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Bullet For My Valentine – Temper Temper

Imbuído do espírito da época, visto que se aproximava o dia dos namorados, preparava-me para ouvir o novo álbum de uma das bandas britânicas mais afamadas (e desdenhadas) da atualidade. Sobrevoando o golfo da Biscaia, a cerca de dez mil metros de altitude, sem grandes alternativas multimédia por perto e procurando alhear-me do vociferar dos motores do avião, coloco os auscultadores e começo a trabalhar nesta análise.

Camaleónicos desde sempre, os BFMV parecem sofrer crises de identidade a cada novo álbum, cruzando as barreiras do metalcore, para uma espécie de pastiche thrash e agora, em “Temper Temper”, denotando as primevas influências do hard rock de cariz vintage.

Logo a abrir, a banda aponta a shotgun de cano serrado duplo e dispara “Breaking Point” e “Truth Hurts”, mas falta chumbo na mistura e o disparo apenas produz o impacto inócuo da pólvora seca. O primeiro tema é paradigmático daquilo que nos reserva o resto do álbum: refrão meloso e orelhudo para os fãs entoarem ao vivo, a quase catatónica aridez dos motivos musicais e vazio lírico, os riffs redundantes e os ocasionais solos insípidos.

Minutos depois, os BFMV, ainda com os canos fumegantes, recarregam a arma com novo cartucho e tiram a folga ao gatilho para o primeiro single e tema título. Aposta mais mediática e comercial do álbum, “Temper Temper” oferece muita parra e pouca uva, já que a aposta vai no sentido de um incremento da agressividade, mas essa tentativa esbarra novamente no défice de emotividade e atitude que resulta do caráter imberbe da letra.

“P.O.W.” e “Dirty Little Secrets” reduzem os decibéis, procurando elevar a nota de emoção, e parecem destinadas a contagiar as hostes extáticas de adolescentes esmagando-se contra as grades de segurança dos palcos, mas continuamos na esfera do redundante e do pastiche.

Depois de “Leech”, a balada “Dead To The World” traz alguma diversidade e parece fazer uma vénia a sonoridades lendárias na esfera do heavy e do hard rock.

O momento insigne do álbum é provavelmente a mais visceral e assertiva “Riot”. O segundo single de Temper Temper, alicerçado em riffs simples mas acutilantes, carrega algum músculo, mas não deixa de ficar aquém do que seria expectável de uma banda que procura atingir o pináculo de uma cena musical onde se digladiam algumas das sonoridades mais estimulantes da atualidade.

Depois o tríptico final “Saints & Sinners”, “Tears Don’t Fall (Part 2)” e “Livin’Life” não acrescentam nada de novo ao álbum e simplesmente arrastamo-nos até ao final com a mesma impressão: “Temper Temper” é um álbum inócuo!

Na verdade, os BFMV parecem perdidos “in media res”, ou seja, é indiscutível o virtuosismo técnico dos músicos, Matt Tuck tem qualidades únicas e um inegável talento, no entanto, todos parecem sempre abaixo das suas verdadeiras potencialidades. Logo, se os BFMV querem empunhar o cetro e a coroa do metal britânico atual têm que fazer muito melhor, porque potências emergentes como Enter Shikari ou Bring Me The Horizon têm mostrado que têm artilharia pesada, atitude férrea e vontade férrea para lutarem por esse estatuto.

Análise de Rui Carneiro