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Cradle Of Filth – The Manticore and Other Horrors

Com “The Manticore” (abreviando), os COF chegam à dezena de álbuns (note-se a simbologia do dez enquanto valor que encerra um ciclo e implica renovação e instauração de uma nova ordem), sendo que o novo trabalho revisita o universo musical paradigmático da banda britânica, ou seja, é tétrico, fantasmático e sinfónico. No entanto, há nele também uma intenção de regressar às raízes, divergindo da direção assumida nos dois álbuns anteriores. Mas este regresso às origens não significa, em última instância, um incremento na natureza mais crua da musicalidade da banda, existindo, outrossim, uma preocupação, nomeadamente em termos líricos, em tornar o álbum mais acessível, quer pela diversificação dos próprios temas, quer ao nível da interpretação, porque, sem prejuízo da expressão dramática, as letras estão significativamente mais inteligíveis do que em discos anteriores, notando-se que essa intenção esteve bem presente no momento da gravação.

Quanto ao conceito do álbum, contrariamente ao que aconteceu anteriormente, “The Manticore” não é um álbum conceptual. O título é inspirado na obra de Edgar Allan Poe “The Raven and Other Stories” e os COF revelaram que o novo trabalho se assemelha a um “Bestiário”, ou seja, um repositório de histórias sobre monstros e criaturas lendárias, com reminiscências de Lovecraft (algo recorrente em COF). Assim sendo, além da referência específica ao arquétipo Manticore, há alusões à licantropia e ao vampirismo. Nada de novo, quando conhecemos o fascínio de Dani Filth pela temática do horror. De realçar que o vocalista de COF celebra entusiasticamente o Halloween (casou nessa data), pelo que a semana em que se celebra a véspera do “Dia de Todos os Hallows” (All Hallows Eve/ Halloween) parece uma escolha óbvia para o lançamento de um álbum dedicado especificamente ao “mythos” do horror lovecraftiano.

Depois de o introito orquestral e fantasmático “The Unveiling of O” instalar os devidos níveis de dramaticidade, da garganta de Dani solta-se o estrídulo inaugural de “The Abhorrent” e um pensamento ocorre: “mais do mesmo”, até porque este tema alternará entre a vibração mais metal e a vocação mais sinfónica e orquestral dos COF. Assim sendo, fica guardada para “For Your Vulgar Delectation” a primeira nota de destaque, porque, quer a nível instrumental, quer ao nível das vocalizações há aqui uma sonoridade mais metal e despida das filigranas góticas. De facto, Paul Allender agarra de forma arrebatadora a música, alicerçando cada momento numa barragem de riffs de travo 80’s. Liricamente gótico; encontramos neste tema os motivos recorrentes no imaginário COF: bacanais vampíricas e libidinosas onde não faltam os fatais e aflitivos espasmos orgásmicos femininos. Na melódica “Illicitus”, como antes em “The Abhorrent”, encontramos a veia icónica de COF. Em “Manticore” os músicos voltam a puxar dos galões e alinham pela vertente mais pesada. No entanto, o momento grandíloquo do álbum é “Frost on Her Pillow”. Musicalmente cativante desde o início, a orquestração conduz-nos por algumas das mais eloquentes e sedutoras paisagens góticas de COF. Dani abdica do dramatismo e as palavras brotam inteligíveis, renegando, momentaneamente, o registo gutural/estridente.

Se no tema anterior a nota de destaque recaía nas vocalizações, “Huge Onyx Wings Behind Despair” merece uma referência especial ao nível da dimensão instrumental, tornando-se mais preponderante o trabalho de Martin “Marthus” Skaroupka na bateria. Na verdade, deparamo-nos com alguns dos melhores apontamentos ao nível da percussão presentes em “The Manticore”. Os riffs de “Pallid Reflection” e “Siding With the Titans” são paradigmáticos de uma vocação mais assertiva e direta na música dos COF. No entanto, há medida que os temas se sucedem, começa a crescer uma sensação de esgotamento e “dejà vu”, acentuada pela recorrência cíclica dos mesmos motivos, pelo que, até ao final, merece sobretudo destaque a beleza encantatória do epílogo instrumental “Sinfonia”, demonstrando, mais uma vez, o papel determinante que Marthus granjeou no seio dos COF desde que chegou à banda, visto que o baterista é também responsável pelas orquestrações e teclados do álbum.

Sublinhe-se que “The Manticore and Other Horrors” afasta, em certa medida, o efeito “espada de Dâmocles” que parecia começar a assolar a música dos COF, devolvendo-lhe algum propósito e uma maior organicidade, quando a banda parecia condenada a navegar num oceano de águas paradas, ameaçando naufragar no marasmo da excessiva teatralização gótica. Não basta, no entanto, aos COF reinventarem-se com os olhos postos no passado, terão que encontrar novos rumos musicais que os mantenham como figuras de proa do metal extremo no futuro.

Texto por Rui Carneiro