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Igorrr – Hallelujah

A música que hoje analisamos confirma a prerrogativa de qualidade que grassa ultimamente em França. O ano de 2012 deixou-nos “Les Voyages De L’Âme”, dos Alcest, e “777 – Cosmosophy”, dos Blut Aus Nord. Mas, lembrando que “até ao lavar dos cestos é vindima”, 2012 prometia outra deflagração gaulesa de excelência.

Avizinhava-se o Natal, Gautier Serre (compositor mais conhecido pelo “nome de guerra” – Igorrr) dava à luz a sua nova gárgula musical: “Hallelujah” (via Ad Noiseam). Estávamos no dia em que o mundo devia acabar e não acabou. Em França, centenas de pessoas congregavam-se picos de Bugarach (a escassa distância de Carcassonne, a célebre cidade fortificada dos Cátaros). Neste cenário de comédia negra, o novo álbum de Igorrr surgia como banda sonora perfeita para um apocalipse surreal e picaresco, uma epifania musical ainda mais subversiva que “From Rotting Fantasylands”, dos Nero’s Day At Disneyland.

Em 2010, o álbum anterior, “Nostril”, confirmara aquilo que podia ser intuído nos primordiais “Poisson Soluble” e “Moisissure”, Igorrr vogava por “mares nunca dantes navegados” e, sublinhando o seu cunho iconoclasta, combinava a música barroca e clássica com breakcore e metal, atingindo níveis de fusão verdadeiramente inauditos.

De facto, Igorrr parece comungar do poder demiúrgico do “Artifex”, ou seja, como em Mozart, Bach, Picasso ou Pessoa há nele uma voz sibilina imanente que, transfigurada em arte, ascende à esfera do sublime. “Nostril” é um exercício diletante e narcísico; é Igorrr a puxar pelos galões da sua genialidade, mostrando todo o aparato da sua parafernália musical. “Hallelujah” é um novo marco evolutivo, na medida em que corresponde a um processo de superação e sublimação do paradigma estabelecido anteriormente. Onde havia a exacerbação da genialidade do criador, há agora uma polifonia e mundividência exemplares. À vocação centrípeta de “Nostril” sucedia a diversidade centrífuga de “Hallelujah”.

Uma das correligionárias de Igorrr que oficia em Hallelujah é Laure Le Prunenec, da banda normanda Öxxö Xööx. Laure começa por dar voz a “Tout Petit Moineau”. O portentoso canto lírico contrasta com a figura esguia da vocalista e, à medida que as teclas do piano são castigadas, esse canto evola-se numa toada soturna que fala a voz dos ciprestes e das veredas marmóreas dos cemitérios. O tom é clássico e saturniano, sublimado pelo violino de Benjamin Violet (Tryo), mas aos instantes de diástole lúgubre e sepulcral seguem-se as sístoles dos “samplers”, cindindo as harmonias líricas com a perplexidade oblíqua dos relâmpagos estivais. Na seguinte, “Damaged Wig”, as sonoridades barrocas mesclam-se com uma panóplia de elementos exógenos consubstanciando as paisagens sonoras prediletas de Gautier Serre, ou seja, aquilo que o músico ousou designar como “Baroquecore”.

Entrando no conceito de liturgia invertida e paródica que, subliminarmente, parece percorrer “Hallelujah”, “Absolute Psalm” começa a britar os nossos tímpanos e instala-se a anarquia sonora do breakcore cruzado com black/death. Com efeito, escutar este “Salmo” apocalíptico é como avançar de encontro a uma avalanche avassaladora. Saliente-se a participação de Teloch, dos Mayhem, potenciando a agressividade do tema com eflúvios brutais de guitarra. A restante amálgama sonora nasce da voz de Laurent Lunoir (Öxxö Xööx), das teclas de Benjamin Bardiaux (Pryapisme, Babayaga) e do saxofone de Vincent “Mulk” Goubeau (vocalista em Whourkr). Recorde-se que Gautier Serre tem um projeto paralelo, Whourkr, que tem um caráter não tão eclético como Igorrr, mas mais brutal” e “primitivo”, combinando exclusivamente breakcore e death metal, sendo que “Absolute Psalm” e “Lullaby For a Fat Jellyfish” denotam alguma similitude com essas sonoridades mais extremas.

“Cicadidae” (cigarra; tzitzikas, em grego), como o título sugere, é uma incursão estival e lúdica que recupera a relação onomatopaica e musical que o nome mantém com o som produzido pelo inseto. “Vegetable Soup” sugere ambientes dignos do clássico “Gato Preto, Gato Branco” de Emir Kusturica, evocando paisagens sonoras que parecem reminiscentes de uma musicalidade florescente nas margens do Danúbio, brotando do acordeão de Adam Stacey, do baixo de Frederic Garcia, das teclas de Bardiaux e de três vozes: Pedrou Lacasa, Jasmina Barra e, para sublinhar a insanidade picaresca ao estilo Kusturica, a participação especial do cacarejar da galinha de estimação de Gautier.

A próxima, “Lullaby For a Fat Jellyfish”, e “Absolute Psalm” são os temas mais pesados do álbum e refletem o que acontece quando Igorrr e Teloch combinam esforços para criar música. Depois das sonoridades mais extremas, chegam momentos como “Grosse Barbe” e “Corpus Tristis”, sendo que esta assume contornos de melopeia sorumbática ou requiem neurasténico. “Scarlatti 2.0” recorre novamente ao canto lírico e a uma pródiga utilização do cravo, facto que confere ao tema aquele travo barroco que agrada a Serre. Depois da caleidoscópica “Toothpaste”, o álbum termina com a vertigem alucinada de “Infinite Loop”.

Descobrimos Igorrr e o novo “Hallelujah” apenas no dealbar de 2013, caso contrário este seria um álbum a equacionar na altura de escolher as obras fundamentais de 2012. A música de Igorrr é controversa e subversiva, não agradando, porventura, a gregos e troianos, mas, na verdade, a arte de vanguarda é mesmo assim. Como diria Fernando Pessoa quando, em 1928, escreveu o slogan de lançamento da Coca-Cola : “Primeiro, estranha-se. Depois, entranha-se”. O refrigerante seria proibido pelas autoridades por, alegadamente, ser suscetível de criar habituação. Felizmente, até ao momento, não consta que Igorrr tenha sido detido e “Hallelujah” continua a ser de venda livre ao público, ainda que já tenham sido reportados alguns casos de habituação, e até de dependência.
Alinhamento de “Hallelujah”:

1. Tout Petit Moineau
2. Damaged Wig
3. Absolute Psalm
4. Cicadidae
5. Vegetable Soup
6. Lullaby for a Fat Jellyfish
7. Grosse Barbe
8. Corpus Tristis
9. Scarlatti 2.0
10. Toothpaste
11. Infinite Loop

Análise de Rui Carneiro