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Awaiting The Vultures [Julho de 2013]

Para os Awaiting the Vultures, a espera pelo lançamento do primeiro álbum aproxima-se do fim. Esta banda de Évora traz-nos uma sonoridade puramente instrumental, singular pelo recurso a três guitarras (Daniel Guerra, Pires e Xnif), além do baixo (Yoann) e da bateria (Xinês). A Rock n’ Heavy aproveitou a proximidade do lançamento do álbum para conhecer melhor esta banda marcada pelo metal progressivo, numa entrevista descontraída da qual resultou um diálogo entre todos os elementos da banda.

Como surgiram os Awaiting the Vultures?
Daniel: Awaiting surgiu mais ou menos em 2006, 2007. Eu tinha outra banda com o Xinês e o Xnif, e não era uma banda que ninguém gostasse particularmente, até que o Xinês sugeriu que nós fizéssemos uma super banda. Fizémos ensaios, com umas malhas que o Xnif tinha feito, e foi surgindo assim. O Pires ao início tocava baixo, nós os dois tocávamos guitarra e o Xinês tocava bateria.

Tem sido um trabalho contínuo ou existiram pausas?
Xinês: Houve algumas, principalmente por causa da vida das pessoas. Nós, enquanto pessoas, vamos sempre crescendo e aprendendo, e todos nós cometemos erros. Se calhar havia uns que levavam a música mais a sério do que outros, e daí haver sempre aqueles choques.

Daniel: Sim, era por sermos mais novos e por haver diferença de idades. Porque eu lembro que eu tinha 16 anos quando a banda começou, e vocês eram muito mais velhos… e eu lembro-me que a primeira chative que houve foi comigo, que eu não aparecia aos ensaios e tive que sair da banda, e justamente. Esse foi o primeiro atrito que tivémos.

Xinês: Houve algumas trocas de elementos… Tivémos um vocalista, inicialmente, mas entretanto ele também se foi embora e a partir desse dia nunca mais arranjámos um vocalista. Nós andámos à procura, durante anos e anos, e nunca achámos ninguém. Às vezes até havia malta interessada mas … não foi que aconteceu, pronto, e acabou por ser uma opção nossa. Felizmente agora esta formação, acaba por ser a formação inicial, tirando o Yoann.

Daniel: Tu (Pires) também saíste da banda, como é que isso foi?

Xinês: Fartou-se de tocar baixo e depois disse “Já não quero mais! Vou me embora”, e foi assim.

Daniel: Depois a banda voltou com nós os 4, entretanto acho que nós sempre nos fomos dando bem com o Pires, e decidimos que ele era um elemento importante para a banda e depois acabámos por convidá-lo e por experimentar com três guitarristas.

Yoann: Pensámos “em vez de ter um vocalista vamos meter mais uma melodia de guitarra”…

Ainda pensam em procurar um vocalista?
Xinês: Acho que nós nunca chegámos a uma concordância de “Não, agora temos de arranjar um vocalista”.

Xnif: Ia ser forçado.

Xinês: Pois, acabava por ser um pouco forçado sim e como estamos mais ligados á parte instrumental, e temos aquele feelling mais dark. Acabou por ficar assim também para realçar a melodia.

Daniel: Construíamos as malhas nunca pensando num vocalista. Se depois viesse um vocalista a gente era capaz de acrescentar qualquer coisa, mas nós já não contávamos com isso. Havia sempre uma guitarra que fazia uma voz mais aguda, e que substituía um bocado a voz. Depois pensámos que não valia a pena, que as músicas se ouviam muito bem assim e que até se podia perder alguma coisa se estivesse lá um vocalista.

Porquê Awaiting the Vultures?
Xnif: Durante não sei quanto tempo andámos só à procura de um nome. Eu fartei me de ver nomes e depois vi aquele, e porque não? Decidi dizer-lhes… “é fixe e tal”, nem pensámos muito no nome.

Daniel: Nós também não temos letras, não temos vocalista….

Xinês: Aliás, nós não temos nomes de músicas!

Porque é que não têm nomes para as músicas?
Yoann: É o vocalista a fazer as letras e os nomes das músicas. E como não temos… Acho que os nomes às vezes são forçados. Ou então poderão ter a ver com alguma emoção que desperte a música.

Daniel: Como não há letra, não há propriamente uma mensagem verbal que a gente queira passar. Fazemos a música pela música, porque soa bem, porque nos faz sentir bem, porque nos dá aquela pica e portanto transmitir aquilo em palavras não é muito fácil… Não é muito fácil arranjarmos nome para uma coisa que não tem nome.

Disseram que não têm uma mensagem verbal para ser transmitida, mas devem ter alguma mensagem que querem transmitir, algum objetivo que pretendem alcançar com a vossa música…
Daniel: Isso é como qualquer produção artística, nós queremos sempre transmitir qualquer coisa porque queremos sempre sentir qualquer coisa. Nós queremos transmitir e nós queremos sentir. Tivémos montes de tempo a tocar só nós nos ensaios e aquilo até nos deixava mais ou menos satisfeitos. Estavamos nós a tocar, estavamos nós a sentir, estavamos nós a curtir…

Xinês: A primeira coisa que um músico faz, pelo menos um músico como nós, é agradar-se a si mesmo. Queremos fazer música porque nós gostamos daquilo que fazemos. Hoje em dia há milhões de bandas com estilos diferentes e esta é uma banda que se guia por um sentimento diferente, é mais… eu não te sei explicar bem, na verdade, mas acho que o prioritário é a gente fazer as coisas e a gente gostar do que faz.

