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ChthoniC – Takasago Army

O percurso evolutivo dos CHTHONIC fez deles uma das bandas mais inovadoras e socialmente empenhadas da cena metal actual, reconfigurando as influências nórdicas do início da carreira, de forma a criarem uma imagem e sonoridade sui generis, fundindo elementos musicais oriundos, quer do Ocidente quer do Oriente, desbravando fronteiras ainda escassamente exploradas e tomando como ponto de partida as tradições asiáticas para criarem aquilo que designam como “orient metal”.

No Hammerfest, Doris Yeh, baixista de CHTHONIC, no decurso de uma entrevista, esclareceu que o “Exército Takasago” era composto por tropas oriundas de Taiwan que combateram ao lado dos Japoneses durante a II Guerra Mundial entre 1940 e 1944. Os soldados Takasago eram descendentes de um povo valente e poderoso das montanhas de Taiwan com uma forte tradição guerreira. Na verdade, impressionaram tanto os inimigos pela sua tenacidade, astúcia e habilidade no campo de batalha, que se tornaram na unidade de combate mais respeitada e temida do Exército Imperial Japonês.
Celebração panegírica dos desígnios dos heróis Takasago, este era um álbum muito aguardado, especialmente, desde que os CHTHONIC anunciaram que com “Takasago Army” assistir-se-ia a um aumento do quociente brutal da banda e a uma amplificação do conceito de “orient metal”.

Apresentado o conceito subjacente ao processo criativo dos CHTHONIC, incidimos agora concretamente sobre o álbum. ”The Island” é o intróito perfeito para “Takasago Army”, puramente instrumental e com recurso a uma profusão de instrumentos tradicionais, o tema convoca de imediato uma dramaticidade que diríamos bélica e próxima do épico. De realçar o desenvolvimento musical da faixa, que do tom intimista evolui para o registo orquestral. Destaca-se ainda a utilização da hena, o tradicional violino de duas cordas, que é o instrumento por excelência da ópera de Taiwan. Em relação a “Legacy Of The Seediq”, importa primeiro esclarecer que o termo “Seediq” designa um dialecto “Atavalic” falado nas montanhas do Norte de Taiwan, funcionando como referência ao tema genérico do álbum, uma vez que remete invariavelmente para a heroicidade dos Takasago, valorizando a sua herança étnica. Musicalmente, o tema é poderoso e na linha do metal mais extremo, com uma crescente densidade de vagas sonoras que emergem directamente da percussão, martelando ininterruptamente. Os motivos tradicionais estão presentes, mas primam por uma participação discreta, servindo como acompanhamento melódico para os growls ríspidos e lancinantes. “Takao” é o primeiro single extraído de “Takasago Army” e é um dos momentos sublimes do álbum, definindo claramente o tipo de sonoridade que os CHTHONIC procuram inscrever no paradigma do “orient metal”. “Takao” é uma elegia sobre a partida das tropas Takasago do porto de Takao para se juntarem ao Exército Imperial Japonês. A faixa abre com um coro discreto e o diálogo inaugural entre a cítara tradicional e as guitarras é bem representativo da fusão entre o folclore oriental e o metal. Os growls evoluem entre o grasnar estridente e o ronco mais cavo, alternando com o registo na língua nativa. O momento em que o instrumento tradicional ganha protagonismo, funciona como interlúdio melodramático na brutalidade da faixa. Uma referência especial para a participação de Yu Tien, um conceituado cantor de Enka, em Taiwan, que mereceu o seguinte comentário de Doris Yeh: “A voz de Yu Tien confere à canção a sua vibração passional e, além disso, exprime as múltiplas emoções dos soldados no momento da partida.” Destaque também para o vídeo do tema, dirigido por Chuang Chih-wen, e para a versão de Takao em que Sammi Hinkka / Ensiferum e Jukka-Pekka Miettinen interpretam o refrão, substituindo a folk ao estilo de Taiwan por uma toada viking. “Oceanquake” é um tema que deverá funcionar bem ao vivo graças aos fantásticos diálogos de hena. A intermitência entre o som mais cru e as partes melódicas conferem também um maior dinamismo à faixa. “Southern Cross” abre com a suavidade da flauta, mas rapidamente surge o trovejar da bateria e os riffs das guitarras, com os duelos de growls a imporem-se sistematicamente. Há ainda lugar a fugazes, mas intensos solos de guitarra. Em resumo, uma faixa rápida, mas bastante convencional, com um refrão bem definido, mas sem o experimentalismo e fusão que encontramos noutros momentos. Uma fantasmagoria de teclados e o pulsar sombrio da bateria, marcam o início “Kaoru” e quando, por fim, a voz surge do interior das trevas num sussurro tétrico, o registo é mórbido e sepulcral. Depois, erguem-se os growls e o som das guitarras mistura-se com as notas desgarradas de um piano. Ouve-se de novo a melancólica hena e a faixa continua a precipitar-se freneticamente, até ao momento em que escutamos a voz cristalina e feérica da premiada cantora Tsiam Nga Bun (Chan Yia Wen). “Broken Jade” é um tema muito directo, com riffs simples e rápidas rajadas de percussão, onde a nota contrastante fica a cargo da hena. Curioso, o sample com a voz de Hirohito / Imperador Shōwa durante o discurso radiofónico, ao povo japonês, três dias depois da destruição de Nagasaki, no qual nunca usará a palavra “rendição”, optando pela expressão “cessar fogo” em conformidades com os preceitos do Bushido. “Root Regeneration” é o momento zen do álbum. Em fundo ouve-se o canto das águas e uma flauta bucólica. Em seguida, o álbum acelera com “Mahakala”, a divindade budista, de cor negra que representa o princípio do “nirguna”. Os growls iniciais são típicos do metal mais extremo e a banda procura cumprir aquele desígnio de brutalidade que havia projectado para o álbum. Os solos das guitarras e da hena marcam presença nesta faixa e são a nota melódica de uma faixa tendencialmente mais black. Fechando o círculo iniciado com “Seediq Bale” (2005) a última faixa, “Quell The Souls In Sing Ling Temple” retoma a temática do álbum “Mirror of Retribution” (2009) baseado na batalha que teve lugar no Templo Xing Ling, em Nantou, a 16 de Março de 1947, quando apenas 40 membros das milícias locais lutaram até à morte contra 2.500 soldados chineses. A memória dos feitos e martírio dos milicianos é celebrada através deste hino épico e marcial. Os growls são explorados ao limite e o ritmo desenfreado da percussão acompanha a distorção das guitarras e a melopeia da hena.

Os CHTHONIC primam em “Takasago Army”, não apenas pela execução irrepreensível e pela originalidade do “orient metal”, mas também pelo facto de a par das barragens sonoras brutais e da imagem demoníaca, pulsar a ânsia ígnea de liberdade expressa através da força da palavra e alicerçada no poder persuasivo e corrosivo da música. Sendo ainda de louvar o facto de a banda ter compreendido que a evolução só é possível através do conhecimento e valorização da tradição e da História.

Análise de Rui Carneiro