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Gon e André Hollanda [Outubro 2013]

Rui Silva, mais conhecido por Gon, e André Hollanda são dois nomes que dispensam apresentações no que à música diz respeito. Após algum tempo ausentes, juntaram-se, com Pedro Santos, e encontram-se a trabalhar num novo projecto que promete ser único, como só eles o sabem fazer.

Já dizia Ken Robinson, especialista em criatividade e educação, que devemos ser criativos em tudo o que fazemos.
Numa altura em que sofremos não só uma crise económica, mas também, e sobretudo, de valores, ver músicos como estes com um amor tão genuíno à arte e uma criatividade total, é uma lufada de ar fresco.
A Rock N’ Heavy teve a oportunidade de conversar com Gon e André Hollanda, que, simpáticos, nos abriram as portas do seu local de ensaio para uma troca de palavras sobre música e sobre o novo projecto, entre opiniões e boa disposição.

Para começar, falem-me, então, deste vosso novo projecto. Como se chama, como começou, em que ponto se encontra?
André: Não tem nome, ainda estamos a trabalhar para que comece. Já não fazia nada com o Rui há anos e lembrei-me de lhe dar um toque e arranjamos um baixista fenomenal.

Gon: Partiu das cenas de electrónica que andava a fazer . Inicialmente, éramos só os dois. Depois, em conversa, excluímos logo termos guitarrista. A partir daí, começamos logo a pensar em arranjar um baixista que tivesse ao nível de puder fazer algo sem ter que acompanhar o guitarrista, porque geralmente, vês o baixista a acompanhar o guitarrista e não o contrário. E como te disse, começou tudo por samples e coisas já mais ou menos compostas. Experimentamos fazer primeiro no computador e depois tocá-las ao vivo. Agora estamos na fase de largar as estruturas das músicas já feitas para começar a tocá-las em conjunto, porque as músicas ganham uma vida própria. A determinada altura juntas isto e aquilo, e é aquilo naquele momento, mas depois quando começas a tocar, a própria música vai para outro sítio. Às vezes, o público escolhe mais a música que estás menos à espera que escolha, outras vezes tens muito mais tesão e ênfase a tocar algo que o público nem está a prestar atenção.
A nossa preocupação está em fazermos uma cena nossa, única, que não tenha aquele sentido de procurares o “hit”, ou que seja aceitável, ou até que as pessoas percebam. Tem a ver com quando mostrarmos, termos a certeza que estamos confortáveis para tocar isso, e tem sido mais difícil porque as músicas são complicadas.

André: Eu acho que também tem a ver com o estatuto idade. Comecei a trabalhar com o Rui há 20 anos e os tempos eram outros. Fazer uma banda, aparecer, andar a tocar… Apesar de sempre termos ido por um caminho um pouco “freak”.

Gon: Tentaram-nos engaiolar, queriam saber qual era o nosso estilo de banda e depois não sabiam muito bem o que éramos e onde nos pôr nos concertos. A determinada altura, nós deixamos de tocar porque “ameaçávamos” as outras bandas. Depois, começamos a ser vistos como arrogantes porque ninguém sabia onde nos pôr. E nós próprios também começamos a achar que se calhar o mais importante não é apareceres, nem seres conhecido…

André: Ninguém está preocupado com as rádios, ou as opiniões dos radialistas, que é uma coisa que me irrita bastante.

Gon: Tens que aparecer na playlist.

André: O peso que o radialista tem porque é a pessoa que escolhe o single… No fundo, é uma pessoa que trabalha com música e escolhe música. Directamente, não lhe atribuo uma papel de importância tal… Não é propriamente “o rei do condado”.

Gon: Não tens propriamente de estar à procura que seja “mega”, pelo menos, não é esse o nosso intuito.

André: Acho que andamos à procura do anti-sucesso (risos).

Gon: Exactamente. Do erro, da coisa esquisita…

Falando no erro, acho que as pessoas hoje em dia têm muito esse medo, de errar, e não serem aceites…

André: Acho que sim. Esquecendo a rádio, esquecendo tudo isso, e falando em termos de música, como arte, como é a pintura ou o cinema, para mim, no global, desapareceu.
Nós deixamos de tocar com os Zen, cada um foi para seu lado, e, entretanto, tenho tocado como músico contratado, o que é algo muito frustrante porque não tens opinião. Eu não faço questão de aparecer, nem que me fotografem, eu sou aquele que entra no autocarro e se senta no último banco. Agora, opinião, sim. Eu sei o que faço, sei as capacidades que tenho e por isso, tenho direito à minha opinião.
A proposta que tenho para trabalhar com o Rui e o Pedro, o nosso outro elemento, é um voltar à música, querer fazer música. Neste momento, prefiro trabalhar onde quer que seja, mas poder fazer a música que eu gosto.

Gon: Não estar preocupado com o “tens que ser alguma coisa”.

André: “Tens que ser” ou “tens que vestir isto”. Eu até pus os meus melhores sapatos para esta entrevista, como vês (risos).

Exacto. Parece que há uma preocupação maior na imagem do que propriamente com o conteúdo, não é?

André: Sim. Este é um problema grave a que tenho assistido em trabalho e noutras situações: as pessoas preocupam-se mais com a calça certa ou o sapato certo. Se a música está um bocado má, deixa lá.

Gon: Hoje em dia, está-se mais preocupado em “ser-se” daquela forma. Aliás, é essa a única preocupação. Depois, quando a música aparece… não se passa nada.

