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Inkilina Sazabra – Almas Envenenadas

Movimentando-se no âmbito de sonoridades industriais, os INKILINA SAZABRA presentearam-nos, no dealbar de 2011, com o álbum de estreia “A Divina Maldade”, sendo que recentemente chegou aos escaparates, via Infektion Records, o segundo álbum de originais, “Almas Envenenadas”.

Quimera musical nascida da colaboração entre os Inkilina Morte e o escritor Pedro Sazabra, Inkilina Sazabra assume-se como um projeto de amplo fôlego artístico, pela forma como, partindo da obra literária amplifica essa matriz encantatória através da vibração hermética da música. De salientar que, este projeto elege a língua portuguesa como única forma de expressão fonética, demonstrando claramente uma predileção quase hedonística pela virulência do verbo nacional.

Enveredar no universo oblíquo e distorcido de “Almas Envenenadas” coloca-nos perante circunstâncias inverosímeis e surreais que parecem emergir da esfera da metempsicose (do grego: “meta”/além de + “psichê”/alma). A tétrica “Viagem Venenosa” aponta o caminho: “Não são precisas tais extremidades nesta viagem
pelas psicoses humanas, pois a qualquer momento se pode abandonar as almas envenenadas.” Este frémito existencial e metafísico encontra ecos e nexos semânticos com inúmeros universos poéticos: “Metempsicose” (Antero de Quental) exibe essa perplexidade ôntica: “Noutra vida e outra esfera, onde geme/outro vento, e se acende um outro dia,/que corpo tínheis? Que matéria fria/vossa alma incendiou, com fogo estreme?”

Deambulando por estas paisagens de “locus horrendus”, encontramos outros nexos, outras atmosferas e paisagens que parecem remeter para leituras de William Blake, Thomas Moore ou José Luís Peixoto. Em composições como “Abismo” e “Almas Envenenadas” há uma exacerbada exaltação do horrendo, abjeto, atroz e vil, facto que nos aproxima da visão baudelairiana de uma existência mundana e boémia que se compraz com o lado mais vicioso da sociedade. “Abismo” é um dos temas mais cativantes do álbum, seja pelo seu lirismo perturbador, pela cadência industrial repercutida nos guturais lancinantes do refrão ou pelos surpreendentes momentos de ataraxia. No single “Almas Envenenadas”, que conta com a participação de Rui Sidónio (Bizarra Locomotiva) na voz, flui inequivocamente essa simbiose entre o literário e o musical, entre o belo e o horrível, entre a melodia do piano e o ribombar elétrico da guitarra.

A rapidíssima, feroz e crua “Caverna dos Malditos” combina elementos industriais, punk e eletrónicos num caldeirão sonoro que emana vapores hipnóticos com reminiscências platónicas e cinematográficas.

Em “Depressivo/Ódio” convergem impressões fantasmáticas através de neblinas sonoras etéreas que resumem o clima de neurastenia subjacente ao lirismo surreal da composição.

Ao devaneio lírico, segue-se a natureza crua e ríspida de “Cala-me essa boca” e os delíquios boémios de “Predador Mental” que sobressai pela singularidade melódica do trombone de varas de Irina Monteiro (SMFOG). Este tríptico de temas de curta duração encerra numa toada apoteótica com incursões a sonoridades mais extremas na rasgadíssima “O Sangue Ferve”.

“Ao abrigo da Sombra “ e “Máquina da Fama” convocam atmosferas libidinosamente mundanas, explorando fugazes impressões de um quotidiano que, no segundo tema, emerge das veleidades mais esconsas e patéticas da sociedade atual.

As sonoridades mais industriais regressam com a corrosiva “Viver e Morrer”, no entanto, a dado momento há uma inflexão brusca na construção musical do tema, interrompendo-se a toada estrídula quando entra em cena o piano de Nuno Flores (The Crow), criando um interlúdio melódico entre paredes de distorção. A próxima, “Pacto Animal”, comunga da mesma vocação industrial.

A vertente conceptual de “Almas Envenenadas” e a complexidade estrutural do álbum aponta para uma organização em forma de mandala, até porque essa noção de circularidade sai reforçada no epílogo “Doce Veneno”, ao serem recuperadas as premissas postuladas no tema inaugural. “A viagem envenenada pelas psicoses humanas… terminou.”

Na verdade, e concluindo, os Inkilina Sazabra em “Almas Envenenadas” não se limitam a explorar os meandros obscuros e patológicos das psicoses humanas.
Cruzam sucessivamente o abismo que medeia o hiato inverosímil entre o eufórico e o disfórico, deambulando pelas paisagens surreais da metempsicose. Daí que, em “Viagem Venenosa”, o alacrau não crave o ferrão no dorso para morrer sem dor e em “Doce Veneno” se exclame “o alacrau está vivo!”, até porque na linha dos mistérios órficos: “Os malditos da nossa caverna mesmo que partam fisicamente deste mundo, lá ficarão, os malditos não morrem.”

Análise de Rui Carneiro