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Análise | Alice – Discórdia

Alice, o nome é português, mas também universal, e a banda lisboeta é reflexo do antropónimo que ostenta, porque este Rock debitado na língua de Camões é também ele luso e universal. No entanto, o causticante disco de estreia, Discórdia, não é apenas mais um no panteão do Rock nacional, mas, como o título indicia, é sim um iconoclasta grito de revolta e ruptura face aos lugares comuns do género em Portugal.

Discórdia apresenta uma assinalável coesão estrutural e os temas conjugam-se e sucedem-se de forma harmoniosa e cerebral. Os índices melódicos encontram-se num patamar elevado e denotam um avançado estado de maturação da música dos Alice.

O sucesso do single “Gato Morto” nas redes sociais é apenas o prenúncio de um universo musical extremamente rico e certamente com muito para dar nesta nova vaga de vanguarda do Rock nacional, até porque os Alice integram uma nova geração de músicos que procuram instilar uma nova vida no género.

A premissa é simples: “Humilde, aceso o canto/ Parcas as palavras/ Não rezam a história/ A discórdia pendente/ Eu quis ser mais sol que luz/ Eu quis ver mas tu também” e é através deste desejo intangível pela essência que jaz sob o véu da aparência que perscrutamos como Alice ‘do outro lado do espelho’ a verdade ôntica e subliminar de uma musicalidade que promete – do húmus à seiva, das flores aos frutos – deixar marcas inolvidáveis na história polifónica do Rock. Com estas palavras epigramáticas, e “à capela”, começa “Discórdia”. A partir daqui, o poder demiúrgico da poesia combinado com um lirismo envolvente e uma musicalidade orgânica serão uma constante ao longo de todo o álbum.

O tema título “Discórdia” é uma diatribe cardíaca, palpitante, que oscila entre rasgos de intensidade e um fulgor melódico perene. A voz de Bernardo Neves está por todo o lado, doce e sibilina, eloquente e raivosa, em resumo, contagiante!

A visceralidade Rock ganha novo ímpeto com “Diabo na Mão”, a banda carrega no pedal e a o ritmo torna-se mais célere, eloquente e pleno de distorção. Um tema mais directo e objectivo que nos mostra uma faceta menos lírica e mais puramente Rock dos Alice. Para ouvir com o volume no máximo!

Quase “in media res” a icónica “Gato Morto” dispensa apresentações com o seu refrão indefectível e cativante refrão. A produção exemplar coloca a tónica na voz, mas não esquece o belo trabalho da secção rítmica e o brilhantismo das guitarras. Sem tirar, escutamos “Império Intendente” que continua a explorar o mesmo filão lírico e melódico, mas com ressonãncias ainda mais blues e experimentais, facto exacerbado pelo recurso inspirado ao som da harmónica. O Rock volta puro e duro para “O Corpo” e os nexos semânticos e líricos comunicam directamente com “Diabo na Mão”. Discórdia é assim mesmo, uma entidade orgânica percorrida por vasos intercomunicantes e polifónicos que se entrelaçam para criar algo maior que a soma das suas partes.

O epílogo com “Homem Nobre” fecha o álbum com chave de ouro. Um tema de surpreendente e inesperada fusão com vocais Hip Hop. Um misto delicodoce de intensidade e melodia. Uma miscigenação que abre os horizontes da banda e que nos deixa extaticamente ansiosos por conhecer o rumo que os Alice deverão seguir no próximo álbum, porque, verdade seja dita, a única censura que podemos divisar em Discórdia é este mágico, mas escasso, número sete! Sete temas que nos deixam a salivar por mais, porque Alice é sinónimo daquilo que se espera do Rock de vanguarda.

Análise de Rui Carneiro