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Ermo [Setembro 2012]

No passado sábado, celebraram-se os 20 anos das Noites Ritual mas “ O Ritual” foi outro e antecipou-se. Chegados de Braga, os Ermo, marcaram presença na cidade Invicta. Eles são eles António Costa e Bernardo Barbosa, a prova da autenticidade e originalidade do panorama musical nacional.

Fazem viajar e alcançar dimensões até então desconhecidas. Um símbolo da singularidade, uma voz forte que irá, por certo, tocar a muitos. Simplesmente fazem o que fazem, deixemos os rótulos no bolso. Não obstante a influência bracarense, existe uma forte ligação com a música portuguesa. “Não sei por onde vou, não sei por onde vou. Sei que não vou por aí!”. Os Ermo sabem bem por onde vão e, acredito eu, vão longe, muito longe. A Rock N’ Heavy esteve à conversa com estes dois novos talentos.

O vosso projecto é relativamente recente. Para quem ainda não conhece, quem são os Ermo?
António: Sou eu, o António Costa e ele, o Bernardo Barbosa.

Como diz no vosso bandcamp, Ermo surge da união da música portuguesa e do espírito que se viveu nos anos 80 na vossa cidade, Braga. De onde vem esta química? É um bocado aquilo que disseste numa entrevista: o tentar fazer algo que ninguém está a fazer agora?
António: A música industrial bracarense sempre foi uma grande influência nossa. Aliás, o Bernardo era um fã mais ávido de Mão Morta antes de eu conhecer. Ele deu-me a conhecer o lado mais profundo deles e também me mostrou outros projectos como a Rua do Gin, e alguns que entraram no 1º volume do “À Sombra de Deus”. É daí que vem essa apetência pelo industrial bracarense. Depois, quanto à música portuguesa, éramos os dois grandes fãs. Pareceu-me a melhor descrição. Na altura era, agora talvez não seja (risos).
Bernardo: Nós não procuramos, à partida, fundir essas duas influências. Acabou por acontecer naturalmente porque já estava um bocado incutido em nós, no nosso gosto musical e na nossa personalidade. Foi uma justificação para o que fizemos e não uma base para o fazermos.
António: Nós nunca tentamos definir-nos, nem um género nem como uma junção de géneros. Simplesmente fazemos o que fazemos.

Das primeiras vezes que ouvi a vossa música, fez-me viajar um bocado até tempos anteriores e acho mesmo interessante vocês irem buscar poemas como o “Cântico Negro”. Acaba por ser uma forma de homenagem a esse passado português e um contraste entre ele e o actual português?
António: Sim. É uma homenagem mas, novamente, não é algo propositado. São simplesmente os temas líricos que nós gostamos de abordar.
Bernardo: Eu acho que nós estamos sempre à procura de conceitos para as nossas músicas, para os nossos trabalhos e estes acabam por surgir naturalmente. Às vezes, ouvimos uma história, lemos qualquer coisa ou vemos um poema, como é o caso do “Cântico Negro”, e decidimos fazer uma música sobre isso. Normalmente parte daí.

Estou agora a lembrar-me da interpretação que vocês fizeram da música “FMI”, do José Mário Branco. Tendo em conta o que ele escreveu, o que é que vocês acham que falta a esta geração e a este país?
António: Eu acho que continua a faltar o que ele disse que faltava, daí o justificar dessa interpretação.
Bernardo: Exacto. Ainda é actual.
António: Aliás, o “Cântico Negro”, nesse concerto, surgiu um bocado como resposta ao “FMI”. Pelo menos, a meu ver. E depois ligamos à “Grândola Vila Morena”. São duas dualidades. A “Grândola Vila Morena” acho que é a utopia e o “FMI” é a catarse (risos). O “Cântico Negro” surgiu como a faixa de Gaza das três músicas (risos).
Bernardo: Por outras palavras, o “FMI” diz-nos o que está mal, o “Cântico Negro” dá-nos uma resposta e a “Grândola Vila Morena” imagina o porquê de tudo, quando estivesse bem. Fala de um Portugal diferente e livre.

E falando em música de intervenção, quais são os vossos músicos de eleição?
António: Eu sou grande fã do José Mário Branco, do Fausto e do Zeca. Depois também temos os músicos de intervenção de agora. É interessante ver que as novas bandas, pelo menos as que eu admiro, estão a entrar nisso, não sei se propositadamente. Por exemplo, O Bisonte, tens aí uma t-shirt deles, também entra um bocado por esses lados e tentam marcar uma diferença. Isso para mim já é música de intervenção.

E, por exemplo, o que é que acham daqueles projectos de recuperar as músicas do Zeca Afonso…?
António: Nós já tivemos oportunidade de tocar com um projecto assim, Projecto Subura, um bar de Braga. Eu admiro a interpretação que eles fazem das músicas e as modificam na tentativa de melhorar e dar outra visão, mas acho esses projectos um pouco saudosistas na medida em que não procuram uma resposta.
Bernardo: É uma repetição, de certa forma. Na arte, o mais importante é tentar acrescentar algo novo.
António: São projectos de covers e mesmo que façam uma interpretação diferente, é uma cover na mesma. Não dão de si.

