free website stats program

Ashes – Ecila

Ainda que os Ashes permaneçam na obscuridade do underground nacional, há, neste projeto oriundo de Tomar, uma indubitável qualidade que deve ser reconhecida e devidamente apreciada, até porque a banda conta com cerca de catorze anos de existência, mas havia apenas editado o EP homónimo datado de 2007.

Quanto aos aspetos mais técnicos, refira-se que “Ecila” foi gravado e misturado por Pedro Carvalho no Zero Estúdio e masterizado por Graham Goldman nos estúdios da Masterdisk, sendo o artwork da responsabilidade de Jaime Veloso.

A inspiração para “Ecila” (anagrama de ‘Alice’) emana da fantasia burlesca do universo imaginado por Lewis Carroll (pseudónimo literário de Charles Lutwidge Dodgson) . Musicalmente, “Ecila” bebe diretamente do manancial heterogéneo do rock/metal alternativo, com referências death e tonalidades thrash ao nível das vocalizações.

De facto, os Ashes evoluíram de uma identidade rock matricial, conjugando uma diversidade de influências que, aproximando-os de sonoridades mais heavy, não permitem simplesmente catalogá-los “ipsis verbis” como metal.

Como referimos, estamos perante um álbum conceptual inspirado no mundo hermético, onírico e surreal de “Alice No País das Maravilhas”. No entanto, o hermetismo anagramático do título (e do tema de abertura) “Ecila” é uma referência oblíqua ao texto de Carroll, logo, a fantasia cromática e nefelibata será interpretada e reconfigurada pelos músicos, traduzindo-se numa reflexão de caráter existencial alimentanda por uma paleta mais misantrópica, sombria e tétrica que o original.

Impossível deixar de referir a forma como o vocalista, David Pais, parece fazer uma vénia a Maynard, dinamizando a sua interpretação entre registos limpos e guturais, oscilando entre melodia e distorção, e colocando a voz, por vezes, numa tonalidade semelhante ao que é apanágio de Maynard em Tool ou A Perfect Circle. Na verdade,
o potencial da voz de David Pais e a sua expressividade tímbrica é um dos aspectos mais sedutores na música dos Ashes.

“Hall Of Mirrors” afirma-se como uma composição heterogénea que oscila entre a diatribe virulenta e a elegia atmosférica. Preponderante para o efeito é o violino que se afirma, atualmente, como dínamo melódico pela forma como, ora complementa o trabalho do vocalista, quase como se tratasse de uma segunda voz, ora se assume
como solista, divagando através da tessitura sonora das guitarras.

A espectral, “The Kind Of Strange” abre em clima de fantasmagoria alucinada e terrífica, mas desenvolve-se na mesma toada melancólica e saturniana povoada por irrupções enérgicas e ríspidas que caracteriza o conceito de “Ecila”.

“Rewind” é um tema mais convencional e uniformemente pautado por uma sonoridade mais musculada, sendo de assinalar, novamente, o papel do violino enquanto elemento depurador da violência thrash das vocalizações e da intensidade da distorção.

“Queen Of Thy Black Hearts” continua na senda da subversão do “leitmotiv” presente na “Alice” de Carroll, visto que é pautada pela imagética das trevas. Apesar de inicialmente primar pela intensidade, o tema embarca, em seguida, numa toada sedutora e delicodoce, sendo que é de prestar especial atenção ao papel do baixo na
estrutura melódica.

O epílogo surge com a nebulosa e sorumbática “Redemption”, momento para a banda explorar, ocasionalmente, sonoridades mais experimentais.

Alice ou Ecila, a resposta mora do outro lado do espelho e para a encontrar, cada um de nós deve aventurar-se pela toca do coelho e retirar da experiência as suas conclusões únicas e originais. Os Ashes seguiram no encalço do coelho e simbolicamente exorcizaram, através desse “regressus ad uterum” (a travessia da toca), a doce e maviosa melancolia que compõe esta saturnália musical.