free website stats program

Dias de (in)tolerância

Antes de mais devo pedir antecipadamente desculpa pela crueza do discurso e falta de polimento deste texto. Como Francês em particular, e como ser Humano em geral, custa-me falar deste tema com distanciamento e frieza.

Este ataque foi específico. Atacar um restaurante. Um jogo de futebol. Um concerto de rock. Pessoas normais e situações banais. Específico e directo. Um ataque ao quotidiano da nossa sociedade. Ao dia-a-dia de qualquer pessoa. E o objectivo é claro: imprimir nas pessoas o medo e o ódio fácil. Porque a reacção imediata é o que mais ajuda a recruta extremista. O medo criado gera insegurança. A insegurança gera pânico. O pânico gera reacções viscerais e imediatas. O incêndio no campo de refugiados nos arredores de Paris (curiosamente alvo de parca cobertura mediática, ao invés dos atentados) será, porventura, uma consequência directa.O ódio gerado contra o Islão e contra os Muçulmanos irá, por sua vez, aumentar a sua situação de não-integração, aumentar a sua fragilidade, e tornar a sua geração mais jovem ainda mais fácil de se tornar vítima do discurso bélico de ISIS e outros sub-humanos que por aí pululam.

Antes de culparem os Muçulmanos no geral pelo atentado em Paris, lembrem-se que o Estado Islâmico matou mais de 100.000 muçulmanos nos últimos 2 anos. Antes de culparem os refugiados, compreendam que é deste tipo de gente que a maioria tenta fugir. Este tipo de atentados são (basta estar atento para lá do sensacionalismo dos media para ver isto) levados a cabo por pessoas que já estão, na sua esmagadora maioria, estabelecidas há anos nos países. Frequentemente são até cidadãos de segunda geração que, fruto de qualquer situação que os colocou numa situação de permeabilidade, os tornou um alvo fácil para os recrutadores radicais. Os atentados aconteciam antes dos refugiados, antes do ISIS, antes da Al-Qaeda. Em Paris, em particular, lembro-me ainda bem do ataque ao metro em 95. Em 81 e 83 os ataques com alvo a representações Turcas na cidade. 2004 em Madrid, quem não se lembra? Não existiam refugiados ainda. O ISIS ainda seria uma miragem ou nem isso. Nesta situação, tal como em todas as outras semelhantes, apenas um culpado emerge: o ódio. A religião, frequentemente apontada como veneno do qual bebem os extremistas que levam a este tipo de actos, é ela também uma vítima. Culpar o Islão e os Muçulmanos no geral por actos de terrorismo é como culpar todos os Cristãos e o Cristianismo pelas cruzadas e pela inquisição. Ou, extrapolando para o mundo do metal, que todo o Black Metal é na sua génese de extrema-direita. Julgar o todo pela parte é um erro, e o primeiro passo para nos tornar pouco mais do que os selvagens que levam a cabo estas… Coisas.

Ainda assim uma coisa é certa: a Europa não mais pode ser a mesma. O não ceder ao ódio ou a todas as noções de aceitação e integração não podem de forma alguma sobrepor-se a uma reacção. É necessário, vital, obrigatório que este sem-fim de atentados sirva para colocar um fim célere à permissividade relativamente ao radicalismo. Seja ele de que campo for. O Islão não é inerentemente o Mal, e deve ter as mesmas liberdades que qualquer outro credo religioso. Aquilo que não pode. Não deve. NUNCA. Ser tolerado é o radicalismo. A porta de minha casa está aberta a todos, mas se um convidado começar a saltar em cima dos móveis e a destruir os meus pertences, obviamente não vou tolerar a sua presença. Qualquer demonstração de radicalismo anti-ocidente, anti-social, anti-Europa deve ser tratado de forma imediata. A linha que separa este “enforcing” da ostracização e discriminação é ténue. Perigosamente ténue. Como fan de metal, integrante de uma cultura alternativa tantas vezes mal representada e mal vista na sociedade (basta ver a TVI, que se refere ao nome dos Eagles of Death Metal como “Anjos da Morte”, ou ao Correio da Manhã, que na sua total ignorância diz tratar-se de um banda de covers dos Eagles, versão Death metal), sinto que é importante reflectir um pouco antes de ceder ao comportamento geral de repulsa face ao diferente e ao desconhecido, como tão frequentemente sucede dos ditos “normais” face a nós (que ninguém leia qualquer juízo nesta frase, é apenas uma forma fácil de me exprimir).
Recorrendo a nova metáfora via Black Metal (eu sei, é a minha cena, “bear with me”) – será que os acontecimentos dos anos 90, os actos de um Vikernes ou Bard Faust, são justificação para automaticamente denegrir todo um estilo e todos os praticantes e fans desse estilo musical?

Não sei, acho que disse muito sem dizer nada. Dispus-me a comentar o atentado, e acabei por falar muito pouco disso. Para mim estes atentados não existem por si sós. São mais um sintoma de um mal que vem sendo criado e aumentado há 3, 4 décadas. Admito que é uma luta interior para mim não ceder à culpabilização imediata e fácil, ao apontar de um dedo para que seja seguido de um apontar de mira. O metal é um género em que muitos dos seus estilos lidam de uma forma ou de outra com a morte, e com os aspectos negativos do Ser. Ainda assim custa ter que lidar com a gratuidade e a facilidade de algo deste género…

Vi dezenas ou centenas de pessoas a partilhar nas redes sociais aquele “estudo” que dizia que quem ouve metal é de alguma forma mais inteligente. Espero sinceramente que isso seja visível durante os próximos dias, e que seja reflectido em manifestações pensadas e racionais e que não seja mais uma ocasião para sermos vistos como uma sub-cultura que promove o ódio e se expressa de forma violenta e primitiva.

Texto de Alexandre Clément