Sendo vocês de Braga, como é que está a cidade a nível artístico?
António: A cidade a nível artístico está um pouco decadente mas está a melhorar desde o início dos anos zero. Durante os anos 80 houve aquele pico na cultura bracarense e creio que agora está a voltar a acontecer.
Toda a gente tem os olhos voltados para Barcelos. Mas em Braga está a nascer um novo colectivo de artistas, que é o Projéctil. Aliás, foi onde nós demos o nosso primeiro concerto. Lá, eles concentram-se não só na música mas também em escultura, pintura, grafiti. O próprio espaço é um objecto artístico e vão surgindo várias iniciativas como já surgiram: todas as quartas-feiras costumava haver sessões de poesia, por exemplo. O problema, como já dissemos anteriormente, é que Braga tem um público muito preguiçoso. E é o stoner e os olhos voltados para Barcelos. E quando não há stoner, ninguém faz nada.

Aliás, vocês estiveram lá ontem, no Projéctil, a apresentar a vossa colaboração com os NOME. Como é que correu?
António: Correu muito bem. Foram duas horas de concerto. Eram para ser seis horas só que a polícia apareceu. Mas foi muito divertido. Foi mais um concerto para nós do que para as pessoas dado que nós, basicamente, expulsamos 90% do público que estava a ver porque as pessoas odeiam noise.

Vocês gravaram uma faixa com eles, com 57 minutos.
Bernardo: Basicamente, essa faixa foi o resultado de uma improvisação. Foi a primeira vez que tocamos com os NOME. Na altura, eram o João Martins Moca e o Renato. Mal entramos, começamos a gravar e saiu essa faixa.
António: Acho que a apresentação ontem correu muito melhor do que a própria faixa. Aliás, a faixa é uma coisa para nós. Vamos vender isso em concertos como pretexto de dar às pessoas. O mais divertido naquilo é ser o momento. Até porque todos os concertos que ocorrem no Projéctil são filmados e são postos na internet. Este não vai ser porque era para ser mesmo um momento irrepetível. E foi. Foi muito bom.

A vossa faixa “Augusta” está no 4º volume do “À Sombra de Deus”. Como é que é estar ao lado de nomes como Mão Morta, Peixe: Avião? Ou melhor dizendo, como é que estarem vocês lá?
António: Exacto. É mais isso. É um orgulho participar num marco de Braga. Aquilo faz-se todas as décadas, desde 80, e é algo que dura para sempre. Acho que conseguimos cumprir muito bem o nosso objectivo que era fazer uma espécie de sátira bracarense, que é o que a “Augusta” representa: o que está mal e bem em Braga. Tentamos criar essa dualidade. Não falamos na religiosidade de Braga porque está inerente à própria música. É o gregoriano. Aliás, tivemos a ideia para a música quando passamos em frente à Sé e ouvimos a missa das seis. Achamos super interessante e decidimos usar isso.
Bernardo: É uma ironia melancólica sobre Braga. Por um lado, também é uma homenagem porque falamos sobre a cidade e escrevemos uma música para a cidade. Por outro lado, também revela alguma tristeza, tristeza que temos quanto a diversos aspectos da cidade.

Outro elemento forte da vossa música é as letras e a poesia. É algo que vos interessa bastante. Já pensaram em apostar nisso a outro nível? Explorar ainda mais.
António: (risos) Tem piada porque o nosso primeiro concerto surgiu nesse contexto. O Bernardo tinha sido convidado para fazer um conto dentro do surrealismo para um almanaque de contos cá do Porto, “Os Côdeas”. O rapaz que estava a organizar isso acabou também por me convidar a mim. De facto, é algo que nos interessa e está presente na nossa música. Mas nós tentamos fazer uma letra, dentro do conceito, embora as pessoas acabem por ver isso como poesia porque é português e tem versos.
Bernardo: E também há essa preocupação com as letras. É uma parte fundamental da música.
António: Até porque é música conceptual. É muito importante que o conceito seja bem marcado.

Tentam mostrar parte do que vocês são através da poesia/letras?
Bernardo: Acho que não fazemos música sobre nós ou sobre os nossos sentimentos. Ás vezes fazemos músicas sobre coisas de que gostamos mas normalmente fazemos músicas sobre coisas.
António: Não, nem sempre, nem sempre (risos).
Bernardo: Não há um lado muito sentimental.
António: Existem aquelas manifestações de interioridade, só que não se notam na maior parte das músicas. Só em algumas, como a “1998”, por exemplo. São mais manifestações de interioridade do que manifestações ideológicas.

E o “O Ritual” que simboliza um bocado a amizade entre vocês.
António: (risos) É. Mas não propositado. Simboliza a nossa amizade porque foi a primeira música que fizemos juntos. Aliás, eu conheci o Bernardo e começamos a gravar porque ele ouviu o meu projecto, que era uma merda, e disse que estava fixe e que precisava de produção. Acabamos por fazer um drone enorme que até está porreiro,
só que na altura não deu para nada. Era a “Montalegre” que antes era feita em ukulele e agora é só vozes.

