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Children Of Bodom [Hard Club, Porto]

A noite adivinhava-se meteorologicamente inóspita para todos aqueles que rumavam ao Hard Club durante a passagem da Halo of Blood Over Europe Tour pela cidade invicta. Mas não seriam uns meros salpicos de chuva que intimidariam, nem a equipa de reportagem da Rock n’Heavy, nem os fãs nortenhos dos Children Of Bodom.


No entanto, a “hate crew” propriamente dita reservaria a sua comparência em massa para momentos mais adiantados de um evento que começou, pontualmente, pelas 20h00 com a atuação dos Medeia. A banda oriunda de Tampere, na Finlândia, teve a honra, mas também a dura tarefa de abrir as hostilidades para um público que não era, certamente, o seu.

Na sala 1 do Hard Club, àquela hora, eram poucos aqueles que, próximo do palco, correspondiam aos primeiros temas da noite. No entanto, a seu favor, os Medeia traziam, na bagagem, um novo álbum, “Iconoclastic”, acabado de estrear (25 de outubro), ainda que tenham assumido um set mais convencional e apostado num périplo curto pela sua discografia com incidência em Cult (2008). Mas escolhendo fortes temas de abertura (“We All Fail” e “Abandon All”), extraídos de Abandon all (2011). Para depois, mais perto do final, rematarem com os novos temas de Iconoclastic, sendo que o epílogo com “Misery Prevails” acabou por ser o corolário e apogeu da atuação.

A notória barreira linguística foi um entrave para uma maior interacção com o público e ainda que o Death Metal de Keijo Niinimaa (voz), Samuli Peltola (guitarra), Pekko Mörö (guitarra), Laura Dziadulewicz (teclado), Samuli Kuusinen (baixo) e Janne Putkisaari (bateria) não fosse a escolha mais óbvia para abrir um concerto de COB, os Medeia tentaram superar as dificuldades, ainda que, por vezes, os músicos aparentassem estar algo contidos na sua atuação. Mas destacamos a prestação de Laura com o seu constante “headbanging”, demonstrando que alguns dos melhores momentos de Medeia são aqueles em que os teclados têm um papel mais assertivo.

Resumindo, a prestação foi positiva e a banda, no curto espaço de tempo que lhes foi destinado, conseguiu deixar uma boa impressão no público. Mais tarde, via Instragram, recordariam esta passagem pelo Hard Club com uma foto particularmente curiosa, acompanhada pelo seguinte comentário: “Porto pork with light brown dressing”, também partilhada via facebook (“Beloved food lovers et al. Can you guess who is the owner of this fabulous piece of Porto pork?”).


Os senhores que se seguem têm outros créditos a defender e um público fiel em terras lusas. Na verdade, Portugal é, para os Decapitated, terreno familiar e o palco do Hard Club já bem conhecido, visto que o tinham pisado recentemente, em novembro de 2012, abrindo, à data, para Meshuggah.

Os polacos são, hoje em dia, epígonos consagrados do Death Metal e alcançaram lugar de destaque no panorama da música extrema. Assim, o Death mais técnico e uma sólida legião de fãs nacionais trouxeram mais público e, quando no palco começou o trovejar intenso, a sala apresentava-se já mais composta.

Aquilo que aconteceu depois, foi uma verdadeira borrasca de metal ríspido e corrosivo que rapidamente sacudiu o palco e contagiou o público com estrondo, marcando-o, possivelmente, com alguns hematomas resultantes das movimentações mais efusivas em redor dos “circle pits” que se formavam na dianteira do palco.

Único ponto a lamentar, esperávamos que, ao contrário do que sucedera com Medeia, os consagrados Decapitated apresentassem um set mais longo e abrangente, até porque era evidente que tinham muitos fãs no Hard Club naquela noite. No entanto, essas expectativas saíram frustradas, visto que o set foi meteórico e deixou certamente muitas bocas a salivar por mais.

Passagens por Carnival is Forever foram recebidas efusivamente, até porque, aquele foi o primeiro álbum da banda com o vocalista, Rafał “Rasta” Piotrowski, figura que é por si só um “espectáculo dentro do espectáculo” (confirmem nas fotos). Logo hinos guturais como, “Homo Sum” eclodiram no Hard Club como ogivas nucleares (não fossem as bandas da noite oriundas do “rooster” da editora Nuclear Blast).

