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Filho da Mãe [Lisboa, O Bom, O Mau e o Vilão]

Ninguém diria que a noite de quarta-feira estava fresca em Lisboa, pelo calor abrasador (ambos literal e metafórico) que se fazia sentir na sala de concerto d’O Bom, O Mau e o Vilão, no Cais do Sodré, quando Rui Carvalho, também conhecido por Filho da Mãe, começou a sua actuação.

Cerca de quinze minutos depois das 23 horas, o músico deu tempo para a sala ir enchendo gradualmente, até não haver literalmente espaço para ninguém se mexer lá dentro, num evento que, mesmo sendo de entrada livre, mostra já a aclamação de que o guitarrista privilegia.

Apresentando Cabeça, o seu segundo álbum, Filho da Mãe tocou-o na íntegra e por ordem, levando todo o público numa viagem que nos relembra do poder do “formato álbum”, em que as canções se unem umas às outras de forma perfeita, para formar um todo dinâmico e avassalador.

É preciso esperarmos até ao final de “Cerca de Abelhas” para Rui Carvalho se apresentar timidamente, dizendo que se sentia “como quando conduzem e pensam “eu não devia estar a fazer isto””, antes de se lançar a “Caminho de Pregos”, uma das músicas mais celebradas do concerto.

Estar a ouvir Filho da Mãe é como estar em família, há tempo para “manicure” entre faixas, o guitarrista mete-se amigavelmente com a mulher, Cláudia Guerreiro, dos Linda Martini (“A seguir vamos ter um DJ set de Cláudia Guerreiro, que vai ser só um bocadinho pior que este concerto”, diz ele entre sorrisos) e faz-nos sentir confortáveis, tal como um verdadeiro concerto intimista devia sentir.

Mas, por muito importante que isto seja, tudo se resume à música no final e essa, não só é irrepreensível, como parece ganhar uma nova vida ao vivo; a forma como Filho da Mãe “passeia” pelas suas músicas instrumentais, ora dedilhando suavemente a guitarra, ora arranhando-a sem misericórdia, são uma ocasião de contemplação; não é música para saltos, cânticos efusivos ou êxtase normal; é uma jornada de emoções hipnotizante, envolvente e etérea que nos deixa completamente boquiabertos (não fossem as palmas entusiastas no final de cada faixa e poderia ser confundido com apatia, pelo silêncio reverente que se faz assim que Rui Carvalho acerta as primeiras notas).

Depois de “Um Bipolar” servida em dose dupla, o músico anuncia que não faz “puto de ideia” do que vai fazer a seguir e lança-se num improviso que, embora longo demais, quebrando o ritmo que se tinha formado até aí, é prova da mestria e virtuosismo de alguém que faz tocar guitarra parecer mais do que uma arte, tornando-o como uma conversa e um escape de emoções.

A recta final com “Um Monge às Costas” (a música mais bonita de Cabeça, na opinião deste repórter) e “Quadro Branco” são servidas com uma dose extra de experimentalismo e de efeitos, com Rui Carvalho a servir-se dos múltiplos pedais que lhe adornam os pés para encerrar esta viagem com uma nota de psicadelismo bem recebida.

Finalmente, o guitarrista ainda guardava uma surpresa na manga: “Helena Aquática” (ou, como ecos na sala proclamaram, “Isabel” ou “Carla”, havendo uma moça aquática disponível para todos os gostos), da estreia Palácio, servida a preceito com pedal de loop e muita emoção a levar o público ao delírio, que se despediu de Filho da Mãe com uma chuva de aplausos depois de uma jornada gratificante pela alma de um dos melhores músicos portugueses de todos os tempos.


Texto: Jorge Martins | Fotografia: Inês Silva
Agradecimentos: O Bom, O Mau e o Vilão