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Hate In Flesh – Wandering Through Despair

Os HATE IN FLESH (HIF) definem-se como uma banda que procura “fazer um som pesado e melódico, mas com a nossa essência no meio, criando o nosso próprio som.” E de facto é isso que este projecto vem debitando, desde Agosto de 2009.

Gravado no Brugo Studio, sob a batuta de Hugo Camarinha, nos meses de Dezembro e Janeiro, o álbum de estreia “Wandering Through Despair” é um repositório de canções mescladas por elementos oriundos de várias esferas da música heavy que reflectem bem o ecletismo dos músicos que compõe a banda. Percorrendo caminhos pejados de encruzilhadas oriundas do Power, do Thrash ou do Hardcore, os HIF seguem a linha Death, carregando sempre nos decibéis, mas nunca esquecendo a componente melódica, conseguindo dessa forma uma conjugação musical bastante apelativa.

O álbum abre com a faixa homónima “Wandering Through Despair” e logo somos confrontados com excelentes pormenores de Paulo Oliveira e César Silva nas guitarras, e esbarramos na muralha sonora debitada por Euler Morais na percussão. A voz cáustica e dilacerante de Maiko parece cavalgar pelas ondas sonoras produzidas pela bateria, contrastando com os riffs pesados, mas melódicos. Note-se também a forte componente lírica e os valores antagónicos que se digladiam ao longo do tema, uma vez que partindo da premissa da desolação negativa e apática: “I have to pay for my sins, i will not fight”, rapidamente surge o grito do Ipiranga: “Chained by the shadows of the past, I need to fight!” (…) “Even if there is only one opportunity… I will open paths…” Desta revolta e caos dialéctico, emergem os princípios que inspiram a banda e os motivos que presidiram á escolha do nome HIF, colocando na esfera do “eu” a decisão de enfrentar cada desafio com energias redobradas ou então soçobrar no abismo da alienação, consumido por pensamentos niilistas e abúlicos.

“Rebirth of Rotten Souls” é, liricamente, a continuação daquilo que foi postulado no tema de abertura, facto evidente em versos como: “I’ll prove that I can overcome everything/ Just watch my glory, do not try to change me/ Don’t insist, I wont give up.” Musicalmente poderoso e com um travo bem cru, o segundo tema confirma a qualidade dos músicos e a irrepreensível competência e entrega na execução de cada nota. Destaque para os momentos finais em que a velocidade da percussão truculenta parece ribombar nos nossos ouvidos.

E à terceira faixa escutamos uma musculada “Grinder Machine”, onde tudo é velocidade, peso, distorção, caos e growls cavernosos; explorando de forma intensa o potencial que cada instrumento oferece, os HIF puxam dos galões num tema arrasador que promete deixar em escombros qualquer plateia.

“Second to the End” conjuga diversos estilos de guturais num diálogo tenebroso e assertivo: “Everything lost its beauty/ Falling in darkness/ Apocalypse is born/ Destroyed all that is life…”. Na verdade, a qualidade dos HIF reside em grande parte na componente lírica, uma vez que a banda além de ter uma mensagem que procura transmitir, ou seja, um fio condutor que faz deste álbum um manifesto existencial, sabe exactamente como expressar essa ideia matricial.

Em “My Last War” é a componente musical que ganha destaque, visto que à semelhança de “Grinder Machine” este é um tema construído para o imediato. Assim sendo os instrumentos ganham novas tonalidades e dinâmicas, destacando-se a prestação da secção rítmica, nomeadamente, Pedro Bastos que arrasa no baixo, com linhas convulsionadas e melódicas. No final há ainda tempo para a guitarra ganhar protagonismo através de um solo electrizante.

“Hate Me” é a “pedra de toque” do álbum e acaba por estar intimamente vinculada à identidade da banda, uma vez que este universo se inscreve no signo do ódio, como se adivinha na escolha do nome HIF e na própria designação da “Hate Me Tour”, facto que lembra a exortação latina atribuída ao déspota romano Calígula: “Oderint dum metuant” (Que me odeiem, desde que me temam) e que parece emergir nos versos: “Hate me, hate for the truth/Just hate me/Hate me, me for nothing/ Just hate me”. A qualidade da música faz-nos até esquecer que escutamos um trabalho criado de forma independente, visto que é visível a maturação musical e o virtuosismo dos HIF.

O facto de suceder a “Hate Me, penaliza “Lost”, mas este não deixa de ser um tema intenso e pautado por riffs pesados entrecortados por solos em crescendo que conferem uma toada muito melódica.

“Trigger” abre com Maiko a carregar nos growls, e com muita distorção, há ainda espaço para apontamentos cativantes do baixo, e então, surpreendentemente, a faixa torna-se mais etérea e “downtempo”, desacelerando a níveis mais viscerais, para logo acelerar, descrevendo uma curva melódica rara no conjunto do álbum. No entanto, em “Memories” a fórmula repete-se, quando o álbum já caminha para o final e o ambiente se torna cada vez mais soturno e confessional, sendo que o próprio registo vocal se desloca do gutural para o ciciante e vice-versa.

O epílogo chega com “Dead Man” e nada melhor do que fechar “Wandering Through Despair”com este requiem sombrio e sinistro alicerçado no momento inverosímil da transcendência da morte.

Os HIF padecem do infortúnio de serem originários desta malfadada ocidental praia lusitana que há séculos deu novos mundos ao mundo, mas que actualmente foi remetida para uma masmorra exígua e bafienta, coarctada por grilhões impostos por esses outros mundos que agora triunfam sobre as cinzas calcinadas do passado.

Fora das ancestrais fronteiras, os HIF teriam certamente a exposição que merecem e seriam requisitados pelas produtoras, mas aqui têm de batalhar pelos próprios meios e subir a pulso na busca incessante pela transmissão da ideia e da arte. As palavras são deles, a vontade é de todos: “Every day i feel stronger/ Our revolution will start/ We will emerge from shadows/ Show our true faces…”

Texto por Rui Carneiro