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Esfera – All The Colours of Madness

De Setúbal, os Esfera (antigos EMMA) depois de já andarem por aí há algum tempo trazem-nos finalmente o seu álbum de estreia. A promessa é Rock Progressivo de contornos melódicos e suaves, mas a verdade é que as raízes e influências da banda (que partilham baterista com os ecléticos Ash Is a Robot) permitem muito mais (basta ver o salto de gigante entre as duas partes da introdutória “Magnificence”, com a primeira a dar ares de Pink Floyd acelerados com alguma estética de Sonic Youth e a segunda a dar-nos uns toques de Funk no groove das guitarras que nos trazem Ornatos Violeta à memória. Estranho? Um pouco, mas por aqui o ecletismo é palavra de ordem, com Hardcore, Prog, e Funk juntos a dar um ar muito de Ópera Rock moderna a um CD que merece muita atenção).

À parte a final faixa-título de ecos espaciais (se David Gilmour e Billy Corgan fizessem um disco juntos soaria assim) e o início, o álbum tem cada faixa nomeada por uma cor que não é dado ao acaso (como esperávamos), reflectindo o estado emotivo de cada canção e resultando num verdadeiro disco conceptual, ainda que não assumido e um monumento do Prog como já não ouvíamos uma banda nacional fazer desde que Manel Cruz descobriu a idade adulta em O Monstro Precisa de Amigos.

Da assumidamente metaleira “Blue”, que por entre solos trovejantes de guitarra e uma secção rítmica de pulso em riste que chega a trazer Djent à memória (vejam só onde este disco vai!) nos coloca no meio de uma tempestade até à bonança esperançosa regada a Funk e Swing da sensual “White”, passando pela pseudo-balada de recuperação “Red” que é uma viagem em si mesma, num crescendo invejável que sem esforço se torna no melhor momento do CD, os Esfera criam aqui um imaginário policromático em nome e em conteúdo, em que cada música se apodera de uma vida e emoção diferente, numa expedição de descobertas ora gingonas ora enraivecidas, mas sempre de impacto garantido.

Para isto muito contribui uma secção instrumental absolutamente impecável (as guitarras são o ponto alto, sabendo quando estar contidas e quando explodir em solos e devaneios por demais pedalados, incluindo numa ajuda memorável pelo homem das 6 cordas dos Ash Is A Robot, Renato Sousa em “Green”, num solo esquizofrénico que encaixa maravilhosamente nas teias melódicas da faixa) apoiando um também revelador Nuno Aleluia na voz que, mesmo sem um alcance invejável, faz suas as melodias dos colegas e traz uma personalidade e emotividade muito bem-vindas a estas músicas, cujo único ponto fraco reside em “Black”, que se rende aos clichés do género e demora a arrancar (embora quando o faça mal nos recordemos que chegou um dia a ser banal).

Assim sendo, valeu a pena a espera pela estreia dos Esfera, que injectam nova vida ao Prog nacional, com influências tão diversas como o Metal e Hardcore até ao Jazz ou Swing e que, ao perceberem o poder do formato-disco, o usam enquanto arma de assalto aos sentidos numa viagem absolutamente inesquecível que nos traz aquele que prevemos já como um dos mais fortes discos do ano.