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Circa Survive – Descensus

Desde a estreia arrebatadora com Juturna, em 2005, que cada CD dos Circa Survive poderia ser analisado fazendo “corta e cola” das palavras usadas no primeiro álbum, mudando apenas os nomes das músicas-chave; depois de passarem com distinção o difícil teste do segundo álbum com On Letting Go, ainda se aventuraram por terrenos revivalistas dos anos 90 em Blue Sky Noise e tornaram-se abertamente progressivos em Violent Waves, sempre com qualidade assegurada, sendo uma das bandas mais consistentes e entusiasmantes do rock actual.

Por esta altura, já ninguém espera nada de diferente da banda liderada por Anthony Green e a verdade é que Descensus é um CD mesmo muito bom, até para os padrões dos Circa Survive, tornando-se em mais do que uma adição de luxo ao seu reportório imaculado, sendo mesmo o melhor registo que a banda já criou.

“Schema”, faixa de abertura e primeiro single de Descensus, já tinha dado uma amostra do que álbum teria para dar, apresentando os Circa Survive em registo demolidor, próximos dos seus momentos mais agressivos como “Get Out”, mas ainda assim com alguma delicadeza à mistura.

Durante o CD vemos a banda a vestir várias roupagens diferentes, testando diversas abordagens ao seu som, mas sem perder a identidade que os define, seja através da eclética “Child of the Desert” com a sua guitarra gingona e alguns dos vocais mais doces que Anthony Green já nos deu, ou de “Sovereign Circles”, a dar azo ao lado mais influenciado por Post-Hardcore da banda, com um dos refrões mais memoráveis dos Circa Survive (ecos de At the Drive-In?) em toda a sua carreira.

Por outro lado, nas faixas mais calmas, onde as bandas muitas vezes parecem deixar entrar o modo de “piloto automático” e perdem a força, o conjunto americano ganha ainda mais poder e entrega os momentos mais intensos de Descensus, como se pode ver na sublime “Nesting Dolls”, monumento enorme ao Post-Rock que comete a proeza de partir de riffs reminescentes de Mogwai ou Explosions in the Sky, mas sem ceder à tentação do clímax fácil, preferindo uma abordagem mais contida, mas que em nada perde em emoção e intensidade; no entanto, o destaque vai mesmo para “Phantom”, revestida de uma intimidade quase sensual que ora soa a Deftones, ora a Massive Attack, naquele que é o pico em Descensus.

Num CD que só conhece um momento mais baixo em “Who Will Lie With Me Now?”, faixa instrumental que parece uma experiência inacabada e que soa desconexa do resto do álbum, os Circa Survive conseguiram subir ainda mais a sua fasquia já brutalmente alta e entregam aquele que é o seu melhor trabalho até à data, eclético nas influências que assume, mas sem perder a identidade e intensidade que caracterizam a banda.