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Draconian – A Rose For the Apocalypse

Temos de recuar ao dealbar de 2010 para conhecermos as raízes de “A ROSE FOR THE APOCALYPSE”, quando Anders Jacobsson escrevia no myspace da banda: “Draconian Anno 2010, a new productive era”, o projecto era explícito: “estamos actualmente a trabalhar diligentemente para que DRACONIAN entre na segunda década do novo milénio com um “boost” (…) Fiquem atentos porque no próximo ano vamos regressar em força.” A banda prometeu e cumpriu, com o lançamento de “A Rose for The Apocalypse” a marcar invariavelmente este “Midsommar”. Lançado nas vésperas do principal feriado sueco, o novo trabalho de DRACONIAN apresenta-se como a banda sonora inverosímil para o dia mais longo e mais festivo do ano. Depois do aclamado “Turning Seasons Within” (inesquecível passagem pelo Festival Caos Emergente em Setembro de 2009) e de um longo interregno, os DRACONIAN regressam ao melhor nível com um álbum lançado em pleno Solstício, uma opus negra, anunciando as trevas que se avizinham, à medida que a luz declina nos céus escandinavos.

Na verdade, DRACONIAN é uma banda que cativa, desde logo, pela dicotomia paradoxal entre os guturais tenebrosos e soturnos de Anders Jacobsson e a beleza diáfana, cristalina e emotiva da voz de Lisa Johansson. De facto, em “A Rose for The Apocalypse” a vocalista ganha protagonismo, introduzindo novas cambiantes líricas no som de DRACONIAN e conferindo maior diversidade à paleta melódica da banda. De notar que há também uma matriz dialéctica enunciada no título do álbum e consubstanciada na dicotomia beleza/horror.

Como se pode verificar através da consulta do sítio oficial da banda, Anders Jacobsson afastou a ideia de que este fosse um álbum conceptual, no entanto, o vocalista referiu que há um vínculo temático que radica na constatação desse “vasto dilema que enfrentamos enquanto espécie”, à medida que sacrificamos a natureza para alimentar as fornalhas do progresso. Assim sendo, não causa admiração que este seja um álbum mais fatalista e sombrio que o seu antecessor, ainda que seja evidente a preocupação em manter um diálogo constante entre o passado e o presente.

A faixa inicial do álbum, “The Drowning Age”, dá o mote perfeito para este poema apocalíptico. Anders continua brilhante ao nível da composição lírica e o refrão “Let’s bring our Gods, Let’s bring our Gods to the gallows.” é um grito de revolta existencial e instaurador de uma diatribe nietzchiana. As vagas de growls de Anders envolvem o registo límpido e suave de Lisa e a faixa deambula entre a flagelação Death e a suavidade do Gothic. “The Last Hour of Ancient Sunlight” (destaque para o vídeo já disponível) apresenta uma das linhas programática do album: ” In rapture from nature we divorce, like orphans by desire”, aqui é de realçar o lirismo e a expressividade do tema: “We took the blood of the earth and fell in love with death with life itself as an excuse”. Num registo mais Gothic/Doom, Lisa ganha mais protagonismo e os momentos de diálogo entre os vocalistas tornam-se memoráveis, com o peso das guitarras conferindo maior emotividade às palavras e a percussão a marcar as diferentes cadências presentes ao longo da música. Com “End of the Rope” o álbum acelera para um registo mais Death, com os growls de Anders a pontificarem sobre os riffs das guitarras. A voz de Lisa faz aparições fugazes e a faixa termina ao som de um piano fúnebre. «Elysian Night» é uma longa e sublime melopeia gótica repleta de filigranas líricas e musicais, guitarras límpidas, vocalizações feéricas e growls espectrais. “Deadlight” é um hino byroniano pautado pelo pessimismo e pela ânsia angustiada da morte. Em “Dead World Assembly” há que destacar a beleza simples, a musicalidade e a capacidade de composição da banda, Lisa canta num registo singelo e desafectado, pouco comum no género, e há ainda que realçar os excelentes apontamentos de Olof Göthlin no violino. “A Phantom Dissonance” inicia num registo acústico, acompanhando a voz da vocalista, para, em seguida, a electricidade pautar a prestação de Anders. “The Quiet Storm” começa com Lisa num registo “mainstream”, com produção à mistura e alguma dose de experimentalismo, trazendo novos elementos para o universo musical de DRACONIAN, ainda que mesclados na sonoridade típica da banda. “The Death of Hours” descarrega uma torrente melódica, com um brilhante trabalho ao nível da secção rítmica, onde o baixista Fredrik Johansson tem prestação musculada e omnipresente.
O álbum encerra em alta rotação com a “bónus track”, “Wall of Sighs”, uma parede de guturais, guitarras lancinantes e aflitivas cordas clássicas despejadas em torrentes sucessivas. Com “A Rose for The Apocalypse”, os DRACONIAN atingem um patamar de maturidade e excelência que deve ser reconhecido, particularmente, quando nos movimentamos nos meandros de um género por vezes marcado pelo carácter imberbe dos seus intérpretes.

O álbum demonstra que a alquimia matricial de DRACONIAN continua incólume e que existe alguma ductilidade ao nível da composição e da interpretação, facto que permite que a banda se reinvente a si própria sem nunca pôr em causa a sua identidade.

Texto por Rui Carneiro