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Holocausto Canibal [Julho 2012]

Oriundos da zona do Porto, os Holocausto Canibal são uma banda nacional extrema de Death Gore Grind com mais de uma dúzia de anos de carreira. O último álbum, “Gorefilia”, é uma produção de topo e talvez um dos mais bizarros da banda. Vale a pena ouvir.

A idade com que se lançaram à música, ou seja, uma faixa etária “jovem” fez com que o vosso projecto tenha sido visto, como algo pouco credível?
Muito provavelmente sim, até porque aquando dos primeiros ensaios, alguns dos elementos dessa formação inicial estavam também a pegar pela primeira vez num instrumento. Não havia qualquer tipo de experiência anterior muito palpável. Acrescentando a isso o nome da banda, a opção pouco comum pela língua portuguesa e o tipo de títulos usados… se calhar nada abonava muito em prol da nossa credibilidade, mas foi-nos propiciando alguma popularidade. Mas o facto de todos nós sermos presenças habituais nos eventos que iam acontecendo por cá e estarmos enraizados no circuito nacional, fez com que tivesse havido uma grande fluidez na forma como fomos sendo ciclicamente convidados para outros eventos. Desde o primeiro concerto dado, surgia sempre outra no horizonte e assim se foi desenrolando até agora. Algumas bandas nacionais chegaram até ao 15º aniversário, algumas tem uma longevidade ainda mais expressiva, mas poucas se mantiveram activas consecutivamente sem hiatos e sem paragens. Na verdade nunca equacionamos parar e continua a ser esse o nosso lema.

Não é mito, que se consideram a banda mais brutal de Portugal na onda grindcore de tendência gore. Optimismo, e confiança, são essenciais para o sucesso?
Há quem nos rotule dessa forma. Obviamente não existe um barómetro de brutalidade homologado que possa indicar essa liderança, nem é algo que alguma vez nos tenha preocupado. Uma coisa sabemos sem qualquer dúvida, nunca tivemos receio em demonstrar a nossa paixão por uma imagética mais forte e violenta sem recorrer a quaisquer suavizações estéticas com o objectivo de ser melhor aceite por um público mais vasto. Somos eventualmente a banda nacional de Death Metal / Grind com uma agenda internacional mais significativa e isso orgulha-nos bastante.

Curiosamente, ao pesquisar mais detalhes sobre a vossa banda, fui direccionada para inúmeros sites brasileiros, e não portugueses. Consideram que isso seja positivo? O facto de terem um forte reconhecimento, internacionalmente.
Sim claro, tentamos sempre que o nosso trabalho chegue ao máximo de pessoas. Os nossos principais mercados fora de Portugal são os Estados Unidos, Alemanha, América do Sul e também alguns países de leste [Rep. Checa, Eslováquia, Hungria]. O Brasil acaba por ser algo simples de justificar pela partilha da língua e por escrevermos em Português, desde sempre tivemos um grande feedback do Brasil e parece estar finalmente para breve a concretização de uma extensa tour em território Sul Americano.

Já tiveram o prazer de actuar com dezenas de bandas diferentes – existe alguma com que esperam subir aos palcos?
Há 15 anos atrás se nos dissessem que durante o nosso percurso iríamos tocar várias vezes com bandas como Deicide, Obituary, Napalm Death, Hypocrisy, Immortal, Entombed, Benediciton, Vader… provavelmente ficaríamos incrédulos e não acreditaríamos. Hoje em dia, apesar dos marcos já conseguidos, continuamos a dar igual valor a cada boa oportunidade que vai surgindo! E obviamente que continua a faltar-nos partilhar o palco com algumas grandes bandas, o “most wanted” top 3 poderia eventualmente ser composto por: Carcass, Cannibal Corpse e Morbid Angel.

São também reconhecidos pela comunicação social, são talvez das bandas dentro da onda alternativa, num círculo ainda fechado, mais chamada pelos media. Sentem que captam a atenção de quem não vos conhece?
Efectivamente surgem cada vez mais participações de Holocausto Canibal em programas e reportagens televisivas. Este facto é algo que verdadeiramente não conseguimos explicar até porque o nosso estilo é marcadamente extremo e bastante específico dentro da vastidão de sub-géneros que o metal engloba. Sempre estivemos disponíveis para esse tipo de divulgações e nunca foi nossa intenção agrilhoar eternamente a banda aos meandros mais profundos do underground. Embora hoje em dia, isto já nos transcenda um pouco, e por vezes só ficamos a saber meses depois, sobre alguns airplays televisivos e menções totalmente imprevistas ao nome da banda. Citarem Holocausto Canibal em talk shows ou sit coms transmitidas em prime time é algo que continuamos a estranhar um pouco e a assimilar com alguma perplexidade, mas se isso contribuir para cativar mais alguns seguidores à nossa sonoridade, pensamos ser positivo!

Quais foram as estratégias de marketing a que mais recorreram, para chegar a um patamar já reconhecível?
Muitas das nossas iniciativas promocionais e mesmo os próprios trabalhos em si desencadearam sempre opiniões bastante díspares de amor e de ódio. Essas duas facções antagónicas despoletaram espontaneamente uma publicidade enorme em relação a todos os passos que a banda ia materializando. Mais uma vez, foi algo que se foi processando naturalmente sem uma intervenção activa da nossa parte. Contudo, pensamos que hoje em dia, quer as pessoas se identifiquem ou não, com a nossa sonoridade, há um respeito quase unânime em relação ao nosso trabalho, fruto da longevidade e perseverança evidenciada pelo nosso percurso como banda.

