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Blut Aus Nord – 777 – Cosmosophy

Blut Aus Nord, um dos exemplos mais avant-garde da música heavy contemporânea, continua a conduzir-nos pelas paisagens sonoras surreais e nefelibatas arquitetadas por Vindsval e disseminadas via Debemur Morti Productions.

Oportunamente lançado no momento em que a instância solar do estio dá lugar ao ciclo de morte e decadência outonal, “777 – Cosmosophy”, terceiro capítulo da trilogia 777 (iniciada com 777 – Sect(s) a 28 de abril de 2011), continua a desbravar terrenos inexplorados no universo do metal, escapando a catalogações demasiado simplistas dada a sua natureza hermética, sendo que apenas se aceita a designação “Black Metal” não tanto pelas valências musicais, mas antes pela intenção subversiva e iconoclasta.

“Cosmosophy” inclui-se na trilogia “777”. Assim sendo, a sua matriz estrutural segue o esquema basilar instituído. Cada tema é designado como epitome (do grego “epitomé”; ἐπιτομή), ou seja, cada composição musical tem um carácter sincrético, funcionando como sinopse dos conceitos universais presentes na “opus”.

Abrindo com “Epitome XIV”, estes franceses continuam o trabalho de dissecação musical que os notabilizou. De facto, música dos Blut Aus Nord é pluridimensional e estratificada. Além dos aspetos mais transcendentes e metafísicos, a própria componente sensível (sonora) apresenta camadas sucessivas que se sobrepõem e obrigam o ouvinte a reiterar a audição dos temas.

De imediato notamos que neste “Cosmosophy” há uma evolução face aos trabalhos anteriores, na medida em que praticamente todo o conteúdo referencial foi liminarmente abandonado. Desenganem-se aqueles que esperam encontrar aqui a ferocidade escatológica do Black Metal. Na verdade, “Epitome XVII” é, atualmente, o expoente máximo de um longo processo de maturação na sonoridade da banda. Qualquer reminiscência Black Metal dá lugar a uma toada plena de groove e de fusão eletrónica. As paisagens sonoras vivem, não tanto do impacto explosivo produzido na esfera sensorial, mas sobretudo das ressonâncias quase subliminares que a música nos proporciona, até porque se prestarmos a devida atenção, cada audição de “Cosmosophy” desperta novas sensações, já que a música aqui não se impõe do exterior para o interior, ela impregna-se no nosso âmago, projetando-se à velocidade estonteante das sinapses através do nosso sistema límbico.

Em forma de epitome, podemos dizer que “Cosmosophy”, “Sect(s)” e “The Desanctification” são as três cabeças da Hidra “777”. Distintas entre elas, combinam-se e completam-se para formarem um todo que é paradoxalmente uno na sua diversidade. Não podemos afirmar que uma é melhor que a outra, dado que apesar de distintas partilham a mesma identidade matricial.

“777” é uma das “opus” incontornáveis de 2012 e este “Cosmosophy” é um bom exemplo da capacidade que os franceses Blut Aus Nord têm para se reinventarem a si próprios.

Análise de Rui Carneiro