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Igorrr [Janeiro 2013]

Carismático, polémico, iconoclasta, subversivo, Gautier Serre reúne todos esses epítetos e muitos outros. Celebrizado com o pseudónimo Igorrr (inspirado no nome de uma ratinha de estimação que morreu quando o músico criava as primeiras composições), Serre abriu a sua caixa de Pandora para a Rock n’Heavy , expondo um dos universos musicais mais arrojados da atualidade. Depois de analisarmos “Hallelujah”, o seu mais recente “Bestiário” musical, temos agora a oportunidade de saber mais sobre o homem e a sua música nas palavras do próprio Gautier Serre:

Em primeiro lugar perguntava-te como nasceu Igorrr. Não propriamente a história em si, mas o que é que incendiou essa faísca?
Aquilo que despoleta a minha necessidade de fazer este tipo de música é o facto de que não encontrei em sítio nenhum o que eu queria ouvir. Gosto tanto de música barroca como de death, black metal ou música eletrónica, e simplesmente queria ouvir tudo ao mesmo tempo.

É bastante elitista e não-comercial, mas a música que eu faço é o meu ponto de vista pessoal daquilo que é a música ideal para mim. Quando era adolescente ouvia muito death metal, como Cannibal Corpse ou Meshuggah, descobri todos os estilos extremos da música eletrónica como o IDM e o Breakcore, e depois descobri também o génio de Domenico Scarlatti, J.S. Bach, Chopin, e todos esses compositores barrocos e clássicos. Como podes imaginar, passar das revistas para os sítios onde comprar esses estilos de música, não era bem a mesma coisa. Ainda assim estava apaixonado por todos esses universos e queria absolutamente juntar todas essas coisas maravilhosas. Foi assim que começou!

Algum músico ou banda funcionou como influência no que toca à fusão/experimentação que começaste a fazer?
Na fusão em si nem tanto, mais no sentido de como uma banda representa um estilo musical. Eu gosto de bandas que levam as suas ideias além e criam as suas próprias regras, creio que estavam a alimentar-me com todas as suas ideias. Certas bandas como Mr. Bungle ou Vladimir Bozar ‘n’ ze Sheraf Orkestär fazem uma espantosa fusão entre estilos, mas é praticamente só isso que conheço de bandas que misturem estilos.

Há algo hoje em dia que te dê prazer ouvir? Seja porque consideras bom ou porque é inovador.
Sim, muitas coisas. Recentemente andava a ouvir o novo álbum de Pryapisme, chama-se: “Hyperblast Super Collider” e é simplesmente brilhante; também o último de Ruby My Dear (“The Remains of Shapes to Come”) é brilhante. Mas ando a ouvir coisas antigas também. Por exemplo, os dois álbuns que tenho andado a ouvir recentemente são o “Chimera”, de Mayhem, e o “Honourable Brigands, Magic Horses and Evil Eye”, da banda Romena Taraf Haïdouks. Sem palavras.

Pessoalmente sinto que o teu trabalho partilha algo da abordagem experimental (e qualidade) que os Venetian Snares fazem, embora com uma sonoridade totalmente diferente. Sentes que existe uma ligação, ou pelo menos algo em comum com algum projeto ou banda existente? Se sim, quais?
Sim, sem dúvida, existe uma ligação, Venetian Snares são, para muitos, os mestres do Breakcore, e eu estou a utilizar muito esse estilo nas minhas músicas como “cimento” para misturar muitos outros estilos, como um elemento onde se pode misturar muitas coisas ao mesmo tempo. Esta música é livre o suficiente para ser destruída e reconstruída tanto quanto necessitemos, e é uma base rítmica perfeita para adicionar estilos exigentes como a música barroca ou o death metal.

É impossível não falar do “artwork” dos teus álbuns. Os conceitos e ideias são teus, ou dás liberdade total ao artista?
Todas as minhas capas são criadas pelo meu amigo Antoine Martinet, mais conhecido como Mioshe: http://www.mioshe.fr

As ideias são inicialmente minhas, dou-lhe a linha principal e a base, e ele faz a magia. Neste momento adequa-se perfeitamente ao que quero transmitir com a minha música, uma espécie de mistura entre a fealdade e o horror deste mundo, e um lado belo e delicado por outro lado. Estas são as melhores emoções opostas, para mim.