Como é que é o vosso processo criativo?
Bernardo: Ui…
António: O nosso processo criativo passa por ter uma ideia para um conceito e tentar esmiuçá-lo ao máximo. O conceito vem antes da música e esta serve como uma espécie de “roupagem” do mesmo.
Bernardo: Basicamente, temos um conceito fixe e queremos fazer uma música sobre isso. Passa algum tempo, ou passa pouco tempo, e acabamos por tirar um instrumental de uma melodia que soe bem, uma letra que explique o conceito e acaba por ser um processo muito natural. Às vezes, eu faço uma coisa em casa, ele faz algo em casa dele, outras até nos juntamos para esse efeito. É completamente natural. Não temos ensaios regulares. Aliás, nós nunca ensaiamos, nem temos essa obrigação.
António: Ensaiamos uma vez. Na garagem do avó dele. Também foi uma merda (risos). E ensaiamos quando foi para o Theatro Circo porque tivemos um coro.

O vosso Ep vai contar com um prefácio do grande Adolfo Luxúria Canibal. Como é que isso surgiu?
António: (risos) Tinha de vir a pergunta. Surgiu porque nós temos a oportunidade de o conhecer no contexto do “À Sombra de Deus”. Antes disso, conhecemos o Miguel Pedro, baterista dos Mão Morta, que é uma espécie de padrinho da música em Braga. Ele mexe em tudo. Não só na música: também já foi presidente da SAD de Braga.
Ele contou-nos que tinha mostrado a cena ao Adolfo e que ele tinha curtido. Ajudou-nos imenso e fez-nos notar algumas falhas que tínhamos na nossa música e isso reflecte-se no Ep. Deu-nos também o conceito de tentar fazer algo mais conceptualmente coeso. Então, surgiu a ideia de o convidar para fazer um prefácio. Achamos que fazia sentido. Nós vemo-lo como o padrinho da nossa música, além de ser das nossas maiores influências.

Num texto que escreveste para a Silly Pompons sobre o vosso projecto disseste que antes de começarem a ensaiar discutiam a forma como Jacques Dudon operacionalizava e via a música no seu álbum. Como é que vocês vêm a música?
António: Nós vemos a música como uma “roupagem” do conceito. Pelo menos, para mim, é isso. A paixão pela música sobrepõe-se às ideias. Eu vejo a música como uma forma de dar algo de mim e o Bernardo de si.
Bernardo: Quanto à música em geral, é muito difícil de responder porque a música é um universo muito complexo e há vários tipos de música. A nossa música penso que é como ele disse: gostamos de transmitir ideias através da música. É uma espécie de suporto artístico. Por isso é que é muito importante esse conceito à volta da música. Aliás, por ser a primeira coisa e estar na base daquilo que fazemos. Parte mesmo daí. O mais interessante do nosso som acaba por não ser a própria música em si, apesar de achar que tem um lado interessante e provavelmente mais pessoas o acham, mas a ideia, o que queremos transmitir. Existe uma mensagem e quando tiveres oportunidade de ouvir o EP vais reparar nisso.
António: O EP resume-se na ideia do Quinto Império, de Fernando Pessoa. A própria capa do EP é aquele retrato clássico de D. Sebastião. Namoramos toda essa ideia do retorno e do não-retorno.

Falando da música há pouco, conseguem vê-la como um símbolo de união entre as pessoas?
António: Essa pergunta é muito Woodstock (risos). A música é um símbolo de união entre músicos, acho eu.
Bernardo: Eu acho que a música dá para tudo. Dá para criar conflitos, dá para criar união, dá para acentuar amizades. A nossa música, em especial, conta uma história e é uma forma de mais pessoas ouvirem o que temos para dizer. Isto porque se chegássemos ao pé das pessoas e disséssemos o que dizemos nas nossas músicas, ninguém prestava atenção.
António: Exacto. Sabes aquela frase “tudo o que é demasiado estúpido para ser dito, é cantado”? Basicamente é isso. Se nos ouvires a falar de Sebastianismo, parecemos uns idiotas nacionalistas. Ainda por cima agora que rapei o cabelo (risos).

E para terminar, quais são os planos para o futuro? Vão lançar muito em breve o EP, não é?
António: Sim. Vamos lançar o EP durante a rentrée. Provavelmente, finas de Setembro ou, no máximo, inícios de Outubro. Queremos gravar uma cassete apenas com uma música, novamente sem nome. Mas o conceito vai gerar todo à volta do Gerês. Esta cassete vai surgir não como uma união de duas personalidades mas sim como a presença de duas personalidades. O Bernardo vai usar muito as electrónicas puras e eu também vou incidir alguns elementos do black metal e do death metal.
Temos também o plano de continuar com as colaborações. Em princípio, vamos colaborar com o Miguel Carneiro, dos Angúria, que é dos bateristas mais competentes que nós conhecemos. Há ainda a ideia de fazer um disco que seja uma espécie de fetiche musical, ou seja, cada um faz aquilo que sempre quis fazer no seu projecto mas nunca o deixaram.