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Bizarra Locomotiva + La Chanson Noire [RCA, Lisboa]

Foi grande a moldura humana – o concerto esgotou – a que se registou no último sábado no RCA, com muito convívio à porta entre diferentes gerações, já se trocava opiniões sobre o que se iria ouvir durante a noite. Um concerto de Bizarra Locomotiva é um evento já pouco usual nos últimos anos, por isso quando se junta o lançamento de um álbum é certa a peregrinação das almas bizarras.

Como ato de abertura foi convidado La Chanson Noire, projeto a solo da figura enigmática que é Charles Sangnoir, sempre atrás do seu piano e dotado de uma voz imponente, o músico deparou-se com um público que quase na sua totalidade desconhecia a sua existência.

Uma singela “Hollow Hills”, cover de Bauhaus, no início, ainda roubou um pouco as atenções para o palco, mas depois disso o público mostrou as suas preferências. Nem com uma brilhante “Fuck Me” dedicada à imprensa generalista, ou uma emocional “Food for the Worms”, fez muitas das centenas de pessoas presentes pararem com a conversa de café por um momento, foi algo que marcou pela negativa a primeira parte da noite.

A meio do concerto, Charles Sangnoir confessou ser um seguidor desde miúdo de Bizarra Locomotiva e antes de tocar “No Quarter”, um clássico dos Led Zeppelin, despiu o casaco e até ao final do concerto ostentou a sua tshirt da banda da noite com orgulho como o mesmo referiu. “O Bordel de Lucifer”, uma das suas músicas de marca, encerrou um emocionante e hipnotizante concerto que merecia um público com mente mais aberta em relação ao que se faz de bom por cá.

Perto da meia-noite chegou finalmente o momento de ouvir o muito aguardado “Mortuário”, a mais recente proposta dos Bizarra Locomotiva e sucessor do já velhinho “Álbum Negro”. Como se pode constatar, a locomotiva está bem oleada, 22 anos depois Rui Sidónio continua a figura eletrizante do costume quando soube a um palco.

Sobre as músicas do novo álbum, em palco parece que estão em casa. Tal como no álbum, “Na Febre de Ícaro” foi a música de abertura e a faixa-título do álbum até foi tocada uma segunda vez no final do concerto como prova de que a banda está orgulhosa com o resultado final. O concerto foi a celebração do novo e do velho, “Gatos do Asfalto” do longínquo ano de 1998 abriu o mote para o que ai vinha.

A meio da atuação veio o trio de luxo que pôs o RCA em êxtase: “Apêndices”, com Rui Sidónio a vir pela primeira vez para junto do público, 20 anos depois ainda é o hino que toca a gente berra o refrão com todo o ar que têm nos pulmões, “Egodescentralizado” é a malha para partir pescoços e para finalizar o momento veio “O Anjo Exilado”, mais uma vez com a ajuda de Fernando Ribeiro.

A genial – uma das muitas da banda – “Cavalo Alado” pavimentou o caminho para um trio recente de futuros hinos, “Na Ferida um Verme”, “Sudário de Escamas” e “Flauta do Leproso”, o público estava mais que rendido, a qualidade da Locomotiva é mais que reconhecida e aplaudida. Ainda ouve tempo para “O Escaravelho” e “Procissão dos Édipos” acabarem com as poucas forças que o publico ainda tinha.

Grande noite em que o RCA mostra mais uma vez ser uma das melhores salas da capital, La Chanson Noire um projeto que merece mais reconhecimento e Bizarra Locomotiva continua a força motora imparável com o seu rock industrial.

Texto: Marco António Pires | Fotografia: Marta Casal

Agradecimentos: Rastilho Records

Marco António Pires

Sou amante da música em geral com gostos mais virados para o metal, mas estou sempre disposto a ouvir coisas novas!