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Granada [Cave 45, Porto]

Porto. Sexta. Quatro de março de dois mil e dezasseis. Uma noite um pouco molhada, mas que não impediu que alguns melómanos se abrigassem ao som de boa música, dentro de uma famosa cave que amiúde brinda a noite portuense com bom Rock ‘n’ Roll, falo da Cave 45.

Os Adãomastor ficaram incumbidos da tarefa de lançar a granada, o que fizeram com grande estilo. Retiraram a patilha de segurança com riffs que se espraiaram dentro da cave, onde iam chegando as pessoas e se aproximavam do palco. Os riffs que saíam da stratocaster eram enérgicos, e os corpos presentes aqueceram-se um pouco nesse calor musical e carregaram aí as suas energias para aguentarem, com firmeza, o resto da noite.

Adãomastor são a prova que com pouco se pode fazer muito. Tiago Lopes e José Almeida não precisam de mais do que dois instrumentos, Guitarra e Bateria, para lançarem sonoridades que não conseguimos encaixar num género específico, e isso é bom. Podemos dizer que o som se encontra algures entre o Metal e o Stoner Rock, dados os riffs em evidência, acompanhados por uma bateria extremamente dinâmica e ativa. Mas, o som de Adãomastor não sendo de fácil classificação, dá ao ouvinte uma interessante capacidade de imaginar tipos de vozes que se encaixariam na sonoridade, alguns solos possíveis, entre outros possíveis sons que se lhe poderiam acrescentar.

Os Adãomastor deram um bom concerto e conseguiram abrir a noite da melhor forma.

Eis que a granada lançada está em palco e pronta a rebentar. A banda reflecte bem o seu nome, pois é com o suspense de que algo está na iminência de rebentar que assistimos ao concerto dos granada. Confesso que não conhecia muito o trabalho da banda, apenas uma música ou outra que ouvi através do youtube, e por isso, foi para mim, uma óptima surpresa vê-los ao vivo ontem no Cave 45. Hélder, Gualter e Davide abriram em grande a tour que vai levar a alguns locais de Portugal os sons do novo álbum AAA.

Desde a primeira música até à última, o público reflectiu a energia positiva que emanava desde o palco. A componente electrónica que faz parte da musicalidade dos granada é um condimento especial que podemos notar em evidência em músicas como “Nortada”, que tem uma sonoridade bastante forte e rasgada e onde uma voz em fúria afirma: “há na primeira uma arte de submissão, são todos fortes, homens de total complicação, eu fiz de tudo para querer mais do que água e sal, já sei que tudo é demais para este pantanal”. No “surto”, já ouvimos um ritmo mais lento mas que vai acelerando progressivamente, o intenso eco da voz dá um efeito psicológico bastante interessante à música, faz com que as palavras se entranhem e tentem a sua inscrição em nós. A componente lírica que os granada apresentam é bastante rica e merece toda a atenção de quem ouve. Uma componente surrealista transparece, em que o sentido das frases não é dado de forma linear, mas que acabamos por conseguir captar, quando apelamos às nossas subjectividades e criamos uma interpretação pessoal do que ouvimos. Afinal é essa liberdade que enquanto espectadores devemos ter e é sempre bom quando um artista, seja de que forma for, nos permite também sermos criadores.

A granada, de facto, rebentou no Cave 45 e todos os estilhaços sonoros foram sentidos pelos que estiveram nas proximidades. Uma bomba de sons que fica em nós, que explode dentro da alma e que faz reverberar e prolongar o concerto mais um bocadinho, dentro de nós. Fiquei com a sensação que este trio tem em mãos um projecto com pernas para andar e espero que esta tour possa dar a conhecer a muita gente o óptimo trabalho que os granada fizeram e que no palco apresentam tão bem.

Reportagem de Cláudio Azevedo