facto contribuir para que a nossa língua seja mais bem vista pelos jovens enquanto uma língua legítima para cantar.

Já começaram a pensar no sucessor de Discórdia? Depois de um álbum tão bem recebido, devem ter alguma pressão e decerto quererão surpreender mais uma vez, já podem revelar algo do que podemos esperar?

Sim, o próximo álbum já está a ser planeado. Estamos ainda a apurar o conceito musical que queremos para o disco, a única coisa que podemos assegurar é que o disco dificilmente será a confirmação da musicalidade dos Alice. Talvez seja ainda menos coerente que o “Discórdia” em termos de discrepância estilística entre músicas ou por outro lado pode vir a ser um disco mais uniforme. Já temos uma vasta produção de músicas, no entanto queremos levar o processo com calma, promover o “Discórdia” como deve ser e começar o próximo capítulo quando chegar o momento adequado.

E em relação a concertos, onde podemos apanhar os Alice ao vivo nos próximos tempos? E o que podemos esperar de um concerto vosso?

Estamos agora a terminar o planeamento da primeira tour do “Discórdia”. Já temos várias datas confirmadas pelo país mas só as poderemos apresentar assim que confirmemos todas, estipulamos que a tour decorra durante o mês de Novembro, mas ainda nada é oficial. Teremos algumas bandas a tocar connosco nos vários concertos e será uma tour razoavelmente pequena. Quanto aos concertos, podem esperar energia, principalmente energia positiva. Gostamos de fazer a festa com quem nos acompanha e não apenas tocar para quem “lá está”. Um concerto tem de ser feito em conjunto e não da banda para as pessoas. Pelo menos esta é a nossa perspectiva.

Finalmente, há alguma mensagem que queiram deixar para os vossos fãs que acompanham a Rock N’ Heavy?

Obrigado por estarem connosco, vamos começar a tocar por aí portanto fiquem atentos e venham aos concertos. Continuem a apoiar a música nacional, se não formos nós a fazê-lo, ninguém o fará. E um muito obrigado à Rock N’ Heavy por mais uma vez nos receber.

Entrevista por Jorge Martins