Daniel: As nossas músicas… é um bocado estúpido estar a por neste tom, mas são tipo, tristes. Não são músicas propriamente alegres, mas também não são músicas que eu ache depressivas, porque têm algum ritmo. E depois temos tipo um bocadinho mais raiva, um bocadinho mais peso, é mais acelerado.

Xinês: Eu penso que é uma mistura de saudade com alegria ao mesmo tempo, tipo isto é tão bom e está tão longe.

Yoann: É saudosismo, somos muito latinos.

Daniel: Mas isso de ele estar a dizer que está tão longe é um bocado engraçado porque as partes que sinto mais nas nossas músicas são as partes do fim. Há uma construção que leva até lá… tocar aquelas partes logo no início não fazia sentido nenhum, portanto tem de se chegar até lá.

Yoann: É progressivo, é progressivo. Aqui não se corre para o refrão. Não fazemos os riffs para chegar a um refrão e depois repetir. Não, é mais deixar fluir a própria música. O fim da música é o culminar de todo o percurso da música até lá.

Vão lançar um álbum para breve. É o primeiro?
Daniel: Sim, gravámos o álbum agora em Janeiro, Fevereiro com as últimas músicas que tínhamos feito, aquelas que tocamos com mais regularidade, as que gostamos mais. O álbum agora está a ser editado. Optámos por gravar logo o álbum porque as nossas malhas já têm alguns anos e achámos que não fazia sentido estar a mandar um EP cá para fora. A gente já está com vontade de começar a fazer malhas novas, já temos isto gravado, lança-se já o album, e que se lixe o EP.

Xinês: Acaba por ser um processo um bocado lento por causa das dificuldades financeiras e porque esta banda ainda não está inserida no meio underground, que é normalmente onde a malta se conhece. Já vão havendo pessoas a falar sobre isso, mas faz falta lançar algum trabalho. Eu, falo por mim, este era um álbum que eu sonhava gravar… Mandar isto cá para fora torna-me uma pessoa contente, fico bué feliz com isto.

Quais são os principais desafios que enfrentam enquanto banda?
Yoann: Financeiros, claro. A todos os níveis. Desde o nível pessoal ao colectivo… estamos sempre falidos. .. Nunca conhecemos outro modo! Tudo o que aqui se vai conseguindo ganha-se, aqui, com suor e sabe bem, é compensador conseguirmos as coisas.

Como acham que é visto o metal em Portugal?
Yoann: Olha, eu vejo como a maior tribo de amor à camisola que há. Porque é mesmo por gosto. O pessoal que ouve metal é consumidor, mas o pessoal que organiza, que toca, que faz as coisas acontecer é amor à camisola. Não há um cheque que faça mover as coisas.

Xinês: Há união. A verdade é que, como nós estamos aqui metidos e temos de fazer das tripas coração porque gostamos disto, a união acaba por se gerar mais, pelo menos é essa a conclusão que eu tiro. A malta realmente apoia-se.

E pelo resto das pessoas, como acham que o metal é recebido?
Daniel: Acho que quem gosta, gosta. Quem não gosta, não gosta. Acho que o metal não é propriamente um estilo de música onde haja grande intercâmbio de pessoas vindas de outro género, por exempo, muito rara será uma pessoa que goste de reggae a sério e que vá a um concerto de metal, e se calhar o contrário também acontece. Essa é a impressão que eu tenho. Tenho aquela ideia que as pessoas que vão a um concerto de metal são aquelas pessoas, e é um grupo mais ou menos restrito.

Xinês: Uma coisa é certa, a nível geral o público português é brutal. Quando mandas abrir uma roda, abrem logo uma roda, ou quando mandas mochalhada, eles mocham. Eu já toquei em alguns sítios lá fora e a malta gosta mas, tipo, está ali só a abanar a cabeça. As pessoas latinas têm um sangue mais louco… o público português… quando gosta de metal aquilo é o caos.

Daniel: Sim, mas isso é tudo dentro do metal. Eu, por exemplo, a ideia que tenho é que se tu vais falar de metal a uma pessoa que não goste de metal, diz que aquilo é só gritaria, é um gajo a gritar e é barulho e, tipo, não há grande abertura nunca. Há sempre um grande estereótipo do barulho, de um gajo a gritar…

Yoann: A vomitar o jantar…
Também há sempre a ideia da carga negativa associada…

Xinês: Oh isso então!

Yoann: É o satã e isso…

Daniel: Sacrificar ovelhas…

Em termos de género, como é que vocês se auto definem?
Yoann: É uma pitada de progressivo, com post rock, com ambiente…

Daniel: Acho que é mais fácil definir se progressivo. Tem a ver com a estrutura da música, é uma coisa que vai progredindo, que não tem um refrão, um verso, que são músicas relativamente compridas, por isso pode-se dizer que é progressivo.

Xinês: Obviamente que já pensei algumas vezes nisso. Acho que a gente toca música. É verdade, tocamos música, tocamos metal… Música, pronto.

O que podemos esperar dos Awaiting de Vultures ao longo deste e do próximo ano?
Yoann: Músicas novas, concertos, álbum, talvez umas t-shirts novas… Muita coisa pode acontecer. Depende da agenda que a gente tiver e dos concertos que se marcarem.

Daniel: A gente agora quer é fazer malhas novas. Com estas paragens, sei lá, a gente tem estas malhas à 4, 5 anos e já nos apetece fazer músicas novas.

Xinês: É trabalhar, basicamente, é trabalhar. Fazer a bandar andar para a frente. Para a frente é que é caminho.