André: Digo isto porque para mim era frequente, nos anos 90, inícios de 2000, ir a concertos e o pessoal ficar deslumbrado. Hoje em dia, não vejo isso. O último concerto que vi que realmente me marcou, foi o Nick Cave. De resto, o que tenho visto por aí, não me diz nada. E faz-me um bocadinho de impressão porque, quando comecei com o Rui, havia muita coisa que, quer gostasse, quer não, tinha muito “sumo”. Hoje não vejo isso nas bandas.

Há pouca originalidade?

André: Sim.

Gon: Outra coisa que nós fizemos, e que tem a ver com o facto do André tocar com o Pedro, foi tentar trazer “sangue” novo.

André: Acaba por ser uma aprendizagem mútua.

Gon: Facilmente, alguém da nossa geração vinha tocar connosco, pelo que somos em relação à música, mas decidimos pela pessoa mais anónima e mais recente. Conhecemos-nos há um ano e vamos fazendo coisas e é bom o descobrir outra parte da actualidade. O facto de tocar e pôr discos, faz-me manter sempre actualizado: o que está a sair, saber quais são as tendências, leio muita coisa de países diferentes, influências completamente distintas.

André: O Rui é a nossa fonte de coisas novas (risos).

Gon: Tento perceber o que pode ser útil ou não, em termos sonoros. E, nesta banda, estamos mesmo a experimentar isso.

Já estão a pensar em editar alguma coisa?

André: Na verdade, ainda não falamos sobre isso.

Gon: Aqui, o que queremos é tocar. Conseguir tocar ao vivo. Assim que tivermos prontos para isso, vai ser muito mais fácil decidir se vamos gravar um disco, vinil, ou disponibilizar na internet.

(Para o Gon) Para além da música, estás ligado a outras áreas, como é o caso da pintura. Tens algum plano nesse sentido?

Gon: Tenho. Vamos fazer algo lá para o final do ano e é um pouco um voltar atrás. Já fizemos isso em vários sítios diferentes: é pintura ao vivo, improvisada, com música ao vivo improvisada. Tudo se passa consoante o sítio onde estás, quantas pessoas estão, o material que tens, onde é que vais pintar, onde é que vais tocar. Já fizemos isso antes e agora queremos tornar isto mais “profissional”. Queremos envolver pessoas dos sítios onde vamos. Mas não estamos à procura das exposições ou estar à procura que vejam.

André: Agora que falaste nisso, acho que pesa muito mais o mediatismo e o aparecer do que a música. Pelo menos, na altura em que nós começamos, as coisas eram muito diferentes. E estamos a falar de Portugal, que sempre foi um país problemático para viver disto. Agora, fazes uma banda e já estás a pensar nas fotos…

Por acaso, lembro-me de teres dito numa entrevista que as bandas de garagem não se comportavam como tal, como bandas de garagem…

Gon: Exactamente.

André: Primeiro, já não ensaiam na garagem, nós voltamos para a garagem (risos).

Gon: Quem não passou aquela fase áurea, o que não quer dizer que não possam exitir mais fases áurea, mas quem não faz esse processo, não tem rock.

Como é que está o rock em Portugal?

André e Gon: Não há.

Gon: Se há alguém que me move, que me faz ficar colado no concerto deles, são os Black Bombaim.

André: O rock não é a quantidade de guitarras ou o modelo de guitarra ou as botas que o músico tem, mas tem a ver com a sensação que eu tenho depois de ver aquilo. Vou a um concerto de jazz, quero ficar com alguma sensação no fim. Vou a um concerto de rock, quero sair de lá suado, de preferência rouco, à moda antiga.

E a cidade do Porto a nível artístico?

André: Eu acho que anda confusa, em termos musicais.

Gon: É como uma onda de espuma e nessa onda não se passa nada. É a analogia que posso fazer.
No entanto, pela extrema informação que há hoje em dia, devia haver um respeito muito maior pelas coisas que se estão a passar à frente, ou então, simplesmente não apareceres.

André: Voltando atrás, a minha ideia de falar com o Rui foi pelo gosto de fazer música, e, neste momento, já estou com amor a isto.

É isso que falta, não é?

André: Sim.

Gon: O que estamos a fazer é algo que realmente faz sentido e isso já ninguém nos tira. O processo que levamos para fazer isto é para tirarmos o máximo de gozo, e não ser uma chatice.

E tocar ao vivo, já têm alguma perspectiva de quando será?

André: Para já, não. Primeiro, queremos acabar isto tranquilamente.

Gon: Gostávamos de no final deste ano já ter alguma coisa para mostrar.

André: Estamos a trabalhar sem pensar nisso. Mas reforçando: a ideia de fazermos isto é pelo gosto. Eu preciso mesmo de voltar a fazer música. O meu dia santo é quando eles aparecem (risos).

Gon: É diferente, está distante de tudo o resto.

André: É o meu último fogo e já tenho 20 anos outra vez. Acabei de sair do secundário, as notas foram más…
Agora, sim, tenho o gosto de vir para aqui, o que não me paga contas nenhumas, ainda dá despesas, mas não me tirem isto, por favor.

Acho que faz falta ver pessoas como vocês, com um amor tão grande à música…

André: Também tem a ver com as pessoas com que te juntas. Juntei-me com o Rui e qualquer pessoa que venha de fora, tem de ser especial. Arranjamos o Pedro, um baixista inacreditável. Somos de gerações diferentes e fico contente por poder transmitir algo de positivo e partilhar a experiência.
O bom caminho para a felicidade é mesmo fazer: “isto é meu”. Ninguém gostou? Azar do caraças…