Um grande problema no seio do metal é que sempre houve uma falta de abertura a coisas electrónicas, apesar de nos últimos anos me parecer que isso está, lentamente, a mudar.
Algumas bandas de black metal industrial estão a ganhar uma base de fãs mais alargada entre os aficionados mais devotos do metal, sendo que a evolução da música extrema experimental também parece contribuir para isso. Sentes algum tipo de diferença na reacção à tua música?

Isso é infelizmente verdade, e ainda há um longo caminho a percorrer. No entanto, sim, sinto uma diferença entre a actualidade e o passado. Como disseste, sinto que as coisas estão lentamente a mudar. Tal como sucedeu da primeira vez que ouvi Cannibal Corpse, estava a pensar “foda-se, isto é demais, como é que podem fazer música assim!”. E agora eles são a maior banda de death metal na minha opinião. Acho que apenas é necessário tempo. A música que estou a fazer é corresponde àquilo que desejei ouvir durante anos, é algo que eu sentia, e acho que se eu sentia isso, mais pessoas o sentirão também.

Um exemplo de uma banda que está a tentar quebrar essa barreira é Morbid Angel. Eles já tinham feito algumas experiências de fusão com elementos electrónicos no passado, mas no “Illud Divinum Insanus” correram um risco que, para a maioria do meio do metal, foi um erro enorme.

Como vês o futuro no que toca a fusões entre metal e electrónico (ou seja o que for)? Achas que as mentalidades vão, finalmente, abrir-se?
Sim, precisamente, os Morbid Angel foram corajosos o suficiente para experimentar algo novo, mas os verdadeiros fãs da banda esperavam muito deste álbum, como já não lançavam nada desde o “Heretic”, em 2003, e esperavam acima de tudo, acho eu, death metal “clássico” como eles faziam. Ainda por cima o David Vincent tinha voltado para as vozes, portanto a pressão era elevada! Acho que os Morbid Angel estavam certos em tentar algo novo, e mesmo após todos estes anos em palco, queriam experimentar e isso é de respeitar. A ideia é boa, para mim, mas o resultado infelizmente não é espantoso neste álbum, tirando as faixas de death metal que, na minha opinião, são excelentes na mesma. A editora deles, a Season of Mist, levou a experimentação ainda mais longe, pedindo a alguns artistas de música electrónica para reconstruir algumas faixas de “IlludDivinum Insanus” em algo ainda mais electrónico! Esse álbum chama-se “Illud Divinum Insanus – The Remixes” e eu faço parte dele com a faixa “Remixou Morbidou”, tendo sido lançado no ano passado (2012) em Fevereiro, e na minha opinião a ideia era muito boa. No entanto, o resultado não foi tão bom como eu esperava.

Não sei se existirá uma abertura nas mentalidades. Acho que, se a música for boa, algo irá mudar.
Mas se a música for uma merda, acho que não.

Nos Whourkr também misturas breakcore/idm com metal. Não se torna por vezes difícil de separar que música vai para onde, ou tens uma abordagem radicalmente diferente ao criar para Igorrr?
Compor com Whourkr era mais fácil, no sentido de que apenas havia 2 estilos com que me preocupar: Death Metal e Breakcore. É mais primitivo e brutal! Agora o projecto está morto e estou a focar-me totalmente em Igorrr.

Sempre tive necessidade de fazer death metal, ou música brutal do género, e Igorrr inicialmente era mais “cinemático” e fusão, do que puramente death metal, por isso tive que criar um projecto como Whourkr – fi-lo com o Laurent Lunoir, dos Öxxö Xööx. Hoje em dia há muito mais metal em Igorrr, portanto posso exprimir-me completamente com apenas este projecto.

Acho que para mim sempre foram 2 coisas bastantes distintas; como em Whourkr estava a trabalhar com um vocalista, as composições que fazia eram para ele. Com Igorrr sou totalmente livre e arranjo os vocalistas que quero nas músicas – quer dizer, se ele concordar, claro – mas não é o mesmo processo de composição.

Sentes que ainda há algo adicional para explorar na tua música? Isto é, claro que há sempre algo, mas para já, neste momento, tens aquela sensação – “Hummm ainda falta algo” – ou sentes que estás a tocar nos pontos certos por agora? Boa pergunta, meu! A sensação para mim é um bocado estranha, agora, porque sinto-me totalmente satisfeito com “Hallelujah”, é exactamente aquilo que eu queria fazer, mas ao mesmo tempo não consigo acreditar que cheguei ao topo, ou algo do género, isso é impossível. Neste momento não vejo como poderia levar as coisas mais além, mas sei que o meu cérebro não me vai deixar descansar por muito tempo e que algo novo vai estar a caminho mais cedo do que eu gostaria.