Têm vários títulos de músicas, assim como as letras, que a percepção da mensagem, não é receptível à primeira vez. Por detrás de músicas como “Vulva Rasgada”, “Acupunctura Genital”ou “Coprofagico Fondue Escatofagico”, consegue existir alguma moral?
Neste álbum, “Gorefilia”, a componente lírica é uma viagem conceptual sobre parafilias, desvios comportamentais, padrões sexuais atípicos, amor bizarro… culminando muitas das vezes o processo, no habitual tingir do esperma por sangue. Sempre me interessei por esta temática. O número de parafilias existentes sofre actualizações constantes e por vezes chego à conclusão que existe uma parafilia possível para quase tudo! Depois de alguns álbuns a sorver da fonte patológica, forense, cirúrgica, anatómica… e mais recentemente ter estado aprisionado na temática genital, impunha-se uma mudança de conteúdos. Claro que a construção de cada conceito de álbum é antecedida por bastante pesquisa e leitura. Muitas das vezes o bloqueio causado pelo papel em branco exerce a sua influência, mas quando a fluidez criativa é finalmente despoletada, os textos surgem de forma bastante natural e espontânea. Curiosamente todas as letras do anterior “Opusgenitalia” eram consideravelmente mais densas e complexas e foram escritas em poucos dias, desta vez embora tenha havido uma simplificação intencional, no sentido de torná-las mais directas, o processo foi consideravelmente mais moroso. Acho que no “Gorefilia” podemos assumir que pela primeira vez temos refrões orelhudos nos nossos temas, passíveis até de serem cantados ou vociferados pelo público. Desta vez cinco letras não são da minha autoria o que contribui obviamente para uma maior diversidade! Começando pelo David Soares, sempre fui um consumidor da sua obra desde o “Mostra-me a tua Espinha” e sempre me ocorreu que um dia ele nos pudesse ceder alguma da sua escrita para Holocausto Canibal. Poder usufruir na “Acrotomofilia Zoófila”da sua minúcia e morbidez descritiva, sempre patente nos seus contos de terror, é algo que muito nos orgulhamos e podemos desde já avançar que esta colaboração não termina com o “Gorefilia”! Em relação ao Charles Sangnoir [LaChansonNoire], que contribuiu com a “Putrescência Necromântica”, revelou possuir uma mente [provavelmente] mais rebuscada que nós próprios e não podíamos de forma alguma abdicar dos seus escritos. Quanto ao Fuse, não só escreveu a “Supremacia Carnívora” e a “Vorarefilia – Antropofagia Auto-Infligida II”, como fez ainda um tema de raiz, “Fascínio Paradoxal”, que por toda a negritude e força que transporta conquistou naturalmente a posição de fecho do álbum.

Sentem que os adolescentes de agora, dão mais importância à parte estética dos movimentos, do que aquilo que os move?
Todos os produtos tem cada vez mais um cariz efémero de consumo imediato. Muitos projectos surgem, com uma imagem cuidada e apelativa, fazem um circuito de 3 a 5 festivais e desaparecem logo de seguida sem deixar rasto. Parte dos elementos voltam meio ano depois com novo nome e nova aproximação sonora a ver qual a receptividade. Na verdade, ninguém parece importar-se muito com esse fenómeno nem com a pouca longevidade das bandas de hoje em dia.

Em que altura da vossa carreira, a banda começou a protagonizar o vosso dia-a-dia, tendo que deixar de dar prioridade, ao que até aí, era costume?
Desde cedo a gestão de Holocausto Canibal implicou inúmeras tarefas. Provavelmente nos primeiros anos perdíamos muito mais tempo a fazer um simples mailing ou envio de uma newsletter sobre a banda… (escrever os envelopes, as cartas, gravar cassetes, colocar selos, ir aos correios…) hoje em dia fazes um envio massivo de um EPK para o mundo inteiro em poucos minutos. Claro que esses tempos também tinham os seus encantos e o cariz menos imediato com que tudo acontecia acabava por propiciar uma maior valorização a todo o processo. Acho que gradualmente fomos idealizando métodos de acção e uma melhor divisão de tarefas entre os elementos da banda, o que nos tem permitido com cada vez maior eficiência, conciliar todas as demais actividades.

Queremos saber quais são os projectos para um futuro próximo?
Neste momento, já temos novo material gravado e totalmente finalizado, que poderá sair num split ou numa edição especial de comemoração dos nossos 15 anos de carreira. Para já a prioridade é promover ao máximo o Gorefilia em concertos e restantes actividades promocionais..

Porque do filme “Holocausto Canibal” – para dar nome à banda que vinha a ser a mais brutal do nosso país?
Talvez tenha sido a nossa forma de prestar homenagem não só a este filme em particular mas a todo um vasto filão cinematográfico. O filme Holocausto Canibal, de Ruggero Deodato, tem uma estética bastante interessante que acabou por funcionar em grande parte, devido a espontaneidade e à força das imagens, nas quais nunca se sabe com precisão onde a realidade acaba e a ficção começa.

“Today people want sensationalism; the more you rape their senses the happier they are.” Holocausto Canibal (filme) – Tendo em conta ser uma passagem do filme que vos protagoniza, concordam com a afirmação?
O sensacionalismo é na sociedade actual uma fórmula quase inerente ao sucesso de qualquer campanha de marketing. Qualquer iniciativa só se torna efectivamente viral, alastrando de forma exponencial e descontrolada se tiver a sua dose de sensacionalismo. No filme em questão o Professor Harold Monroe parecia no entanto discordar desta linha de pensamento. Mas é inegável que muitas pessoas vivem acomodadas e amordaçadas numa rotina diária apática e robótica e por vezes só as ocorrências mais desviantes e bizarras conseguem despertá-las para tudo o que as rodeia.