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Anathema – Weather Systems

Depois de diversas passagens por terras lusas, a banda de Liverpool regressa, brevemente, aos palcos nacionais para dois concertos que prometem ser memoráveis.

A promotora Prime Artists traz os Anathema à sala 1 do Hard Club, no Porto, no dia 19 e no dia seguinte ao palco do Paradise Garage, em Lisboa.

Weather Systems” é o nono álbum na discografia dos Anathema, sendo que a banda inglesa continua a apostar na fórmula avant-garde de “We’re Here Because We’re Here” (2010). Com efeito, estamos a anos-luz da matriz death/doom da banda e deambulamos por paisagens atmosféricas que conduzem a classificações que têm
como denominador comum os conceitos de inovação e experimentalismo.

O novo de Anathema é um trabalho que poderá agradar a gregos e a troianos, visto que é, até ao momento, o trabalho mais arquetípico da banda. Os fundamentos lançados em “We’re Here Because We’re Here” são agora de tal forma aprimorados que as canções parecem brotar de um manancial de criatividade holística. Na verdade,
qualquer ouvinte encontrará em “Weather Systems” algum aspeto capaz de incutir um “pathos”, ou seja, o mais elevado grau dos afetos, uma experiência feita de paixão ou comoção.

A elegia inicial de “Weather Systems”, “Untouchable part 1/part 2”, inscreve-se seguramente nessa dimensão metafísica do “pathos”, sendo que as raízes que agora se estratificam e brotam em múltiplas corolas iridescentes, encontram-se profundamente incrustadas no húmus fértil do álbum anterior. O lirismo diáfano e etéreo de “Untouchable part 1” é profundamente expressivo e cativa-nos com a gradação crescente da tensão emotiva transmitida pela guitarra. “Untouchable Part 2” quebra essa intensidade e suaviza abruptamente o caudal rítmico, enfatizando a cambiante melódica através do protagonismo dado aos teclados que, ao mesmo
tempo, coloca a voz em primeiro plano.

Acusticamente sedutora, “The Gathering Of The Clouds”, coloca o foco nas múltiplas vozes que parecem ecoar ao longo da estrutura melódica da canção, sendo de relevar a base sinfónica e orquestral do tema. Aspeto que marca a transição ininterrupta para “Lightning Song” através da utilização reiterada dos acordes cíclicos da guitarra,
seguindo-se o som de violinos que acompanha as vocalizações feéricas e cristalinas, até ao momento em que as cordas clássicas se digladiam com a eletricidade coruscante das guitarras.

Depois da tempestade vem a bonança e na organização conceptual e estratosférica do álbum, “Sunlight” define o zénite da dimensão apolínea e apoteótica de “Weather Systems”, porque, em seguida, a musicalidade plúmbea e faiscante de “The Storm Before The Calm” abate-se sobre os nossos tímpanos como se fóssemos martelados
com o Mjölnir asgardiano. Momento intensamente experimental que evolui ao ritmo de uma tempestade. Sendo a canção de maior fôlego de “Weather Systems”, “The Storm Before The Calm” apresenta-se como uma opus de rock sinfónico que eleva Anathema aos píncaros do género, combinando tensão dramática com dinâmicas eletrónicas, sendo apenas de apontar o fato de o tema se desenvolver no sentido mais convencional.

“The Beginning and the End” assume uma postura menos iconoclasta que o tema anterior, inscrevendo-se na linha mais heavy e sinfónica de Anathema, momento em que verdadeiramente irrompem os solos dilacerantes e angustiados das guitarras.

“The lost Child” é uma inflexão no sentido mais introspetivo, sorumbático e espetral da banda, delineando caminhos de virtuosismo lírico na sua beleza singela e minimalista. A mesma ambiência surge em “Internal Landscapes”. O tema começa num registo spoken word, relatando-se uma experiência limite: “It was then that I experienced… experienced what we call a near death experience, for me there was nothing near about it, it was there.” Assim, os temas que compõem o epílogo afiguram-se como os mais negros do álbum.

“Weather Systems” conquista assim um lugar insigne no panteão dos melhores álbuns de 2012. Como aspeto menos positivo poderíamos talvez apontar a insistente reiteração do esquema estrutural das canções, no entanto, isso é provavelmente intencional, porque a sonoridade de Anathema parece procurar uma expiação cíclica e catártica das emoções.

Texto por Rui Carneiro