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Enchantya – Dark Rising

Dark Rising” marca um novo capítulo na carreira da banda de metal gótico/sinfónico luso, Enchantya. Depois de, em 2006, terem lançado o EP “Moonlighting the Dreamer”, o novo disco sai com a chancela da prestigiada editora internacional “Massacre Records”, facto que não deixará de ser significativo para a divulgação da banda para lá das fronteiras desta jangada de pedra ancorada nos extremos do velho continente. Mas esse é apenas um dos aspetos a reter, até porque a própria sonoridade da banda deambula atualmente por novas e férteis veredas musicais com a entrada em cena de músicos como o baterista João Monteiro e o guitarrista Nuno Seven.

Acentuou-se assim a complexidade estrutural do universo musical dos Enchantya com uma maior diversidade rítmica e uma notória preocupação com a flutuação e variação dos tempos. Por outro lado, a vocalista de sempre, Rute Fevereiro, continua a funcionar como fulcro catalisador, visto que grande parte dessa diversidade provém diretamente da identidade polifónica que Rute introduz em cada tema, graças à extensão tímbrica da sua voz que, partindo de uma matriz operática irrompe furiosamente pelos meandros dos growls bestiais de reminiscência Death, combinando a beleza diáfana do canto lírico com uma dose de agressividade. De referir que a voz da vocalista é de tal forma singular que há alguma dificuldade por parte de alguma crítica menos familiarizada com a banda em identificar que os growls também saem da garganta da vocalista.

Centremos agora esta análise na música do álbum. “No Stars in the Sky”, apesar de ter sido escolhido como single, soa como um início algo titubeante para Dark Rising, visto que para os vários aspetos que compõem a sonoridade de Enchantya encontraremos momentos mais relevantes ao longo deste trabalho. No entanto, compreende-se que um tema mais acessível tenha sido eleito para destaque.

Em “Night in Whisper” (1ª ed. EP 2006) Rute Fevereiro abandona as roupagens guturais, explorando a amplitude lírica da sua voz, inscrevendo-se assim num registo que nos parece o mais propício a um refinamento dos melhores princípios musicais da banda.

“Clad in Black” arranca com um baixo lúbrico e guloso, guitarras pungentes e um desdobramento do trabalho vocal de Rute, com uma utilização copiosa do gutural combinado com devaneios insidiosos de estrídulos sinistros, entrecortando o registo operático habitual. Combinando peso e melodia, este tema acaba por ficar no ouvido como um dos mais carismáticos deste trabalho.

A nota de destaque em “Longing for You” (1ª ed. EP 2006) aponta para a beleza lírica e etérea do tema, particularmente ao nível do refrão, quando Rute assume as despesas de uma interpretação ao estilo “bela e o monstro”, circulando entre as harmonias líricas e o gutural agreste.

A sinfónica “Your Tattoo” apresenta alguns dos melhores solos de Dark Rising e uma toada épica, mas há algum excesso na utilização inicial dos growls, que parecem algo deslocados na estrutura melódica do tema.

O início de “She Devil” mostra-nos Rute a desfilar toda a paleta tímbrica ao seu dispor e diga-se que o faz de forma magnânima, facto que não deixará de a colocar debaixo dos holofotes, abrindo caminho (porque não) à sua ascensão ao panteão das divas do género.

Os teclados ganham particular relevância em baladas góticas como “Ocean Drops” (1ª ed. EP 2006), onde Rute faz desfilar o seu talento natural, catapultando a voz para os píncaros da escala.

O tema título “Dark Rising” assume-se como um dos momentos de maior complexidade ao nível da composição, com a música a sofrer diversas inflexões e incrementos em termos de intensidade rítmica, sendo percetível a dose de emotividade presente num tema que versa o sentimento de vazio motivado pela perda de alguém que nos é querido.

“Winter Dreams” recupera as atmosferas mais delicodoces de Enchantya e, assume-se, provavelmente, como a balada de referência em Dark Rising. Há aqui uma sublimidade etérea quer em termos das vocalizações feéricas, quer ao nível do tom cristalino.

Já próximo do fim, “Fear Me When You Fall” e “Become Of Me” continuam na senda musical de Enchantya, até que “Moonlighting the Dreamer” (1ª ed. EP 2006) encerra Dark Rising em elevada rotação. Rute veste e despe sucessivamente a pele do monstro e acompanha vigorosamente o estrépito instrumental.

“Dark Rising” pode ser o álbum de estreia para Enchantya, mas os músicos que integram a banda têm muita rotação nas cordas (quer nas vocais, quer nas de aço) ou seja, as nossas expectativas em relação a este álbum seriam sempre as mais elevadas, particularmente, porque o metal nacional não tem grande expressão no “female fronted metal” (os Ava Inferi são a exceção à regra). O álbum não defrauda as nossas expectativas, nota-se aqui um
evidente cuidado ao nível da composição e, posteriormente, na produção, no entanto, não podemos deixar de notar que os Enchantya talvez tenham a ganhar com uma reavaliação da relevância melódica do estilo beauty & the beast, porque, se Rute Fevereiro tem um talento natural como soprano; ao nível do growl dificilmente conseguirá digladiar com as mesmas armas e triunfar numa arena onde dominam potências como Mark Jansen. No entanto, não podemos deixar de louvar a vocalista, enquanto pedra basilar dos Enchantya, e como uma das figuras de proa do metal nacional. Com um disco de estreia de virtudes assinaláveis e com uma maior divulgação internacional com o selo da Massacre Records, o futuro revela-se auspicioso para os Enchantya e o metal nacional ganhará certamente maior expressão dentro do género.

Texto por Rui Carneiro