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And So I Watch You From Afar – Heirs

Os irlandeses And So I Watch You From Afar (ASIWYFA) têm vivido com a ‘cruz’ de serem uma das mais entusiasmantes bandas de ver ao vivo, com os seus espectáculos intensos e caóticos de explosões sonoras sucessivas e paredes de som arrebatadoras, porque se encontram sempre sob o estigma de não conseguirem emular esse sentimento de concerto impossível de ‘engarrafar’ para estúdio.

No primeiro álbum homónimo e no seu sucessor Gangs construíram alguns dos riffs mais entusiasmantes do Post-Rock devido às suas influências entre o Mathcore e a sujidade do Grunge que lhes dava uma sonoridade típica e uma técnica muito superior à dos seus pares do Post-Rock, género que cedo se revelou muito redutor para incluir os ASIWYFA.

No entanto, depois da saída do membro fundador Tony Wright a banda pareceu perder o rumo no mediano All Hail Bright Futures de 2013, que embora tenha dado à banda alguns clássicos para o seu reportório ao vivo, foi demasiado caótico e desnorteado para ser um bom álbum, algo que o conjunto tenta corrigir no novo Heirs.

Antes de mais, os vocais de grupo estão de volta, algo que dividiu os fãs no último CD, mas sem grande razão, pois permitem aumentar o impacto emocional das músicas sem perder o toque clássico da banda, como no build up da colossal “Wasps” ou nos coros certeiros da divertidamente acelerada “People Not Sleeping”, que não será estranha aos fãs nacionais de Linda Martini.

O facto de serem talvez a banda mais dotada tecnicamente do seu género (se não contarmos com Animals as Leaders, que já se enquadram mais no Post Metal) porém coloca os ASIWYFA na posição desconfortável do auto-elogio, criando músicas vazias em que o piloto automático dita as regras com solo atrás de solo de shredding sem emoção e vítima do virtuosismo dos músicos excessivamente demonstrado, como na monótona “Run Home” que abre o disco de forma desapontante, ou na excessivamente longa faixa-título, que só se desenvolve de forma interessante no último terço.

Apesar disto, é impossível não ser contagiado pelo optimismo dos irlandeses (sempre muito adeptos de acordes maiores ou ‘alegres’), que quando se investem conseguem criar momentos inesquecíveis como a pegajosa “These Secret Kings I Know”, que além de conter o mais que a banda já cantou numa faixa é garantido de deixar qualquer ouvinte a cantarolar os seus versos catchy e riffs “Punkalhados” que relembram os quase defuntos Maybeshewill, sendo de destacar também a beleza desarmante da lindíssima “A Beacon, A Compass, An Anchor” que demonstra que, além de construírem melodias monstruosas, os ASIWYFA são também capazes de criar momentos de grande intimidade pontuados por explosões catárticas.

Desta forma, Heirs marca a continuação da expansão sonora da banda para territórios mais focados e incisivos, revelando-se uma melhoria considerável em relação ao seu predecessor, que só peca por ocorrer várias vezes em momentos de auto-elogio que retiram a chama e paixão dos primeiros álbuns a uma banda que ainda deslumbra quando sai do modo mecanizado.