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Caladmor – Of Stones And Stars

Dos cumes helvéticos bradam os Caladmor, banda que pratica um Folk/Metal digno de audição atenta. Fundada em 2001, quando ainda dava pelo nome de Pale, esta banda suíça conta com Barbara Brawand (“Babs”), Nick Muller, Markus Sauter e Martin “Maede” Baumann.

Antes de mais há que notar que a música dos Caladmor é revigorante e plena de energias positivas, evolando a partir de uma matriz pagã ancestral. Facto que cria um certo paradoxo com o nome “Caladmor” (luz negra), porque o Metal que estes músicos oferecem é épico, luminoso e dionisíaco. Na verdade, a banda define concretamente as fronteiras da música que pratica, designando-a como “Caladmorian Epic Folk Metal”.

Lançado a 30 de agosto de 2013, “Of Stones And Stars” sucede ao álbum de estreia “Midwinter” (2010) e demonstra que a banda evolui na senda do Folk, Gothic, Viking e Death Metal, mas seguindo um caminho bastante genuíno e aliciante, até porque, quando ouvimos as novas músicas, não podemos deixar de assinalar que a banda prima pela diversidade, procurando reinventar fórmulas e oferecer uma experiência Folk com matizes contrastantes, sendo que para isso recorre, linguisticamente, a uma panóplia de registos que passam pelo inglês, alemão e pelo ancestral dialeto nórdico.

A evolução em relação ao disco de estreia é significativa, na medida em que o som da banda está mais pesado, rápido, épico e agressivo ao nível das guitarras, sendo particularmente significativa ao nível dos vocais femininos.

Of Stones and Stars é uma opus em torno dos axiomas fundamentais: “conhecimento” e “sabedoria”; inspirada em referências mitológicas evidentes logo que escutamos o tema de abertura “Curse Of The Gods”, inspirado na “Odisseia” de Homero, o poema épico que narra as aventuras e desventuras de Ulisses. O tom épico leva-nos a um horizonte de referências que inclui alguns dos expoentes do Viking Metal, nomeadamente, Ensiferum. Os riffs pesados e eloquentes, uma prestação vocal admirável de Babs e a intensa cavalgada rítmica devidamente alicerçada num refrão particularmente memorável são os expoentes desta música.

O gutural de Maede ganha destaque na segunda, “The Raid”, um tema de contornos marciais que remete para as incursões dos “Homens do Norte” e que não estranharíamos encontrar na banda sonora de uma série televisiva ao estilo de “Vikings”. De referir, a qualidade lírica, nomeadamente, ao nível do refrão, facto que será recorrente ao longo do álbum e também evidente no tema título “Of Stones and Stars”.

Enquanto nos encaminhamos para o seu núcleo, surgem as pérolas do álbum. Primeiro, “Dawn Of The Deceiver” surpreende por completo ao apresentar vocais limpos. De realçar também o piscar de olhos aos Eluveitie, facto ainda mais evidente pela participação especial de Chrigel Glanzmann na gaita de foles irlandesa. Mas há ainda Joel Gillardi (The Land Of The Snow, Lunatic Fringe, Mulo Muto) na guitarra solo, contribuindo para uma ainda mais intensa densidade melódica do tema.

Depois, “Alvissmál” (a narrativa de Alvíss que tem de provar a sua sabedoria ao deus Thor), exemplo daquilo que mais apreciamos numa verdadeira composição Folk/Metal (juntamente com “Heralds Of Doom” um dos temas mais negros e puramente Metal do álbum, sendo que este conta novamente com Chrigel Glanzmann na gaita de foles). Um canto ancestral nórdico com lírica extraída dos “Edda” islandeses do século XIII (adaptado ao universo Metal) pleno de dicotomias delicodoces/agressivas. A natureza expressiva e a maviosidade do canto de Babs (aliada aos duetos irrepreensíveis) volta a somar pontos e a amplitude melódica do tema e os seus contrastes, fazem de “Alvissmál”, uma das melhores composições de Of Stones and Stars.

Ainda no âmago do álbum escutamos a balada etérea “Laudine’s Lament” (extraída do romance de cavalaria do séc. XII, “Iwein”, de Hartmann von Aue), momento para nos deleitarmos com a voz de “Babs”.

Inspirada nas referências míticas a Yggdrasil, “Mimirs Born” reforça ainda mais os nexos literários deste álbum, visto que recorre, liricamente, à poesia de A. Kaiser-Langerhanß.

A “Nymph’s Lure” abre com riffs de guitarra com afinações reminiscentes do Stoner, evidenciando-se depois o recurso aos coros masculinos enquadrando a voz de “Babs”, o épico refrão e a presença cativante da gaita-de-foles.

“Taberna Trollis” é o “momento Kusturica” do álbum, convocando um ambiente de libertinagem festiva que contrasta com o ambiente mais idílico e atmosférico do epílogo, “Helios Sky”, onde ganham destaque os belos coros que exaltam o deus grego Prometeu pela dádiva do fogo (símbolo do conhecimento e da sabedoria) à Humanidade,

Quando ouvimos a última nota Of Stones And Stars há ressonâncias com Moonsorrow, Amon Amarth, Ensiferum, Amorphis e Eluveitie que continuam a ecoar, no entanto, a música dos Caladmor transcende esse quadro de referências e demonstra cabalmente como, ainda que de forma independente, um conjunto de músicos talentosos consegue vencer as dificuldades e oferecer, à audiência ávida, um excelente álbum de Metal.

Análise de Rui Carneiro