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Baroness – Yellow & Green

A paleta de cores utilizada nos “artefactos” musicais dos Baroness continua a evoluir no sentido de uma maior expressividade policromática. Esteticamente, o novo duplo trabalho – “Yellow & Green” – assemelha-se a uma caleidoscópica fusão entre o “cloisonnisme” alegórico de Paul Gauguin e o surrealismo visionário e psicadélico de Mati Klarwein – pintor que, inspirado pelas suas viagens pelo Tibete, Índia, África e América, se interessou pelo simbolismo, paisagens e divindades externos ao cânone ocidental, sendo que os seus quadros foram frequentemente utilizados nas capas dos discos mais progressivos da sua época (Ex. “Abraxas”, Santana, 1970).

Esta dimensão pictórica deve-se ao facto de John Dyer Baizley, o vocalista da banda, aliar, à vocação musical, um refinado talento para a ilustração, sendo responsável por criar toda a arte utilizada, quer nos álbuns, quer em todo o merchandising da banda. Baizley, com efeito, não deixa de salientar que encara os Baroness como um projeto artístico multifacetado, uma vez que letras, música e ilustrações são colocadas no mesmo patamar e encaradas como verdadeiros “artefactos”.

Com efeito, “Yellow & Green” é na sua globalidade conceptual semelhante ao deus dos dois rostos contrapostos – Jano – visto que há uma nítida ambivalência entre os dois discos, se “Yellow” faz, em certa medida, a ponte com o “Blue Record”, ainda que o ênfase na componente melódica seja agora maior do que no álbum de 2009; “Green” distancia-se do “Red Album” e do “Blue Record”, mas sem que aqui se possa adivinhar qualquer sistema relacional do tipo Inferno/Purgatório/Paraíso, porque “Green” representa uma nova dimensão completamente autónoma no universo dos Baroness.

I ATO – “Yellow”

Confrontados com um objeto artístico de elevado espectro metafórico e simbólico, uma consulta da obra de referência de J. Chevalier e A. Gheerbrant permite aclarar algumas das zonas de sombra em torno da tecitura conceptual do álbum; note-se o que nos dizem aqueles autores sobre a simbologia do amarelo: “Intenso, violento agudo à estridência, ou amplo e ofuscante como metal em fusão, o amarelo é a mais quente, expansiva, a mais ardente das cores, difícil de esvanecer, e que extravasa sempre os limites em que se pretende encerrá- la.” “Yellow” reúne todas essas qualidades, sendo, na verdade, o lado solar deste novo trabalho dos Baroness.

Como disse Kandinsky: “O amarelo tem uma tal tendência para o claro que não pode haver amarelo muito escuro”. Assim, depois do instrumental inicial, “Take My Bones Away” explode com toda a luminescência de uma supernova eletrizante. Ainda no início, a banda não receia elevar a fasquia ao mais alto nível de exigência e debita um verdadeiro hino heavy. A mesma toada frenética, agora com a secção rítmica a puxar dos galões, surge na voluptuosa “March To The Sea” com linhas gulosas de baixo a provocarem explosões de sinapses nos nossos lóbulos auditivos. A ligação umbilical com os primeiros trabalhos da banda começa a esvanecer quando ouvimos “Litle Things”; mas quando os acordes acústicos de “Twinkler” deflagram como efémeros pirilampos num horizonte de sombras, aí é que sentimos até à medula a evolução expressiva, emocional e musical da banda. “Cocainium” é uma viagem psicadélica que culmina com uma diatribe de distorção pautada pelo ritmo catatónico do baixo. Do tríptico musical que compõe o final de “Yellow”, destaca-se “Eula”, na verdade, se “Take My Bones Away” era a face de Jano que ainda olhava de soslaio para o passado, “Eula” é um piscar de olhos para o futuro. Juntas compõem os momentos mais sublimes de “Yellow”, sendo que o último tema explora de uma forma ainda mais arrebatadora o potencial lírico e o virtuosismo da banda. Melodicamente irresistível e subliminarmente sedutora, “Eula” deixa uma marca indelével nas zonas mais sensíveis do nosso hipotálamo.

II ATO – “Green”

“Equidistante do azul celeste e do vermelho infernal, ambos absolutos e inacessíveis, o verde, valor médio, mediador entre o calor e o frio, o alto e o baixo, é uma cor tranquilizante, refrescante, humana.”

O instrumental “Green Theme” é uma ode paradoxal que se movimenta com a natureza esquiva da cascavel, deambulando entre a ataraxia e o frenesim esquizofrénico. A vocação mais experimental de “Green” começa a adivinhar-se em “Board Up The House”, e na etérea e vaporosa “Mtns. (The Crown & Anchor)”. Quando entramos em “Foolsong”, as paisagens sonoras percorridas são extremamente diáfanas e estimulam áreas do nosso cérebro que não esperávamos que fossem tocadas por uma banda com a matriz heavy dos Baroness, no entanto, a exploração melódica das canções é tão profunda que se aproxima do evisceramento da tecitura emocional.

“O verde conserva um caráter estranho e complexo, que provém da sua polaridade dupla: o verde do rebento e o verde do mofo, a vida e a morte.”

O verde é “imagem das profundezas e do destino”, a melancólica “Collapse” inscreve-se na dimensão mais saturniana do verde. “Psalms Alive” traz a energia oculta e hermética da seiva que alimenta a verticalidade do verde, inscrevendo-se na dimensão mais apolínea e palpitante da vida, sendo que o pulsar cardíaco do baixo nos recorda precisamente essa circunstância vivificante.

“Stretchmarker” funciona como prelúdio instrumental para a tensão dramática instalada aquando da abertura de “The Line Between” e que extravasa numa profusão de distorção e teclados groovy, até que “If I Forget Thee, Lowcountry” encerra o álbum numa toada intimista e atmosférica. Com “Yellow & Green”, os Baroness criaram um objeto artístico singular e esteticamente complexo que apela a uma intervenção ativa de cada um de nós no processo criativo e na dimensão instaladora da arte. Com a sua polifonia, amplitude metafórica, composição alegórica e carga simbólica, este – “artefacto” – pode ser convertido, através na nossa própria ação transformadora, num verdadeiro objeto estético, algo que só acontece quando estamos perante uma sublime obra de arte.