Mas, como não poderia deixar de ser, aquela que fica mais marcada na mente e no corpo, é a passagem por Nihility, com a incontornável “Spheres of Madness” a levar a multidão ao delírio, perspectivando um fim já anunciado, até porque, como Rafal não deixaria de enfatizar, os Children Of Bodom eram os próximos monstros a saltar do “Backstage”.


Os longos tempos de espera entre bandas estavam a ser o ponto menos positivo da noite, visto que com sets curtos, era quase tanto o tempo em que havia música em palco como o tempo que passávamos a assistir a demoradas e indolentes arrumações. Este facto roçou os limites da paciência, antes da atuação dos Children Of Bodom, visto que a equipa técnica tratava dos preparativos com uma morosidade verdadeiramente enfastiosa.

Compreende-se que tenha que ser feito o “soundcheck” à panóplia de “signature ESPs” que Alexi Laiho utilizará de forma eloquente durante a atuação. Não se compreende a forma pachorrenta como cada operação era executada. Mas, enfim, havia um horário a cumprir e, depois de dois sets muito curtos, o público tinha mesmo que “marinar” ao longo de mais de meia-hora, apaziguando os ânimos da “hate crew” que fervilhava de ansiedade pelos COB.

Alexi Laiho é um senhor que sabe muito bem como cativar uma audiência (nem era preciso, porque a “crew” era deles de antemão). Cedo, Laiho, anunciou que nessa noite, os COB não estavam ali meramente para promover o novo Halo of Blood, mas aquilo que avizinhava era uma descida vertiginosa até às raízes mais profundas da banda e aos seus álbuns matriciais.

Genericamente fiéis ao alinhamento mais habitual durante a Halo of Blood Over Europe Tour, as honras de abertura foram para o single “Transference”, provavelmente um dos temas mais familiares à generalidade dos ouvidos da audiência, facto que ajudou a criar a atmosfera ideal para uma noite sanguínea e efervescente no Hard Club. Os tons vermelho sangue foram uma constante no jogo de luzes e nas imagens difundidas nos painéis de fundo.

Reafirmo, Alexi é um verdadeiro “frontman” e, de guitarra perfilada sobre a coxa, vai fazendo desfilar solos e interpretando os temas com um à vontade e tenacidade dignos de louvor. Exemplo dessa capacidade, os solos primorosamente executados, com a sua “signature ESP” em prumo, em “Silent Night, Bodom Night”, uma evocação ao som mais primordial de COB dos tempos do Hatebreeder.

Obrigatórias as passagens pelo mais recente trabalho da banda com a homónima “Halo Of Blood” (“Living Dead Beat” do álbum Are You Dead Yet? ficou nos bastidores) e “Scream For Silence”.

Houve tempo e espaço para temas menos familiares como “Kissing The Shadows”, epílogo de Follow the Reaper (2000) e para incursões ao fundo do baú para ouvirmos daquele COB mais “oldschool” com o clássico “Lake Bodom” que iniciou uma série particularmente fulgurante e pautada por alguns dos melhores momentos da noite com destaque para “Hate Crew Deathroll” e “Are You Dead Yet?.” “Blooddrunk” recordou o álbum homónimo de 2008 e “Towards Dead End” foi mais um regresso muito saudado, e profusamente acompanhado por palmas, ao incontornável Hatebreeder (reiterado com “Downfall”, perto do fim).

Na reta final, os clássicos de Follow de Reaper voltavam a ganhar lugar de destaque e, para fechar o concerto com chave de ouro, os COB presenteavam a multidão com o epílogo de eleição, “In Your Face”, umas das malhas mais viciosas de Are You Dead Yet? (2005).

No compto geral, os COB protagonizaram um bom concerto, alicerçado numa discografia que, em vinte anos de carreira, ganha já contornos invejáveis, oferecendo momentos que agradam a uma diversidade de audiências, conseguindo dessa forma oferecer sempre um grande espectáculo, quer para aqueles que só reconhecem os trabalhos mais recentes, quer para todos aqueles “haters” mais oldschool que mostram toda a sua exaltação eufórica, quando a banda remexe no fundo da caixa de Pandora para daí retirar malefícios ancestrais como aqueles que ouvimos na noite em que a Halo of Blood Over Europe Tour assentou arraiais no Hard Club.


Texto:Rui Carneiro| Fotografia: João Fitas
Agradecimentos: Prime Artists