free website stats program

Ghost – Infestissumam

Em 2010, com Opus Eponymous, a banda originária de Linköping, na Suécia, anteriormente conhecida como GHOST e para sempre assim nomeada pelo eminentíssimo pontífice, com rosto de Lord Sith, PAPA EMERITUS II, alvoroçava o panorama musical através da teatralização satírica dos meandros canónicos da religião. Pela batuta daquele anti-Papa, único rosto visível (ainda que cadavericamente distorcido) da banda e pela mão dos seus sequazes, os Nameless Ghouls (de cara tapada, velando qualquer resquício de identidade), uma liturgia negra, herética e sarcástica derramava-se pela terra, fecundando e criando raízes no húmus cardíaco de inúmeros infiéis que rapidamente se deixavam converter, tornando-se crentes fervorosos e sectários indefectíveis desta anti-religião musical.

Agora, abril de 2013, o ritual negro e tenebroso volta a congregar as hostes encapuzadas com o lançamento da nova opus Infestissumam (do étimo latino = Hostil), via Loma Vista Recordings e com produção de Nick Raskulinecz.

Continuando a missão de reescrever as páginas bíblicas, se o álbum de estreia culminava com o Génesis, o nascimento do Anticristo, Infestissumam é o capítulo seguinte dessa narrativa invertida.
Assim, depois do preâmbulo homónimo, “Infestissumam”, o próximo tema “Per Aspera Ad Inferi”, como os próprios GHOST sugerem, é uma invetiva dirigida à humanidade. Com nexos referenciais que se estendem até ao poema trágico, “Fausto”, do escritor Johann Wolfgang von Goethe. De facto, o mefistofélico canto de PAPA EMERITUS II, reforçado pela marcha marcial imposta pelos Nameless Ghouls dá azo à ambição humana: “e se todos os teus sonhos se tornassem realidade?”, bastando para isso “venderes a alma”; quantos não abdicariam perniciosamente da beatitude celeste em troca da opulenta devassidão terrena?

Com efeito, uma das evoluções mais notórias do álbum de estreia para o novo Infestissumam consiste numa considerável complexificação da dimensão lírica, algo que se tornou evidente logo aquando da divulgação do single “Secular Haze”, valsa de pantomina em ritmo de carrossel assombrado e alucinado, perdido algures entre os escombros de uma qualquer feira dos horrores.

A intensidade emocional e a densidade expressiva continuam a marcar pontos nos temas seguintes, nomeadamente na ambivalente “Ghuleh / Zombie Queen”, inicialmente etérea e delicodoce em tom de balada necrófila profundamente introspetiva, mas que, “in media res”, se converte num hino rock eletrizante. Na verdade, em conjunto com o próximo tema, o single “Year Zero”, estes são alguns dos momentos mais memoráveis de Infestissumam, sendo de destacar o ritmo contagiante de uma música que assinala precisamente o advento do anticristo na arquitetura conceptual do álbum. Por esta altura, também se intensifica no palato um travo a sonoridades dos anos oitenta, nomeadamente em “Jigolo Har Megiddo” e “Idolatrine”.

Depois da roqueira, “Body And Blood” há ainda tempo para o psicadelismo de “Depth of Satan’s Eyes”, sendo que o epílogo fica reservado para o single “Monstrance Clock”, que fecha o álbum com chave de ouro, sintetizando, através da sua temática de pendor obscuro e satanista, a irreverência dos GHOST. Na verdade, “sintetizar” é termo basilar neste tema, nomeadamente pela melódica utilização de “synths” que conferem uma cativante nota eletrónica à toada imposta pelos riffs das guitarras, pelas vocalizações e pelos coros nefelibáticos e inebriantes.
Infestissumam não é o álbum grandioso, desconcertante e iconoclasta que a truculenta máquina do marketing editorial discográfico procurou vender a todo o custo ao longo dos últimos meses, nomeadamente, através de uma engenharia promocional engenhosamente concertada e extremamente eficaz que beneficiou de um impulso inesperado oriundo do local mais inusitado – o Vaticano, quando o Sumo Pontífice Bento XVI renunciou, tornando-se Papa Emérito.

Na verdade, os GHOST não são espetacularmente inovadores ou heréticos, são, isso sim, extremamente eficazes e irreverentes, até porque neste universo musical a referência ao satanismo surge mais por força do “pastiche” e não tanto por vocação ôntica ou ideológica.

No que diz respeito à música em si, será de louvar a forma como despoletam uma fruição pós-moderna e revivalista de sonoridades dos anos setenta e oitenta que têm nos nova-iorquinos Blue Öyster Cult uma das matrizes paradigmáticas.

Análise de Rui Carneiro