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Ermo – “Amor Vezes Quatro”

Que os Ermo elevaram o expoente musical português, já ninguém tem dúvidas. Ou se as há, rapidamente as tiram neste último trabalho que vos vamos apresentar. Numa altura em que o “diferente” é tão desejado, porém nem sempre atingido, os Ermo criaram, de facto, uma realidade única e imperecível, dimensão esta que nunca será de mais referir. Após o álbum “Vem por aqui”, lançado em 2013, António Costa e Bernardo Barbosa dão-nos o primeiro aceno de um novo caminho significativo com o EP “Amor Vezes Quatro”.

“Juntem-se todos e ouçam-me bem porque eu tenho uma história a contar.” Estão todos juntos? Pois bem, temos não uma, mas quatro histórias para vos contar. Todas elas singulares, mas com um elemento comum, uma ligação infusa: O Amor, este poder transformador. Assim também se intitula o começo desta pequena e intensa viagem que nos é proporcionada por este duo bracarense. “É uma força que tudo devasta”. O Amor… A sua presença é, simultaneamente, acolhedora e destruidora. Aqui, somos levados a idear a nossa própria imagem desta sede que não nos larga, “Mas de que nos vale a vida sem poder amar?”, e ao mesmo tempo lembrar o Amor que acaba, o Amor que se perde, o Amor que tudo à volta desvanece.

Fado teu”, primeiro single e videoclip deste EP, é a extensão deste nume sentimento, numa abordagem que contempla as margens da delicadeza, beatitude e sedução. É, talvez, a faixa mais terna deste EP. É como uma onda, onde nos deixamos levar e abraçamos este poético movimento. De seguida, “Súcubo” chega-nos como uma narrativa, absolutamente inquietante e acompanhada por um instrumental não menos tenaz. Nunca ninguém ousou descrever desta forma o acto da masturbação, acto tão natural, afinal de contas. Faixa perturbadora, porém envolvente. Resultou.

Musicalmente diferente e numa crítica bem construída e ritmada, ouvimos o fim desta viagem com “Recreio”, cujas personagens são o Padre Tobias e o Joãozinho. Uma forte representação da realidade por nós tão bem conhecida. A voz de António, cativante como sempre, evoca, desde o primeiro instante, toda a perplexidade e mistura de sensações presentes neste EP, numa magnífica interpretação. A intensidade da carga que é entregue a cada palavra, para além da sua força natural, rapidamente nos transporta para uma dimensão distante, um encontro com o nosso pensamento mais íntimo.

Em relação à cultura e bom gosto, os Ermo têm o dom da palavra e a mestria do instrumento. Reparamos numa sonoridade mais madura e concentrada. Este “Amor Vezes Quatro” é, sem dúvida, uma das viagens auditivas a ter em conta, não só este ano, como na vossa biblioteca musical mais pessoal. Quatro faixas que juntas formam uma combinação prazerosa para os ouvidos, um expurgar dos sentidos que alcança o etéreo.