Trabalhei tanto neste álbum, precisamente para não sentir que algo estava a faltar ou algo do género, e está feito; mas para o próximo álbum, não faço a menor ideia, neste momento, de por onde levar a coisa para que seja mais pesado

A música dita “séria” sempre foi vista como algo estruturado e a ser criado com instrumentos reais. Hoje em dia acho que cada vez mais artistas se servem de um certo grau de aleatoriedade, sons e gravações quase como folleys1 na sua música. Li, há uns anos, uma entrevista em que dizias que utilizar samplings aleatórios ou inesperados poderia condicionar a tua credibilidade como músico e artista. Ainda acreditas nisso?

Sim, de certa forma, ainda acho que se compões de uma forma menos “usual”, ou pelo menos desconhecida, as pessoas de mente fechada não te irão dar crédito como músico e, da mesma forma, não irão compreender o significado da tua música. Por outro lado, ao adicionar samples de aspiradores e cabras às minhas músicas, não poderia esperar outra coisa J

Felizmente está a modificar-se ligeiramente, à medida que esta forma de fazer música se torna mais popular, mas ainda se mantém muito underground.

Fundindo música barroca nas tuas músicas, põe-se a questão: sendo que nunca foste um músico com aprendizagem clássica, passaste tempo a estudar a música barroca, na sua forma e estrutura, ou limitas-te a emular a mesma e adicionar o que quer que te soe bem?
Eu estudei música quando era mais novo, mas isso não me ajuda com o que faço hoje em dia, e não foi sobre a música barroca em particular, mas sim no geral. Simplesmente tenho conhecimentos musicais e sobre algumas regras das melodias – pelo menos sei o suficiente para criar as minhas próprias regras e tornar a minha música mais pessoal. Sou acima de tudo auto-educado, sendo que não existem escolas ou o que quer que seja para o tipo de coisas que quero criar. De qualquer forma o mais importante é, tal como disseste: tem que soar bem! Se a música te soa bem, não precisas de estudos para compreender isso, é mais físico: ou gostas ou não gostas. Mais do que a teoria das melodias, o som é muito importante para mim, é como cozinhar com bons ingredientes, a tua
comida será sempre muito melhor do que se o fizeres com cenouras podres. A ideia da melodia e do ritmo são o principal, e o instrumento e som para o exprimir são muito importantes para mim.

Sentes que ter formação musical é algo de que os músicos, independentemente do seu estilo, podem beneficiar, ou vês isso como algo secundário?
Acho que pode ser uma ajuda, mas não é totalmente necessário para fazer música. Na realidade depende dos teus objectivos: se queres tornar-te um mestre de um determinado instrumento, acho que a escola ajuda imenso. Se o teu objectivo é criar ideias, melodias ou músicas então, na maioria dos casos, não precisas de um controlo total sobre o teu instrumento, e o básico pode ser suficiente.
De qualquer forma acho que, como músico, é sempre melhor ter algumas bases musicais.

Disseste anteriormente que te interessava o estudo do caos na música. Qual é a tua abordagem? Tentas desconstruir a música e atingir o caos dessa forma, tomas um rumo mais aleatório, vendo o caos como uma série de eventos aleatórios, ou é algo totalmente distinto?
Sim, o caos é muito interessante na música, mas é apenas a sua aparência, pois a realidade é que é tudo muito controlado. Nos meus temas tento colocar o máximo de ideias que tenho numa só música, pelo que não há muito espaço nem tempo para exprimir cada uma, é uma condensação muito elevada de música, como um óleo essencial. Eu usaria o termo “boa organização” em vez de “caos”. Quando vês as cidades sobrepovoadas da Índia, parecem-te completamente caóticas ao haver demasiadas coisas a acontecer ao mesmo tempo mas, na realidade, acho eu, é tudo bem organizado.

Muito obrigado pelo teu tempo, fica uma pergunta final: como é que encorajarias as pessoas a ouvir Igorrr? Sentados num sofá a tomar chá, a rebolar na lama enquanto gritam, algo totalmente diferente? Deixa-nos ter um vislumbre do que vai na tua cabeça.
Eu aconselharia tudo ao mesmo tempo! Tentem rebolar na lama enquanto bebem chá e gritam, esse seria o melhor estado de espírito para o experienciar.